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Revista da
AMRIGS Volume 48 No
1: 1 - 72 / Janeiro - Março 2004 BL ISSN
0102 - 2105
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ARTIGO ORIGINAL |
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Estudo comparativo entre anestesia local e raquianestesia
na herniorrafia inguinal |
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Daniel Nunes e Silva, Leonardo Quadros da Paixão,
Humberto Kern Laydner, Lara Catarine de Luca Maciel, Márcio Longhi Griebeler,
Renato Michelon Naconecy, Carlos Cléber Alves Nunes,
Fernando Antônio Bohrer Pitrez
Introdução
As herniorrafias inguinais estão entre os procedimentos cirúrgicos mais
comuns (1). As vantagens de realizá-las com anestesia local já estão bem
estabelecidas: menor morbidade para o paciente, internação abreviada e
redução dos custos hospitalares (2-5). Apesar disso, a correção herniária,
nesses moldes, não é uma prática estabelecida como rotina em nosso meio
(6,7). O objetivo deste estudo é analisar os benefícios da anestesia local
nas herniorrafias inguinais quando comparada à raquianestesia (bloqueio
subaracnóideo) e, de acordo com os resultados, propor um protocolo a ser
seguido pelo Serviço de Cirurgia Geral do Complexo Hospitalar Santa Casa de
Porto Alegre.
Material e Métodos
Foram analisados prospectivamente 105 pacientes
submetidos a herniorrafias inguinais primárias e eletivas, no Centro
Integrado de Hérnia do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre, no
período de janeiro a outubro de 2002. Todos os procedimentos foram
realizados pelo mesmo cirurgião, residente do 1o
ano, obedecendo, rigorosamente, a uma rotina previamente estabelecida. As
técnicas de reparo herniário foram Bassini e Lichtenstein, e seguiram as
descrições dos autores originais (8).
A escolha da técnica anestésica, anestesia local ou
raquidiana, ficou a critério do paciente. A anestesia local consistiu de 20
ml de lidocaína a 0,5% com adrenalina (1:200.000), 20 ml de bupivacaína a
0,25% com adrenalina (1:200.000) e 20 ml de soro fisiológico 0,9% (6). A
solução anestésica foi infiltrada na espinha ilíaca ântero-superior, no
tubérculo púbico, na linha planejada para a incisão cutânea e profundamente
à aponeurose do músculo oblíquo externo (6,9). Inicialmente, foram aplicados
30 ml da solução. No transoperatório, através de questionamentos
intermitentes, novas doses do anestésico foram infiltradas para obtenção do
alívio total da dor. Para a raquianestesia, realizada pelo anestesista com o
paciente sentado, foi utilizada bupivacaína pesada 0,5%, 10-15mg, injetada
no nível de L3-L4, com agulha 25G, seguindo a técnica clássica descrita na
literatura (10). Para sedação leve, tanto na anestesia local quanto na
raquianestesia, foram utilizados midazolam (5mg/ml EV) e fentanila (0,05mg/ml
EV), a critério do anestesista. Durante o procedimento o paciente permaneceu
consciente, conversando com o cirurgião.
Imediatamente antes de deixarem a sala cirúrgica e
durante a internação, todos os pacientes receberam clorofenotiazinilscopina
(3ml IM 6/6h) e cetoprofeno (100mg IM 12/12h). Os mesmos foram orientados a
solicitar mais medicação analgésica, conforme necessidade, para alívio total
da dor. O esquema analgésico aplicado, então, constituiu-se de morfina 3mg
EV 3/3h, se necessário. O consumo de analgésicos, na internação, foi
acompanhado através dos registros da equipe de enfermagem e verificado com o
próprio paciente.
Durante a hospitalização, um integrante da equipe
cirúrgica que não sabia qual técnica anestésica havia sido utilizada
verificou a intensidade da dor baseada numa escala análoga visual (11,12). A
escala era padronizada em 10mm, sendo que 0mm correspondia à ausência de dor
e 10mm, dor máxima (3). Os questionamentos foram realizados enquanto os
pacientes permaneciam na sala de recuperação e repetidos na enfermaria
cirúrgica.
No momento da alta, os pacientes foram questionados
quanto à satisfação em relação à técnica anestésica empregada. Prescrevemos
paracetamol (750mg VO de 6/6h), para uso em caso de dor. Foi solicitado que
os pacientes registrassem as medicações analgésicas utilizadas. Os pacientes
foram orientados a permanecer em repouso por 15 dias e a realizar curativos
diários no Posto de Saúde, com retirada dos pontos no 7o
pós-operatório. Todos os indivíduos foram incluídos num protocolo de
acompanhamento, com revisão clínica ambulatorial no 15o
e 90o pós-operatório, quando verificávamos a
presença de dor, a utilização de medicações analgésicas e a incidência de
complicações. Os pacientes que não retornaram à consulta ambulatorial foram
excluídos do estudo, o mesmo ocorrendo quando da necessidade da conversão
para anestesia geral.
As informações foram digitadas em um banco de dados e,
para a análise, os pacientes foram divididos em dois grupos: um submetido à
raquianestesia e outro à anestesia local. Os resultados foram analisados no
centro de pesquisa da instituição, através dos métodos Anova, Qui-quadrado e
Teste exato de Fischer, onde consideramos estatisticamente significativas
diferenças com p<0,05.
Para análise referente aos custos dos procedimentos
anestésicos, utilizamos a tabela padronizada pelo Sistema Único de Saúde
(Tabela de Custos do Sistema Único de Saúde BR / 2002 – dados não
publicados), utilizada na instituição.
Resultados
Durante o período do estudo, 105 pacientes foram
submetidos a herniorrafias. Desses, 14 foram excluídos: 13, por não
compareceram às consultas ambulatoriais de acompanhamento pós-operatório e 1
devido à falha na raquianestesia, com necessidade de conversão em anestesia
geral. Assim, 91 pacientes, cujas características encontram-se na tabela 1,
constituíram a amostra final.
Tabela 1 – Características da
amostra
A idade média da população foi de 49,9 anos, com
preponderância do sexo masculino e cor branca. Nenhum paciente possuía
fatores de risco para infecção, como desnutrição, diabete,
imunodeficiências, uso de drogas imunossupressoras ou corticosteróides. O
tempo médio de internação foi de 1,53 dias. O tipo de hérnia mais comumente
encontrado foi a inguinal indireta, principalmente à direita. O tempo médio
de permanência do paciente em sala cirúrgica foi de 1,49 hora. Foi aplicada,
à maioria dos pacientes, a técnica de Lichtenstein e a anestesia raquidiana
foi a mais utilizada.
Não identificamos qualquer característica díspar entre os
14 pacientes excluídos e os da amostra analisada. Conforme exposto na Tabela
1, verifica-se a semelhança entre os grupos estudados.
De acordo com a Tabela 2, a ocorrência de dor no
transoperatório foi significativamente maior no grupo da anestesia local (p<0,05).
Durante a permanência do paciente na sala de recuperação anestésica (SR),
não houve diferença na ocorrência de dor (p>0,05); por outro lado,
verificamos que a incidência e intensidade da dor, durante a internação
hospitalar, foram menores no grupo que utilizou a anestesia local (p<0,05).
O consumo de analgésicos durante a internação não apresentou diferença
estatística entre os grupos.
Tabela 2 – Relação da técnica
anestésica com a dor
Conforme os resultados apresentados na Tabela 3, os
pacientes submetidos à anestesia local apresentaram menor tempo de
permanência em sala de recuperação anestésica (p<0,05). Não evidenciamos
diferença quanto ao tempo de cirurgia, ao período de internação hospitalar e
à satisfação do paciente em relação à técnica anestésica utilizada (p>0,05).
Tabela 3 –
Consumo de analgésicos, desfechos secundários e custos
No que tange aos custos hospitalares, verificamos que o
valor médio da anestesia local com sedação EV foi de R$ 53,04 e o da
anestesia raquidiana foi de R$141,25, o que acarreta uma economia de 62,45%
quando utilizada a anestesia local.
Conclusão
Atualmente, a anestesia local com sedação é a técnica
preconizada para o reparo de hérnias inguinais (1). Centros especializados
em hérnia usam a infiltração local em mais de 95% dos casos (6). No entanto,
a anestesia raquidiana continua sendo a mais utilizada nos hospitais-escola
(6). Apesar de ser segura e custo-efetiva, há uma baixa aceitação da
anestesia local para as herniorrafias na comunidade cirúrgica (2,6). Alguns
autores afirmam que a causa básica para essa rejeição é a inexperiência do
cirurgião (1,2,13).
No Serviço de Cirurgia Geral do Complexo Hospitalar Santa
Casa de Porto Alegre – FFFCMPA, onde são realizadas, por residentes do
primeiro ano, anualmente, cerca de 1.400 herniorrafias, menos de 1% são
feitas com anestesia local (Boletim de Avaliação Interna Relativo à Análise
e Produtividade do Bloco Cirúrgico do Hospital Santa Clara do Complexo Santa
Casa/Ano 2002 – dados não publicados). Inegavelmente, tal realidade
repercutiu em nossa casuística. Houve maior número de pacientes submetidos à
anestesia raquidiana. Não observamos, contudo, qualquer outra disparidade
entre os grupos analisados e, destes, com o grupo excluído.
Uma vantagem potencial da infiltração local é que ela
pode ser feita usando a chamada anestesia local pura, sem sedação (14),
embora concordemos com a maioria dos cirurgiões que preferem utilizar a
sedação endovenosa como parte da técnica (2,6,15,16).
Da mesma forma, a anestesia local tem benefícios na prevenção da dor
pós-operatória, na menor incidência de náuseas, vômitos e retenção urinária
(2,17,18). Além disso, a mobilização é mais precoce e há maior satisfação do
paciente em relação à técnica anestésica (3-5,19).
Outro aspecto a ser considerado seria a facilidade da realização da manobra
de Valsalva durante a cirurgia, com o intuito de excluir a presença de
outras hérnias associadas ou de avaliar a resistência do reparo realizado
(20). Diversos autores demonstram as vantagens da anestesia local quando
comparada com a anestesia geral ou com a raquidiana, ressaltando, sobretudo,
o melhor controle analgésico no pós-operatório (3-5,19). Em nosso estudo,
foi reproduzida essa vantagem citada pela literatura, uma vez que observamos
menor incidência e intensidade de dor no grupo da anestesia local durante a
internação.
Em contrapartida, uma desvantagem da anestesia local é a
dor no transoperatório, fato evidenciado em nosso estudo. Callesen e cols.,
num ensaio prospectivo, realizaram 1.000 herniorrafias inguinais sob
anestesia local. Dos 940 pacientes que responderam ao questionário de
seguimento do estudo, 13% ficaram insatisfeitos com a anestesia local, a
maioria devido à dor no período transoperatório (14). Em nosso estudo,
entretanto, este achado não prejudicou a execução do procedimento cirúrgico
e não influenciou a satisfação do paciente quanto ao método anestésico
utilizado. Na tentativa de aumentar o conforto do paciente, no momento da
infiltração anestésica, os autores Pulcini e cols. defendem a aplicação,
pré-operatória, de um creme de anestésico tópico (21).
É referida na literatura uma menor utilização de
medicações analgésicas no pós-operatório, quando utilizada a anestesia local
(3-5,19). Em nosso estudo, porém, não houve diferença
entre os grupos.
Outro aspecto importante a ser avaliado são os custos
hospitalares. Quando consideramos apenas o material e os fármacos utilizados
nos procedimentos anestésicos, a utilização da anestesia local com sedação
endovenosa apresenta evidentes vantagens. Baseados nos valores da tabela de
custos do Sistema Único de Saúde/2002 e na média anual de herniorrafias
realizadas em nossa instituição, inferimos que o uso rotineiro da anestesia
local nas herniorrafias inguinais representaria, para a instituição, uma
economia anual de aproximadamente R$ 123 mil. Esse valor pode ainda ser
ampliado se considerarmos o menor tempo de permanência na sala de
recuperação anestésica.
Em última análise, compreendemos que a anestesia local
mostrou-se adequada para ser utilizada nas herniorrafias inguinais. Ela
apresentou vantagens importantes em relação à anestesia raquidiana: menor
incidência e intensidade de dor no pós-operatório, menor tempo de
recuperação anestésica, bons índices de satisfação e menores custos
hospitalares.
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Daniel Nunes e Silva – Residente de Cirurgia
Geral da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto
Alegre (FFFCMPA).
Leonardo Quadros da Paixão – Residente de
Cirurgia Geral da FFFCMPA.
Humberto Kern Laydner – Doutorando da FFFCMPA.
Lara Catarine De Luca Maciel – Doutoranda da FFFCMPA.
Márcio Longhi Griebeler – Doutorando da FFFCMPA.
Renato Michelon Naconecy – Anestesiologista do
Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre.
Carlos Cléber Alves Nunes – Professor Adjunto
de Cirurgia Geral da FFFCMPA.
Fernando Antônio Bohrer Pitrez – Professor Adjunto de
Cirurgia Geral da FFFCMPA, orientador do estudo.
Trabalho de conclusão de residência médica
Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre
Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto
Alegre
* Endereço para
correspondência:
Daniel Nunes e Silva
Rua Guilherme Alves 825, ap 103
CEP 90680-001
Porto Alegre – RS – Brasil
Fone (51) 9915-9489
: danielnunesesilva@terra.com.br
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