|
INÍCIO
|
EDIÇÕES
ANTERIORES
|
INSTRUÇÕES REDATORIAIS
|
CONTATO |
|
|
Revista da
AMRIGS Volume 48 No
1: 1 - 72 / Janeiro - Março 2004 BL ISSN
0102 - 2105
|
| |
ARTIGO ORIGINAL |
|
Humanização e estresse na formação médica
|
|
Alberto Manuel Quintana, Arnaldo Teixeira Rodrigues,
Catia M. Domingues Goi, Luis Augusto Bassi |
|
Introdução
Observa-se, já há algum tempo, uma crescente preocupação
com a humanização da medicina. Essa preocupação se evidencia tanto na
população assistida, através de suas solicitações de uma atitude menos fria
por parte do profissional que a assiste, quanto no interior do sistema
médico. De fato, esse fenômeno é comprovado pelo aumento da oferta de cursos
de extensão sobre humanização e pela preocupação com essa temática presente
nas diretrizes curriculares do curso de graduação. Essas diretrizes, além de
fazerem referência direta a um perfil do egresso com formação
generalista, humanista, crítica e reflexiva, apresentam uma recomendação
para que seus currículos contemplem a capacidade reflexiva e compreensão
ética, psicológica e humanística da relação médico-paciente, bem como a
indicação para que a estrutura do curso inclua dimensões éticas e
humanísticas (1).
Atualmente, a medicina vive um momento de excelência no
que se refere às técnicas utilizadas e à eficácia das mesmas; no entanto,
paradoxalmente, também se evidencia um crescente mal-estar em relação a sua
prática. A frieza e a dificuldade do profissional na relação com o paciente
são os principais elementos apontados como causadores desse
descontentamento.
Acreditamos que o que, por vezes, se perde de vista é a
exigência, sofrida por esse profissional, de realizar uma tarefa que o
expõe, mais do que na maioria das profissões, a situações estressantes e de
forte conteúdo emocional e cujas conseqüências não são questionadas. De
fato, uma prática na qual se lida com pessoas implica a necessidade de
humanização; contudo, não devemos perder de vista que, no quotidiano de seu
trabalho, o médico se defronta com situações de dor e morte, o que traz a
essa profissão um alto índice de ansiedade (2, 3, 4, 5, 6, 7).
Tal problema se evidencia também entre os alunos que, em virtude das
intensas demandas do currículo do curso e do contato com doenças graves e
morte de pacientes, estão sujeitos a um forte estresse (8,9). Esse estresse
pode estar na origem de doenças graves descobertas em estudantes durante a
sua aprendizagem de habilidades clínicas (10). O grupo de Assistência
Psicológica ao Aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (GRAPAL)
vem desenvolvendo interessantes trabalhos que têm como foco o estudante de
medicina. Os resultados, além de evidenciarem o estresse a que esses
estudantes estão submetidos (11), apontam-no como um dos fatores
determinantes do fato de o coeficiente de suicídios entre os alunos da FMUSP
ser maior que o apresentado na população em geral (12).
Pouco se tem trabalhado sobre a forma como o médico é
preparado para lidar com essas situações estressantes inerentes a sua
profissão. Assim, na tentativa de aproximarmo-nos dessa problemática,
tomamos como objetivo de nossa pesquisa visualizar quais habilidades os
profissionais-professores de medicina consideram que devam ser desenvolvidas
pelo discente para que este tenha ferramentas para lidar com as emoções
decorrentes de sua prática profissional.
Material e
métodos
Para a realização deste trabalho optamos por uma
abordagem qualitativa, a qual oferece elementos que permitem apreender
melhor as significações procuradas (13). Foram utilizadas as técnicas de
entrevistas semi-estruturadas e de observação (14, 15). As entrevistas não
possuíam um roteiro a ser seguido; contudo, foram utilizados eixos
norteadores, uma vez que nenhuma entrevista de pesquisa é totalmente
livre (16). Esses eixos consistiam em pontos que deveriam ser abordados
durante o encontro e que serviram para orientar o pesquisador na condução da
entrevista: 1) situações angustiantes vivenciadas pelo entrevistado durante
o seu curso de formação e na profissão; 2) situações angustiantes por ele
observadas no corpo discente durante a sua atuação como professor; 3)
situações em que seu paciente morreu ou não apresentou possibilidades de
melhora; 4) a comunicação da situação clínica a pacientes graves e a seus
familiares; 5) a forma de elaboração dessas ocorrências; 6) o preparo do
profissional de medicina para lidar com essas situações; 7) instrumentos
oferecidos pelo curso para o enfrentamento desse tipo de acontecimento.
Após a aprovação do projeto pelo Colegiado do Curso de
Medicina da UFSM e pelo Gabinete de Pesquisa e Extensão do HUSM, foram
realizadas nove entrevistas com o prévio consentimento dos participantes. A
escolha dos sujeitos recaiu sobre professores-médicos que lecionassem
disciplinas identificadas, durante a observação, como capazes de despertar
ansiedade no discente.
A observação foi realizada em aulas das disciplinas de
Clínica Médica I e de Anatomia Geral do Curso de Medicina da UFSM, bem como
nos setores de UTI Adulto e Infantil e no Pronto Atendimento do Hospital
Universitário de Santa Maria. O material assim obtido foi trabalhado por
meio da análise de conteúdo (17, 18, 19, 20).
Resultados
e Discussão
Um aspecto que foi tomando corpo no desenvolvimento da
análise do material, até se tornar uma categoria principal, foi a concepção
de que o aluno deve aprender, durante o transcurso de sua formação, a ter
controle sobre suas emoções. Para alcançar esse controle considera-se que o
estudante não deve refletir sobre os seus sentimentos mas conseguir
reprimi-los.
Podemos identificar, na fala dos professores, que esse
controle começa por não se permitir que as emoções geradas pelo confronto
com a morte e o sofrimento sejam percebidas pelo outro (colega ou
professor). Caso isso não seja possível e a emoção se manifeste, como ocorre
no surgimento do denominado sintoma vagal (caracterizado por
bradicardia, sudorese, palidez, hipotensão que o estudante pode apresentar
frente ao cadáver ou a intervenções cirúrgicas), o sintoma será ora
atribuído a uma carência alimentar nesse dia, ora à debilidade decorrente de
alguma doença. Ambas as causas enunciadas estão vinculadas a uma situação
física. É também reconhecido, ainda que não seja comentado, que, em alguns
casos, a origem dessas manifestações somáticas esteja ligada a uma emoção
decorrente da falta de preparo para a realização da prática profissional.
É. Isso acontece seguidamente, principalmente em
cesariana, em que existe a presença maior de sangue; o aluno que não está
bem preparado ou, às vezes, o aluno que durante, pela manhã não se
alimenta, acaba na hora ficando nervoso, fazendo uma hipoglicemia e tendo
a sensação de desmaio. É bem comum de acontecer isso; geralmente o aluno
iniciante de cirurgia sente uma ou duas vezes, mas depois...segue em
frente (Prof. 16). 1
São duas as causas apontadas como fontes do mal-estar; a
primeira é atribuída a uma falta de preparo, e a segunda a uma falta de
alimentação. Em relação a esta última, fica claro o fator que desencadeou o
sintoma: a hipoglicemia; contudo, nada se explicita em relação à primeira
causa. A falta de que elementos torna o aluno despreparado? Quais são as
medidas que devem ser adotadas para solucionar o problema?
Constatou-se a inexistência de medidas que visem a criar
um ambiente onde o estudante possa falar sobre aquilo que está sentindo e
que lhe possibilitem, dessa forma, tomar consciência das suas emoções. A
causa biológica é a única a ser explicitada perante o aluno, encobrindo,
assim, a aludida falta de preparo.
De fato, o professor confirma essas situações biológicas
(falta de alimentação) como causadoras do mal-estar do aluno e, inclusive,
quando este não as enuncia, será o docente quem as indicará como as únicas
causadoras do sintoma. Dessa forma, ele demonstra julgar que o incentivo ao
aluno para que reflita sobre suas emoções não seria o caminho indicado para
lidar com tais situações. Pelo contrário, a idéia aqui presente é de que o
estudante deve aprender a reprimi-las; ele deve se fortalecer, criar uma
couraça através da qual se torne imune a esse tipo de afeto. Isso implica a
concepção de que esse iniciante, com o tempo, adquirirá, a exemplo do que
ocorreu com o próprio professor, uma calosidade que o protegerá desse
sofrimento.
... acho que os primeiros óbitos que a gente assiste
são os que marcam, né, depois a gente começa... a... se habituar mais
(Prof. 9).
Essa mesma apreciação é manifestada em relação ao impacto
que os alunos têm tanto diante de uma intervenção cirúrgica, como ao
assistir uma necropsia ou, simplesmente, se deparar com um cadáver.
Relatando as aulas iniciais da disciplina de anatomia, o professor diz:
Aí, de certa forma, o material então está preparado em
uma gaveta, os alunos até (...), alguns vomitam, alguns desmaiam. Alguns
meses depois, acostumam, não é. Quando tem uma necropsia, cortar o corpo,
leva mais susto ainda... (Prof. 1).
Referindo-se a uma outra experiência, o mesmo professor
relata:
... estava dando uma aula, e uma aluna desmaiou, não é,
dentro da sala de necropsia. Mas depois ela acostumou e acabou sendo até
perita em medicina legal (Prof. 1).
Essa idéia de que é através do costume, da repetição e do
hábito que o aluno passa a elaborar essas situações sem a necessidade de
falar ou refletir sobre elas também foi exposta por Valente e Boemer (21) em
relação aos estudantes de enfermagem. Os autores consideram que, no início,
é difícil, para os alunos, um contato diário com a morte e o sofrimento;
porém, com o passar do tempo, isso se ameniza.
No trabalho de Vianna & Piccelli (22), aparece, também, a
idéia de que o convívio freqüente com a morte vai possibilitar que o
profissional de saúde, no futuro, tenha uma maior facilidade para lidar com
esse tipo de situações. De fato, eles afirmam que o trabalho do profissional
de medicina obriga-o a um contato com a morte, fato este que lhe permitiria
diminuir a relutância de lidar com essa temática.
Zaidhaft (23), em seu livro sobre a formação médica,
também trabalhou sobre a maneira como era explicado o trajeto entre o
desmaiar enquanto se assiste a uma necropsia até ter sangue-frio e
não se envolver com a morte. O autor assinala que essa transição
era atribuída, pelo corpo docente, a um se acostumar a um fenômeno
natural. Na seqüência, realiza uma crítica a essa idéia, argumentando
que, apesar das inúmeras experiências a que o aluno é exposto durante sua
formação, não podemos falar que existiu, por parte desse sujeito, uma
aceitação da morte, pois o que se observa é, antes, um empenho em
vencê-la a todo custo e não um reconhecimento de seus próprios
limites como ser humano.
Entretanto, não é somente ante a morte e o sofrimento que
o aluno pode apresentar angústia. Como vimos anteriormente, esse sentimento
também se faz presente naquelas ocasiões em que o futuro médico realiza um
procedimento invasivo no paciente, como é o caso de uma incisão cirúrgica:
É a própria visão do sangue, e eles vão trabalhando
isso com o tempo (Prof. 3B).
... ele vai receber, ele vai ter então a resposta do
tecido vivo à agressão cirúrgica (...). Então vai sangrar, ele vai ter que
coibir o sangramento. (...). Às vezes a gente observa, no chegar, o aluno
está um pouco apreensivo, tremendo, mas creio que todos... vencem com,
com, com... o passar dos procedimentos (Prof. 3A).
Assim, segundo tais depoimentos, a ação prática não
somente serviria para o aprimoramento da técnica, mas, também, para o
aprimoramento da capacidade de controle sobre as emoções através da criação
de uma calosidade emocional. O depoimento que dá seqüência ao
anterior, e que transcrevemos a seguir, deixa isso evidente:
Porque executando um procedimento mais sofisticado, ele
tá tendo... subsídios para desenvolver a estabil..., ou iniciar, na
verdade, a estabilidade emocional diante da agressão cirúrgica, do
procedimento, e, ao mesmo tempo, tendo oportunidade de, em praticando
aquilo ali, desenvolver a sua habilidade, a sua destreza (Prof. 3A).
Evidencia-se, então, uma concepção de que a prática
permite que o aluno, além de adquirir uma habilidade manual (controle sobre
o sistema motor), conquiste também uma habilidade emocional, a qual
consistiria na capacidade de controle sobre as emoções.
Essa função pedagógica atribuída ao papel da repetição é
explicitada mais adiante pelo docente:
... essa oportunidade nesse serviço é para isso, quer
dizer, não só desenvolver a parte técnica, mas a parte emocional (Prof.
3A).
Já que não existe, como vimos anteriormente, uma
reflexão, junto ao aluno, sobre as angústias com que este se depara diante
dos procedimentos invasivos realizados, e que, por outro lado, os sintomas
manifestados pelo discente são atribuídos à falta de alimentação ou uma
outra causa biológica qualquer, fica evidente que esse trabalho emocional
limita-se à exposição repetida desse sujeito à situação geradora de
angústia.
O receio com que eles vêm, medo, o mal-estar que alguns
sentem (...). Depois no final já vem, já é automática, já entram com
tranqüilidade (Prof. 3B).
Ao que outro professor complementa:
Exatamente. (...) Então veja que isso teve evolução do
ensino (Prof. 3A).
Dessa forma, para que o aluno aprenda a lidar com as angústias gera
das pela exposição a situações de morte, sofrimento e
dor, o método adotado é a ação pedagógica de submetê-lo repetidas
vezes àquelas situações fontes de ansiedade. Assim, a ausência de
manifestações emocionais, por parte do aluno, é vista como um sinal de
aprendizagem, a qual consistiria, desde essa perspectiva, na habilidade de
conservar as emoções dominadas.
Porém, o que um aluno sente e expressa também é sentido
pela maioria dos seus colegas; o que de fato diferenciaria aquele que
manifesta um mal-estar é a intensidade da emoção, que, neste caso, impede
que a mesma permaneça oculta. Em diversos casos são os próprios professores
que censuram, de uma forma encoberta por meio de uma piada ou uma ironia, o
discente que exterioriza uma emoção:
Ah, daí diziam ‘Ah, vai lá, o fulano desmaiou!’. Daí tu
ficava lá deitado um pouco, daí chegava o professor, dava uma gozada...
mas não tinha ninguém pra te dar uma... uma, uma ajuda, entendeu? ‘Ó, o
que que tá acontecendo...?’ ‘Ih… lá vem o [nome do aluno hoje
professor]! Agora em vez de atender o paciente, vou ter que atender
ele!’ Sabe, esse tipo de coisa (Prof. 13).
Evidencia-se, através dessa atitude, uma reprimenda
velada ao aluno por ter exteriorizado os seus sentimentos. O que se está
ensinando aí é que isso não deve ser sentido e, caso o seja, não deve ser
demonstrado. Os alunos aprendem essa lição, uma vez que repetem com seus
colegas o mesmo comportamento:
Ou então os colegas: ‘Ih, tu nem assiste isso aí. Eu
sei que tu já vai desmaiar!’ Mas eu acho que isso é muito freqüente ainda.
Acho que as pessoas desmaiam ainda (Prof. 13).
Aquilo que, neste trabalho, chamamos de calosidade
emocional, Boulos (24), por sua vez, a denominou miopia reflexa,
e Meleiro (25) como armadura profissional; tais comportamentos ajudam
os médicos a manterem essa imagem que Klafke (26) classificou, muito
acertadamente, de esterilidade emocional. Ela consiste numa imagem
profissional, dissociada da pessoa e com a qual o estudante vem a se
identificar.
Esse controle das emoções não se manifesta somente no
meio da equipe médica ou da equipe de saúde. Talvez seja esse o lugar onde
ele se cristalize de uma forma mais evidente; não obstante, também pode ser
encontrada permeando toda nossa sociedade (27). Com efeito, aquela frieza
que os pacientes, familiares e a população em geral identificam na figura do
médico reflete, com maior intensidade, um fenômeno social.
Essa visão segundo a qual o aluno vai superar as
angústias geradas pelo confronto com a dor e o sofrimento através de um
processo de dessensibilização é vista, tanto por docentes como por
discentes, como a hegemônica dentro do curso. Contudo, isso não significa
que seja a única, embora aqueles professores que dela não compartilham a
considerem a maneira institucionalizada de agir.
A observação realizada na disciplina de Clínica Médica I
evidenciou uma outra maneira de lidar com as situações estressantes que o
curso provoca. Com efeito, alguns dos professores responsáveis por essa
disciplina consideravam que suas aulas, as quais constituíam o
primeiro contato do aluno com pacientes, eram fonte geradora de angústia:
Porque... é uma coisa nova para eles; ele tá, ele não
tem experiência, ele tá começando a fazer, ele ainda está inseguro, ele
entra em conflito com as situações mais difíceis, como doenças, pacientes
graves, doenças incuráveis, isso é uma situação de conflito para o aluno
(Prof. 5).
Relatam, nas entrevistas, que a partir dessa constatação,
parte do grupo (três dos oito professores) optou por uma forma de abordagem
diferenciada, na qual, através de uma estrutura de seminários, procurava-se
integrar os aspectos técnicos (forma de realização das entrevistas clínicas,
das anamneses, dos exames clínicos) e os aspectos emocionais relacionados ao
paciente e ao aluno.2 As aulas estavam divididas em
parte prática e discussões em grupo, onde se trabalhavam os casos com que os
discentes tiveram contato. Nesses momentos, além do professor da disciplina,
constatou-se, também, a presença um professor do Departamento de
Psiquiatria. Através dessa sistemática, uma parte considerável das aulas
versava sobre situações clínicas trazidas pelos alunos e nas quais se
analisava tanto o aspecto biológico, como as reações emocionais que essas
situações originavam. Durante as observações realizadas nas aulas dessa
disciplina, várias foram as questões trazidas, pelos alunos, como geradoras
de ansiedades. Dentre elas, destacam-se: pacientes terminais, morte,
constrangimento diante da necessidade de uso do paciente como meio de
aprendizagem e, inclusive, situações de angústia originadas pelas barreiras,
encontradas no curso, que impedem o aluno de expressar suas emoções.
Entrar no hospital é uma situação difícil. Dois anos de
básico e de repente tu cai no hospital (Estudante 6, 5o
semestre).
Tu bota o jaleco e já passas a ser exigido pelos
pacientes como se fosses médico (Estudante 8, 5o
semestre).
Nos falam de ser humanitários com os pacientes, mas o
curso não é humanitário. Nem os professores com a gente, nem nós com os
colegas (Estudante 1, 5o semestre).
No curso, me machuca bastante que não se pode chorar.
Eu penso que em algum momento isso vai me fazer mal. Em algum lugar, vai
ter que extravasar (Estudante 2, 5o
semestre).
O que merece destaque na análise desses grupos é que a
manifestação de emoções geradas pela prática médica não se limitava aos
discentes; os professores que coordenam os seminários também expunham para o
grupo suas próprias dificuldades frente às situações abordadas, produto de
sua formação. Essa atitude dos professores era vista, pelos estudantes, como
um fator fundamental para que se sentissem seguros e pudessem expressar as
suas dificuldades.
O professor ter dúvidas permite que nós, alunos, também
tenhamos. A gente não se sente anormal por ter dúvidas (Estudante 2, 5o
semestre).
É interessante ressaltar que esses grupos não eram
considerados parte oficial do curso, nem referidos, pelos outros
professores, como um espaço onde os alunos podiam discutir as questões que
os angustiavam.3
Embora a forma de atuação na disciplina Clínica Médica I
seja diferente daquela encontrada no restante do curso e o trabalho de
pesquisa tenha ficado restrito a um único curso de medicina, consideramos
que o controle das emoções é a habilidade que se espera que o aluno
adquira, durante a sua formação, para lidar com as ocorrências angustiantes
próprias da profissão. Evidenciou-se, também, que a estratégia adotada pelos
professores para conseguir esse controle consiste em submeter,
repetidamente, o estudante às situações geradoras de angústia.
A gradecimentos
Este trabalho foi realizado com o apoio da FAPERGS e do
CNPq.
Agradecemos aqui ao Curso de Medicina da Universidade
Federal de Santa Maria, na pessoa de seu Coordenador, Prof. Dr. James
Ferreira Gressler, por sua colaboração na realização desta pesquisa.
Referências Bibliográficas
1. BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO / Conselho Nocional
de educação / Câmara de Educação Superior, 2001. Diretrizes
Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina. Homologada
em 03/10/2001. Parecer CES 1.122/2001, Resolução CNE/DEX n o
4, de 1/11/2001 (Resolução online em: http://www.mec. gov.br/cne/ftp/CES/CESO4.doc
2. De ARRUDA, Paulo Corrêa Vaz. As relações entre
Alunos, Professores e Pacientes. In: Millan, L.R.; DE Marco, O.L.N.;
Rossi, E.; Arruda, P.C.V. de. O Universo psicológico do futuro médico:
vocação, vicissitudes e perspectivas. São Paulo: Casa do
Psicólogo, 1999.
3. FAGUNDES, Luiz Alberto. A relação médico-paciente
no tratamento do câncer. In: Martins, Cyro. Perspectivas da relação
médico-paciente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1979.
4. LACERDA, Patrícia. O Clínico e o Cirurgião:
Estereótipos, Personalidade e Escolha de Especialidade Médica. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.
5. MARTINS, L.A.N. Residência Médica: um estudo
prospectivo sobre dificuldades na tarefa assistencial e fontes de estresse.
Tese de Doutorado. Escola Paulista de Medicina, São Paulo, 1994.
6. MILLAN, Luis Roberto. O curso médico no Brasil. In:
Millan, L.R.; DE Marco, O.L.N.; Rossi, E.; Arruda, P.C.V. de. O
Universo psicológico do futuro médico: vocação, vicissitudes e
perspectivas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.
7. MILLAN, Luiz R.; ROSSI, Eneiza & De MARCO, Orlando
L. N. O suícidio entre estudantes de medicina. In: Assistência
Psicológica ao Aluno de Medicina. Doc. CEDEM nº 15, CEDEM, 1994, 90 p.
8. MORRISON, J. & MOFFAT, K. More on medical student
stress. Medical Education 35 (7), July 2001, pp. 617-618.
9. FIRTH-COZENS, Jenny. Medical Students Stress.
Medical Education, 35(1), January 2001, pp. 6-7.
10. POLS, J.; BOENDERMAKER, P.M.; MUNTINGHE, H.
Incidence of and sequels to medical problems discovered in medical
students during study-related activities. Medical Education, vol
37, n 10, October 01, 2003., pp. 889-894.
11. MILLAN, Luis R.; MARCO de; Orlando Lúcio N.; SOUZA
de, EMMANUEL N.; ROSSI, Eneiza. Assistência Psicológica ao estudante de
medicina. In: MARCONDES, Eduardo & GOLÇALVES, Ernesto L. Educação
Médica. São Paulo: SARVIER, 1998.
12. MILLAN, Luiz R.; ROSSI, Eneiza; MARCO de; Orlando
Lúcio N. O estudante de Medicina: grupo de risco para o suicídio? In:
MILLAN, Luiz R.; DE MARCO, Orlando L. N.; ARRUDA, Paulo C. Vaz de. O
Universo psicológico do futuro médico: vocação, vicissitudes e
perspectivas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.
13. LAVILLE, Christian & DIONNE, Jean. A Construção
do Saber. Porto Alegre: Artmed, 1999.
14. DANNA, Marilda F. & MATOS, Maria A. Ensinando
Observação: Uma introdução. 4ª ed. São Paulo: Edicon, 1999.
15. WILKINSON, Jill. Direct Observation. In: Breakwell,
Glynis, M.; Hammond, Sean and Fife-Schaw, Chris. RESEARCH METHODOS IN
PSYCHOLOGY. London: SAGE Publications Ltda, 1997.
16. MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do
conhecimento: Pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo:
Hucitec-Abrasco, 1996.
17. GUIRADO, Marlene. Psicanálise e análise do
discurso: matrizes institucionais do sujeito psíquico. São Paulo:
Summus, 1995.
18. LAVANDERA, Beatriz, R. Curso de Lingüística para
el análisis del discurso. Buenos Aires: Bibliotecas Universitarias,
1990.
19. ORLANDI, Eni Pulcinelli. Discurso e leitura.
São Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de
Campinas, 1993.
20. PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou
acontecimento. Campinas, SP: Pontes, 1990.
21. VALENTE, Sílvia Helena; BOEMER, Magali Roseira. A
sala de anatomia enquanto espaço de convívio com a morte. Revista
Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 53, n.1, 99-108, jan./mar.
2000.
22. VIANNA, A. & PICCELLI, H. O estudante, o médico e o
professor de medicina perante a morte e o paciente terminal. Rev.
Assoc. Med. Bras. 44 (1), São Paulo, jan./mar. 1998, 78-84.
23. ZAIDHAFT, Sérgio. Morte e formação médica.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.
24. BOULOS, Marcos. Relação Médico-Paciente: O Ponto de
Vista do Clínico. In: Marcondes, Eduardo & Gonçalves, Ernesto Lima.
Educação Médica. São Paulo: SARVIER, 1998.
25. MELEIRO, Alexandrina Maria Augusto da Silva. O
médico como paciente. São Paulo: Lemos Editorial, 1999.
26. KLAFKE, Teresinha Eduardes. O médico lidando com a
morte: aspectos da relação médico-paciente terminal em cancerologia. In:
Cassorla, Roosevelt (coord.). Da Morte: Estudos Brasileiros.
Campinas, SP: Papirus, 1991.
27. QUINTANA, Alberto M. & ARPINI, Dorian M. A atitude
diante da morte e seu efeito no profissional de saúde: Uma lacuna da
formação? Revista Psicologia Argumento, Curitiba: Champagnat, 19
(30), abril 2002, 45-50.
28. BALINT, Michael. O Médico, Seu Paciente e
a Doença. Rio de Janeiro: Livraria Atheneu, 1984.
|
|
| |
|
○
ABStract |
|
○
Artigo Completo -
HTML |
|
○
PDF |
|
|
Alberto Manuel Quintana – Professor do Curso de
Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSM. Mestre em
Psicologia Clínica, Dr. em Ciências Sociais (Antropologia Médica).
Arnaldo Teixeira Rodrigues – Professor do
Departamento de Clínica Médica da UFSM, Mestre em Nefrologia.
Catia M. Domingues Goi – Professora do Departamento
de Neuropsiquiatria da UFSM, Especialista em Psiquiatria.
Luis Augusto Bassi – Médico, Professor do
Departamento de Clínica Médica da UFSM.
O trabalho foi realizado junto ao Curso de Medicina da
Universidade Federal de Santa Maria.
* Endereço para correspondência:
Alberto Manuel Quintana
Rua Tiradentes no 23 apto 701
CEP 97050-730
Santa Maria – RS – Brasil
Fone (55) 222-0936
: albertoq@ccsh.ufsm.br
|
|