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Revista da
AMRIGS Volume 48 No
1: 1 - 72 / Janeiro - Março 2004 BL ISSN
0102 - 2105
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ESPAÇO CREMERS |
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Procurando o lado humano da medicina: Existe outro?
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Prof. Magno José
Spadari
Prof. Ética
Médica e Medicina Legal, Curso de Medicina, Furg. Prof. Medicina Legal,
Curso de
Direito, Furg. Cirurgião Pediatra. Cirurgião. Conselheiro do Cremers. |
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M uito se fala, atualmente, em uma
sociedade desumana e muito se teoriza a respeito de humanização. No mesmo
sentido, humanizar uma medicina desumanizada tem sido o motivo para uma
serie de posturas, atitudes e muita controvérsia. Muitas vezes ficamos com a
impressão de que há lugar para uma medicina mais técnica, mais
"profissional", mais científica (desumanizada), em oposição a uma medicina
ultrapassada, em que o envolvimento com o paciente soa mais como um vício
(humanizada). Na verdade, existe apenas uma medicina: se não for humana pode
ser qualquer outra coisa, menos medicina. Por isso, de forma despretensiosa,
procuraremos trazer algumas questões para a discussão.
O que seria uma medicina mais humanizada? Na literatura
encontramos várias atitudes de "humanização", como pintar as paredes do
hospital, uniformizar os servidores, abolir camas ou macas nos corredores,
implantar serviço de voluntariado, aumentar o número de ambulâncias, acabar
com as filas, agendar por telefone, saúde da família, etc. Atitudes todas
corretas, se as considerarmos como forma de humanizar o atendimento ao
doente, mas que, apesar de positivas, ficam muito longe de equacionar
totalmente o problema.
A melhor resposta a esta questão, entendemos, é a
oferecida por Duca de Freitas e Saad Hossne, para quem "humanização é o
esforço em tratar as pessoas respeitando suas necessidades intrínsecas,
considerando a sua autonomia nas escolhas para defender seus interesses, sua
necessidade de valorização e desenvolvimento do autovalor, de pertencer a
determinado grupo social e de se sentir aceito, de ser escutado e
compreendido, entre outras coisas que constroem a dignidade".
Uma medicina humanizada deve, ainda, atender as
necessidades básicas para não adoecer, recuperar e manter a saúde. Deve
atender indiscriminadamente as minorias e proteger as pessoas vulneráveis
por incapacidades físicas, mentais, intelectuais ou materiais (1).
Por que a medicina se tornou menos humana (desumanização)?
É um processo que precisa ser examinado em três níveis fundamentais: a
própria ciência médica, o médico e sua formação, e o modelo
político-econômico e social que hoje vivenciamos em nosso país.
A
Medicina
como Ciência
Não é provável a existência de qualquer área do
conhecimento que tenha incorporado tantos avanços e mudanças tão profundas
quanto a Medicina do último século. Ao lado de todo esse benefício técnico,
com evidente repercussão positiva para a sociedade, o avanço tecnológico
trouxe algumas questões novas tanto do ponto de vista ético quanto social e,
nem todas, tão benéficas para a sociedade como, em princípio, poderia
parecer.
Esses avanços tecnológicos e científicos sufocaram o lado
humanístico, tradicional, da profissão médica, redirecionando a formação e a
atuação do médico. Estas se apóiam essencialmente nas ciências exatas e
biológicas, atendendo a uma exigência mercadológica nem sempre ética e, sem
dúvida, despersonalizada. Foi-se o tempo em que a formação médica procurava
embasar o conhecimento técnico em bases humanísticas, cultas e com sentido
solidário.
A medicina deixa de ser uma atividade de ser humano
em ser humano (1,2) para tornar-se a de um prestador de serviço,
"resolvendo" um problema de saúde em um "consumidor" ou "usuário" de
convênio oficial (SUS) ou privado (plano de saúde). Esse consumidor não tem
resposta adequada às suas necessidades, não consegue o profissional que
gostaria e deve contentar-se com o que lhe é oferecido. Fica instituída uma
relação médico-paciente doente, às vezes viciada e superficial, sustentáculo
de um "profissionalismo" frio, distante, impessoal e gerador de conflitos
que muitas vezes acabam em litígio judicial.
Médico e sua Formação
O médico de hoje está transformado, cada vez mais, em um
pesquisador, um técnico, um "especialista" que sabe de tudo um pouco e nada
de gente. Obrigado a uma competição constante por novos avanços e
equipamentos tecnológicos melhores que os de seus colegas, encarados como
"concorrentes", buscando espaço na mídia leiga a qualquer preço. Não lhe
interessa saber se esses avanços são realmente benéficos para seus
pacientes, quando comparados a práticas tradicionalmente aceitas. Profundo
conhecedor de exames complexos, precisos e especializados, porém, em muitos
casos, ignorante dos aspectos humanos presentes no paciente que assiste (2).
As escolas médicas em número excessivo, sem verbas, com
professores mal remunerados e desmotivados, com currículos ultrapassados,
transferem para as residências médicas a esperança de uma melhor formação.
Estas, em número insuficiente para atender a demanda, transformam o
companheirismo dos colegas de aula em competição selvagem e rancorosa, pois
os que não conseguirem a vaga sabem que estarão em desvantagem na disputa
por um mercado de trabalho sempre mais exíguo e competitivo.
Além dessa formação cada vez mais especializada,
submete-se o médico a condições de trabalho aviltantes sob o ponto de vista
pessoal e social, obrigado à quantidade em detrimento da qualidade. Assim
pressionado, não tem disponibilidade para vinculação maior com o doente,
lembrando mais do "caso" que do nome do seu paciente.
Não pode fazer cursos de atualização porque não pode
parar de trabalhar; não lê porque não tem tempo ou não tem acesso a
literatura de qualidade, devido ao custo dessas publicações. Não se
atualiza, e torna-se presa fácil da tragédia profissional do erro médico.
Esse modelo de médico, com tempo exíguo e formação
reducionista, começou a delegar tarefas que considera "menos importantes",
criando espaço para outros profissionais (psicólogos, assistentes sociais,
fisioterapeutas, etc.), de tal forma que, hoje, precisamos recorrer à lei
para estabelecer o que é "ato médico". Esses profissionais ocuparam o espaço
e, num caminho inverso, estreitaram e aperfeiçoaram o cuidado humano com o
paciente. Tanto é que, hoje, esse paciente muitas vezes encontra neles o que
procura em nós.
O Modelo Social e Político
É inegável que nem só no médico ou na sua formação, como
nem só na medicina e em seu avanço tecnológico, encontramos as causas para a
desumanização da nossa profissão. As alterações no modelo de sociedade, cada
vez mais materialista, mais impessoal e desprezando valores intrínsecos
fundamentais, como saúde, formação e educação, desempenham papel importante.
Hoje, mais do que ser é preciso ter, fazendo com que o médico tenha muitos
empregos, trabalhando cada vez mais, ganhando cada vez menos, procurando um
status social "condizente" com tudo aquilo que idealizou.
A democratização e a globalização da informação
disponibilizaram para a sociedade conhecimento sobre as questões que
envolvem sua saúde, fazendo com que as atitudes médicas sejam questionadas e
devam ser justificadas. Hoje não há espaço para o paternalismo, que entendia
o médico como o senhor do conhecimento e o tomador das decisões, sem levar
em consideração o livre-arbítrio do seu doente.
O aparecimento de doenças e situações de impacto como a
Aids, fertilização assistida, transplantes, falta de leitos nas UTIs, filas,
etc., também contribuiu para que os holofotes passassem a iluminar a
medicina, desnudando suas mazelas, expondo-as em público.
O modelo público de saúde é interessante na sua concepção
teórica mas inviabilizado na prática por políticos que elegem a saúde como
prioridade apenas até terminar a votação, pois, a partir daí, só voltará a
ser prioridade na eleição seguinte. Doentes nas filas, consultas marcadas há
meses, falta de segurança para os profissionais de saúde que trabalham em
postos, condições de trabalho precárias, baixa remuneração, falta de
medicamentos e equipamentos, etc., são fatores que acabam com qualquer
tentativa mais séria de se humanizar o atendimento médico.
O modelo privado é dominado por planos de saúde, ótimos
quando se contratam, mas duros e perversos quando deles se precisa.
Preocupados em otimizar custos, aumentam as mensalidades em mais de 200%,
reduzem benefícios e congelam a remuneração do profissional que a eles
presta serviços.
Como retomar a caminhada no sentido da Medicina
humanizada?
Em primeiro lugar, formar o estudante de Medicina, mais
do que informar. Retomar o estudo das humanidades nos currículos dos cursos
(2), no sentido de robustecer os valores morais e éticos de forma que as
adversidades que encontrar no futuro não subvertam sua prática médica. Que
tenha firme assento em suas convicções sem oscilar conforme soprarem os
fortes ventos do ganho fácil.
Proporcionar a esse médico atualização barata e
acessível. Esta é, ao lado da boa relação médico-paciente, a melhor forma de
se evitar um futuro processo ético-profissional.
Valorizar a solidariedade aos pacientes e colegas.
Solidário para ajudar aos colegas e humilde para deixar que estes o ajudem.
Valorizar a bioética e seus princípios (autonomia,
beneficência, não maleficência e justiça) mais do que práticas deontológicas.
Fazer o que é certo, não por medo de punições, mas sim por convicções
pessoais, alicerçadas em sólida formação humanística e em práticas
clínico-cirúrgicas bem estabelecidas e atuais.
Respeitar os valores morais e religiosos de seus
pacientes, sem impor-lhes as suas próprias crenças. Resolver eventuais
conflitos dessa natureza com equilíbrio, humildade e bom senso.
Exigir dos seus governantes política de saúde mais do que
política na saúde. Não à alienação irresponsável.
Exigir administradores capazes e justos. Não à
discriminação de uma área em detrimento de outra, em função de custos e
verbas ou a procedimentos de alta complexidade que pagam melhor.
Mudanças sociais profundas, com respeito às leis; se a
saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado, que este, nos planos
municipal, estadual e nacional, seja o primeiro a respeitá-lo.
Procurar e lutar por condições de trabalho adequadas e
seguras, bem como remuneração justa e compatível, assim como todos os
benefícios sociais. Não ao subemprego.
Concluindo, acreditamos que todos esses aspectos acima listados
alicerçarão uma medicina digna desse nome, sem precisar de adjetivos ou
qualificações como "humanizada". Isso tudo passa por uma relação
médico-paciente cordial, personalizada, digna, confidencial, privativa e
sigilosa. Basta de tecnicismo sem sentido, de paternalismo autoritário e de
demagogia com a saúde. Entender o paciente como um ser humano, dotado de
corpo, mente e vontade, inserido num contexto social, com uma história
pessoal importante, pelo menos para os que lhe são mais próximos. Respeito
absoluto às minorias, sem discriminá-las de forma alguma.
Utopia? Pode ser, mas por que não começarmos já?
Referências Bibliográficas
1. Freitas, Corina Bontempo Duca de & Hossne, William
Saad http://www.crmac.cfm.org.br/revista/bio10v2/simposio5.htm
2. Gallian, Dante, A (re) humanização da
medicina, Psiquiatria na Prática Médica, Unifesp/EPM, Vol.34, n.4,
2001/2002.
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