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Introdução
Hiperaldosteronismo primário (HAP) é uma das formas mais
comuns de hipertensão secundária e também é a causa mais freqüente de
hipertensão mineralocorticóide-dependente (HMC). Apenas 5% dos pacientes
hipertensos possuem hipertensão secundária, e portanto passível de cura,
sendo que a maioria das causas secundárias são devidas às doenças adrenais
(1). Os adenomas produtores de aldosterona (APA), como no caso aqui
descrito, e as hiperplasias adrenais bilaterais (HAB), também chamadas de
hiperaldosteronismo idiopático, são as formas mais comuns de HAP (2-5). Em
estudos de grupos de pacientes hipertensos, a prevalência de HAP encontrada
entre pacientes normocalêmicos foi de 8,5% a 12%. Entre pacientes em que os
níveis séricos de potássio eram desconhecidos antes dos testes, a
prevalência variou de 18 a 32% (6). Um outro estudo investigou 49 pacientes
hipertensos e hipocalêmicos (pacientes com hiperaldosteronismo secundário
foram excluídos), dos quais apenas cinco receberam o diagnóstico de
hipertensão essencial. Os outros 44 pacientes tinham HAP, 22 destes por
adenoma produtor de aldosterona e 22 por hiperplasia (4). Não temos
conhecimento de estudos que relatem a prevalência de aldosteronismo primário
em nossa região.
A identificação correta de pacientes hipertensos que
apresentam alguma forma de hipertensão secundária é de alta importância, já
que muitos deles podem ser curados com uma terapêutica específica. O
hiperaldosteronismo primário é considerado a forma mais comum de hipertensão
secundária, embora muitas vezes não seja diagnosticado, provavelmente devido
à escassez de sintomas específicos (1). Apresentaremos neste artigo um caso
de uma paciente portadora de hiperaldosteronismo primário por um adenoma de
adrenal. Discutiremos as peculiaridades do diagnóstico, fisiopatologia e
tratamento dessa doença, com o objetivo de despertar o leitor para essa
possibilidade diagnóstica.
Relato de Caso
L.M.G.T., 59 anos, feminina, branca, hipertensa há
aproximadamente vinte anos. Relata nunca ter obtido bom controle da
hipertensão. Nos últimos 6 meses vinha apresentando piora dos níveis
tensionais, a despeito do uso de três classes de anti-hipertensivos, todos
em doses máximas (Atenolol 100 mg/dia; Amlodipina 10mg/dia; Enalapril 40
mg/dia). Sentia também tonturas, perda de equilíbrio, fraqueza muscular e
dor em membros inferiores. Os exames iniciais mostraram potássio plasmático
baixo e sódio plasmático elevado, além de uma discreta alcalose metabólica
(Tabela 1), sugerindo excesso de ação mineralocorticóide. Recebeu então
dieta hipersódica com 6 gramas de NaCl por dia, durante 5 dias, com o
objetivo de suprimir a secreção de aldosterona. No sexto dia foram dosadas
aldosterona e renina plasmáticas, que se mostraram elevada e suprimida,
respectivamente (Tabela 1). Esses resultados indicavam que o excesso
mineralocorticóide sugerido pelos eletrólitos era decorrente de uma secreção
autônoma de aldosterona. Além das dosagens plasmáticas foram medidos a
aldosterona e cortisol urinários em coleta de 24 h (iniciada no sexto dia
após dieta hipersódica, conforme descrito anteriormente). Os resultados
destes últimos exames corroboraram a hipótese de hiperaldosteronismo
primário, já que mostraram valores elevados de aldosterona e normais de
cortisol (Tabela 1).
Tabela 1 – Exames complementares
Uma vez estabelecido o diagnóstico de hiperaldosteronismo
primário, prosseguiu-se a investigação com o fito de fazer o diagnóstico
diferencial entre adenoma ou hiperplasia bilateral de adrenal. Os valores
basais de aldosterona na paciente em questão foram acima de 30 ng/dL, e
sugeriam o diagnóstico de adenoma. Além disso, foi realizado um teste
postural conforme descrito previamente (2). Os resultados desse teste
encontram-se na Tabela 2, e não sugeriram o diagnóstico de adenoma, já que a
aldosterona aumentou (embora o ACTH e o cortisol tenham aumentado, o que
prejudica a interpretação do teste). Finalmente, foi realizada tomografia
computadorizada do abdômen superior, que mostrou uma massa de 2 × 1,2 cm na
glândula adrenal direita.
Após o diagnóstico, a paciente recebeu 400 mg por dia de
espironolactona durante um mês, procedimento que resultou na normalização
dos eletrólitos (Tabela 1) e melhora clínica. Foi indicada adrenalectomia
videolaparoscópica, que transcorreu sem intercorrências. No pós-operatório
imediato a paciente manteve níveis tensionais de 145/90 a 165/100. Foi
iniciado então o uso de Atenolol 50 mg por dia, o que resultou na
normalização da pressão arterial. Os achados do exame anátomo-patológico são
mostrados na Figura 2.
Tabela 2 – Teste
postural
Figura 1 – Lesão
expansiva, com contornos regulares e limites precisos, sem calcificações,
com aproximadamente 2 × 1,2 cm, causando alargamento e deformação da
glândula adrenal direita (seta).
Figura 2 –
Glândula supra-renal direita, apresentando nódulo alaranjado, medindo
1,8×1,5×1,5 cm.
Figura 3 – A.
Proliferação nodular, circunscrita e encapsulada (pseudocápsula) (seta
pontilhada). Aumento de 2X; coloração por HE. B. Células do córtex da
adrenal, com arranjos arquiteturais semelhantes aos da camada glomerulosa.
Presença de bandas de tecido conjuntivo (seta negra contínua). Aumento de
25X; coloração por HE. C. Células com citoplasma amplo com vacúolos claros
ou levemente eosinofílicos. Observa-se variabilidade de tamanho dos núcleos,
que apresentam nucléolos visíveis e proeminentes e pseudo-inclusões
nucleares. Aumento de 400X; coloração por HE.
Discussão
Fisiopatologia
O HAP é caracterizado por retenção de sódio, hipertensão, alcalose
metabólica, altos níveis de potássio urinário, supressão da atividade da
renina plasmática (PRA) e aumento de produção de aldosterona (2-5). A
hipocalemia é encontrada nas formas mais severas da doença, mas alguns
autores sugerem que concentrações
normais de potássio podem ser a regra (1). Embora a
retenção de sódio seja o evento inicial na fisiopatologia da hipertensão por
excesso de mineralocorticóides, o aumento da resistência periférica total
prevalece como principal alteração fisiopatológica a longo prazo (7).
Diagnóstico
O atual "padrão-ouro" para confirmação do diagnóstico de
HAP é a falha da supressão da aldosterona em resposta à fludrocortisona e/ou
à dieta hipersódica (7). Em ambos, o diagnóstico pode ser feito se o nível
de aldosterona se encontrar elevado e o de renina suprimido, após
administração de dieta hipersódica ou fludrocortisona (1, 3). Nessa paciente
foi administrada dieta hipersódica durante cinco dias, sendo que no sexto
dia fez-se dosagem de aldosterona e renina no plasma, as quais se mostraram
elevada e suprimida, respectivamente. Esses dados corroboraram a hipótese de
HAP.
Outro teste feito para comprovação de HAP é a
administração de captopril, que pode ser usado para diferenciar HAP de
hipertensão essencial. Esse teste é apropriado para casos em que a dieta
hipersódica é contra-indicada, como na hipertensão arterial grave e na
insuficiência cardíaca subclínica. Ambos os testes de supressão (captopril e
dieta hipersódica) exibem sensibilidade e especificidade comparáveis (4).
A determinação da razão entre a aldosterona e a renina é
o principal método de triagem para o diagnóstico de HAP (8), e é usada para
diferenciar HAP de hipertensão essencial (3, 4, 6). Os pontos-de-corte de
20, 27, 30 e 50 são sugeridos para o diagnóstico sendo que quanto maior o
ponto-de-corte maior o valor preditivo positivo do teste (3, 7, 9). Na
paciente aqui apresentada, os valores de renina eram indetectáveis,
inviabilizando o cálculo dessa razão e indicando grande probabilidade de HAP.
Salientamos que a supressão da atividade da renina avaliada isoladamente não
é um dado diagnóstico para HAP, visto que está presente em 30% de pacientes
com hipertensão essencial (3).
O teste postural é usado para avaliar o nível de
supressão da aldosterona através de monitoramento da resposta do cortisol,
aldosterona e 18-hidroxicorticosterona plasmáticos à deambulação ou infusão
salina em estado de excesso de sódio. Normalmente, a diminuição ou a
manutenção dos níveis plasmáticos de cortisol e a queda associada de
aldosterona, assim como de 18-hidroxicorticosterona, depois de duas horas de
deambulação é sugestiva de APA, mas não de HAB. Uma concentração de
aldosterona no plasma de 8,5 ng/dl tem sido usada para excluir APA. A
sensibilidade e especificidade desse teste têm valores entre 59 e 72% e 54 e
97%, respectivamente (5). Curiosamente, o resultado desse teste em nossa
paciente apresentou um aumento na concentração de aldosterona. Além disso,
houve aumento do cortisol e da renina plasmáticos.
Quanto ao diagnóstico por imagem, recomenda-se a
tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (5). Busca-se a
diferenciação diagnóstica entre APA e HAB, procedimento de alta relevância
clínica, já que somente o APA deve ser tratado por adrenalectomia (5). Os
achados de uma massa unilateral na TC e exames laboratoriais compatíveis de
hiperaldosteronismo primário, tal qual a paciente descrita neste artigo, não
garantem o diagnóstico de APA. Em efeito, duas séries mostraram que
aproximadamente 30% dos pacientes com os achados acima descritos
apresentavam HAB associada a uma massa não-funcionante (5, 10). Baseado na
alta freqüência de incidentalomas adrenais em pacientes acima de 40 anos,
Young et al sugerem a realização de cateterismo de veias adrenais em todos
os pacientes, exceto naqueles com menos de 40 anos, uma massa unilateral com
mais de 1 cm na TC e uma adrenal contra-lateral absolutamente normal (9). No
caso aqui descrito, a TC identificou uma lesão com aproximadamente 2 × 1,2
cm, que causava alargamento e deformação da glândula adrenal direita. Mesmo
tendo mais de 40 anos, a paciente descrita neste artigo foi encaminhada à
cirurgia, pois o tamanho da lesão e a normalidade da adrenal contralateral
sugeriam fortemente que o achado tomográfico correspondia à lesão produtora
de aldosterona. Além disso, cateterismo seletivo de veias adrenais não é
disponível no nosso meio.
Tratamento
O tratamento de APA usado na maioria dos pacientes é a
adrenalectomia cirúrgica unilateral (5, 11, 12). Esse procedimento pode ser
feito tanto por videolaparoscopia quanto por adrenalectomia aberta. Entre
esses dois procedimentos, a videolaparoscopia é a técnica mais indicada,
pois, além de apresentar menos complicações pós-operatórias e menor índice
de morbidade, as incisões são menores, a dor pós-operatória é diminuída, as
hospitalizações são mais curtas (11) e a convalescência é mais rápida (12).
Os dois procedimentos mostraram resultados semelhantes no que se refere à
melhora da hipertensão e hipocalemia (11). A adrenalectomia não é indicada a
pacientes idosos, para os quais é preferido o tratamento com medicamentos
anti-hipertensivos (7). Tumores maiores que 8-10 cm, evidência de
invasividade tumoral local ou uma ampla malignidade adrenal primária são
contra-indicações de adrenalectomia por videolaparoscopia (12). A paciente
em estudo neste artigo foi submetida com sucesso à adrenalectomia por
videolaparoscopia.
Em casos nos quais a adrenalectomia não está indicada,
como na hiperplasia adrenal bilateral, o tratamento deve ser feito com
drogas supressoras da aldosterona e/ou com outros anti-hipertensivos. A
espironolactona (antagonista do receptor da aldosterona) pode ser utilizada
como tratamento para os efeitos hipertensivos do HAP, porém existe o risco
potencial de ginecomastia, irregularidades menstruais, hipercalemia e
azotemia (6). Há estudos sobre o uso de eplerenone para tratamento dos
efeitos hipertensivos. Esse é um novo antagonista do receptor da aldosterona
com especificidade aumentada e menos efeitos colaterais relacionados com os
esteróides sexuais (6, 7). Na paciente apresentada aqui, optou-se pelo uso
da espironolactona, mais barata e de acesso mais fácil, com bons resultados.
A remoção cirúrgica de um adenoma adrenal produtor de
aldosterona resulta na normalização da hipertensão em 65 a 70% dos casos e
da hipocalemia em 100% dos casos (2). Em um estudo realizado na Universidade
de Washington, foi feito o acompanhamento pós-operatório (por mais de 27
meses, em média) de 26 pacientes (todos com hipertensão e hipocalemia no
pré-operatório) que foram submetidos a adrenalectomia laparoscópica para
tratamento de APA. Melhora no estado hipertensivo, definida ou por pressão
sangüínea diminuída ou por redução da necessidade de anti-hipertensivos, foi
alcançada em 24 dos 26 pacientes (92%). Cura do estado de hipocalemia foi
relatada em 100% dos pacientes (12). Em estudo que investigou os fatores
associados com a normalização da hipertensão após a cirurgia, constatou-se
que a adrenalectomia unilateral resolveu a hipertensão em aproximadamente
33% dos casos de APA, quando a hipertensão não era grave o suficiente a
ponto de ser necessário o uso pré-operatório de múltiplos agentes
anti-hipertensivos e a hipertensão essencial estava ausente. A resolução da
hipertensão está associada, independentemente, com a ausência de história
familiar dessa enfermidade e o uso pré-operatório de dois ou menos agentes
anti-hipertensivos (13). No caso descrito, foi detectada hipertensão
residual após a cirurgia. No entanto, o estado hipertensivo da paciente
apresentou melhora, pois sua necessidade de medicamentos anti-hipertensivos
diminuiu.
Conclusão
O presente trabalho apresenta o relato de um caso clássico de paciente
com hiperaldosteronismo primário. A evolução deste caso demonstra que é
necessário um alto grau de suspeita, associada a uma minuciosa investiga
ção clínica para se chegar ao diagnóstico de
hiperaldosteronismo primário. O diagnóstico possibilita a escolha do
tratamento mais adequado e, eventualmente, a cura do paciente, reduzindo os
riscos de complicações cardiovasculares decorrentes da hipertensão arterial
sistêmica.
Agradecimentos
Gostaríamos de agradecer ao Dr. Guilherme Coelho, médico
patologista, e ao Dr. Antônio Carlos Zanettini, médico cardiologista, pelas
suas contribuições para a realização deste trabalho.
R eferências
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