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Revista da
AMRIGS Volume 48 No
1: 1 - 72 / Janeiro - Março 2004 BL ISSN
0102 - 2105
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RELATO DE CASO |
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Estado epiléptico como manifestação inicial de doença de
Kawasaki
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Alexandre Rodrigues da Silva, Valéria Raimundo Fonteles,
Sônia Lueska, Rudimar dos Santos Riesgo, Lygia Ohlweiler, Newra Tellechea
Rotta |
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Introdução
A doença de Kawasaki é uma vasculite aguda de etiologia
desconhecida com variações significativas de achados clínicos. Estudos
recentes têm demonstrado um aumento significativo da incidência da doença
ano após ano, mas a etiologia ainda é controversa (1). A incidência de
acometimento do SNC varia de 0,4 – 3,7% (2-4), incluindo convulsões, ataxia,
infarto cerebral, coleção subdural, hemiplegia e paralisia do nervo facial
(2,5-10). O objetivo desse estudo é mostrar um caso de acometimento do SNC
na doença de Kawasaki ocorrido antes da definição clínica da doença.
Relato do caso
GS, 2 anos, masculino, branco, procedente de Porto Alegre. Interna em
03/09/2002 na Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital de
Porto Alegre (HCPA) em estado convulsivo, na forma de crises convulsivas
tônico-clônicas generalizadas, com duração de 20 minutos, iniciadas em casa.
Previamente hígido, sem história familiar de epilepsia. Sem outros sintomas
clínicos. Ficou em ventilação mecânica por um dia e foi hidantalizado,
recebendo fenobarbital 5 mg/kg/d e fenitoína 5 mg/kg/d. TC crânio
(04/09/02): hipodensidade com fraca impregnação pelo contraste na área
temporal esquerda. Líquor (06/09): glicorraquia 81 mg/dl, 3 leucócitos
(diferencial de células não realizado), 359 eritrócitos, 14 mg/dl de
proteínas, cultural e bacterioscópico negativos. Sorologia para herpes,
Epstein-Barr, HIV, monoteste e ASLO negativos. Com suspeita de encefalite
herpética usou aciclovir EV por um dia, sendo logo suspenso. Após 3 dias na
UTIP, sem novas crises, foi para a enfermaria, não apresentando
anormalidades ao exame físico. Eletroencefalograma (07/09) com instabilidade
córtico-subcortical difusa e paroxismos pouco freqüentes na região temporal
do hemisfério esquerdo. Realizado novo EEG (10/09/02) com paroxismos focais
de potenciais agudos isolados nas regiões temporais anterior e média do
hemisfério esquerdo, sugerindo foco, sem generalizações.
Suspensa fenitoína. Teve alta em 12/09/02, apresentando 2
picos febris de 37,8 oC,
interpretados como fazendo parte de infecção de via aérea superior de
provável etiologia viral. Em uso de fenobarbital 5 mg/kg/dia, sem déficit
neurológico. Não repetiu TC de crânio. Em 18/09 retorna ao HCPA com febre
(39,5oC), rash
disseminado pelo tronco do tipo escarlatiniforme, edema de mãos e pés,
descamação perioral e linfonodo cervical medindo 1,5 cm de diâmetro.
Fechados os critérios diagnósticos de doença de Kawasaki, iniciou com
imunoglobulina hiperimune, que foi repetida no dia seguinte por persistência
da febre, tendo ocorrido resolução concomitante ao desaparecimento do
rash cutâneo e do edema. Em 19/09 realizou ecocardiograma, que foi
normal. Teve alta em uso de AAS e fenobarbital. Ambulatorialmente realizou 2
novos ecocardiogramas (15/10/02 e 22/01/03), que foram normais. Em 20/04/03
fez novo EEG, que mostrou alterações paroxísticas multifocais. Iniciou ácido
valpróico 40 mg/kg/dia. Não desenvolveu nenhum tipo de seqüela neurológica
durante os 6 meses de acompanhamento ambulatorial posterior.
Discussão
A ocorrência de convulsões associadas à doença de
Kawasaki é abundantemente demonstrada na literatura (2-4), e, mesmo como
sintoma inicial, as manifestações neurológicas não são utilizadas como
critérios de diagnóstico (4). O sintoma neurológico mais freqüente é o de
paralisia do nervo facial (3,5,9). No entanto, em vários estudos de imagem
se observa acometimento do SNC sem correspondência clínica (10,11),
mostrando ser essa uma doença causadora de vasculite sistêmica. No caso
relatado, os sintomas neurológicos anteciparam o diagnóstico de Kawasaki. Os
achados clínicos e de EEG foram semelhantes ao estudo de Tabarki (4), sendo
que o acometimento do SNC foi visto mais precocemente, principalmente na
forma de estado convulsivo.
Não há um padrão típico de líquor na doença de Kawasaki,
apesar de alguns trabalhos mostrarem a ocorrência de pleocitose em 1/3 até
na metade dos casos (12), sem alteração na glicorraquia nem na
proteinorraquia.
O uso precoce de imunoglobulina hiperimune tem se
mostrado eficaz em evitar complicações como a ocorrência de aneurismas de
artéria coronariana, sem haver evidências de benefício para o SNC (13).
Drogas alternativas, tais como corticóides, têm sido testadas (1). O próprio
uso de um segundo curso de imunoglobulina é demonstrado como benéfico e
seguro (13).
Apesar da gravidade dos achados neurológicos, na maioria
das vezes são manifestações autolimitadas cuja resolução pode levar alguns
meses para ocorrer (2,3,6-10). Pior prognóstico neurológico foi encontrado
no estudo de Tabarki (4), em que o paciente desenvolveu séria deficiência
mental. Algum grau de correlação tem sido encontrado entre o achado de
hipodensidade do parênquima na TC de crânio com a ocorrência de aneurisma de
artérias coronarianas (4,14). Seqüelas auditivas são relatadas, mas sem
relação com o uso de AAS (8) e podendo persistir por anos (2).
Deve-se sempre nos casos de acometimento súbito do SNC
pensar na hipótese diagnóstica de doença de Kawasaki, mesmo sem a ocorrência
de sinais e sintomas que compõem o quadro clássico da doença. No nosso caso,
as evidências de associação entre o evento neurológico e a doença talvez não
estabeleçam com segurança a seqüência de causa-e-efeito, mas levam a uma
forte suspeita serem eventos de origem semelhante.
R eferências
Bibliográficas
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ALEXANDRE RODRIGUES DA Silva – Médico Residente em
Neuropediatria.
Valéria Raimundo Fonteles – Médica Residente em
Neuropediatria.
Sônia Lueska – Professora Adjunta do Departamento de
Pediatria – UFRGS.
Rudimar dos Santos Riesgo – Médico Neuropediatra.
Doutor em Pediatria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Lygia Ohlweiler – Médica Neuropediatra. Doutora em
Pediatria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Newra Tellechea Rotta – Chefe da Unidade de
Neuropediatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Professora Adjunta
do Departamento de Pediatria – UFRGS.
Unidade de Neurologia Infantil – Serviço de Pediatria do
Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Universidade Federal do Rio Grande do
Sul – Brasil.
* Endereço para
correspondência:
Alexandre Rodrigues da Silva
Rua Sofia Veloso, 46/402
CEP 90050-140
Porto Alegre – RS
Fone 9684-8430
: alex164@IG.com.br
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