Introdução
Hipertensão intracraniana (HIC) é uma grave complicação
do quadro de meningite (1). Seu dano cerebral ocorre através de mecanismos
ainda em investigação (2), podendo levar a seqüelas neurológicas importantes
e aumento na mortalidade dos pacientes com essa doença (1,3). A redução da
pressão de perfusão cerebral causada pela HIC leva a um quadro de isquemia
cerebral; modelos animais mostram forte associação com formação de radicais
livres na gênese do edema cerebral da HIC (4,5), além de envolvimento de
alterações regionais da perfusão cerebral (5,6). Alguns estudos sugerem que
o tratamento antimicrobiano inicial pode causar rápida lise bacteriana com
liberação de agentes inflamatórios no líquido cefalorraqueano (LCR) (7,8). A
reação inflamatória conseqüente causa danos tão sérios quanto a invasão
bacteriana direta (9). O tratamento da HIC é variado, indo desde medidas
farmacológicas até cirúrgicas, dependendo do grau de hipertensão e de suas
diferentes localizações (2,10).
Este trabalho tem o objetivo de mostrar a prevalência e o
seguimento ambulatorial de pacientes com meningite internados em UTI
pediátrica que desenvolveram sinais importantes de hipertensão
intracraniana.
Metodologia
O delineamento do estudo foi de coorte histórica,
observacional, tendo como fator de estudo a ocorrência de hipertensão
intracraniana em pacientes com meningite bacteriana e desfecho os achados
clínicos no seguimento ambulatorial. Foram revisados os registros médicos
(estudo de dados secundários) de pacientes que apresentaram quadro de
meningite bacteriana que necessitaram de internação na UTI Pediátrica do
Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) no período de janeiro de 1985 a
junho de 2001. Não houve cálculo de tamanho da amostra por ter sido
preferido delimitar um espaço de tempo definido da ocorrência de casos.
Foram excluídos os casos de meningite por Micobacterium tuberculosis,
por ser este um agente cuja causa de HIC está mais relacionada à obstrução
de drenagem liquórica e hidrocefalia. Os critérios de internação na
unidade de terapia intensiva que também serviram como critérios de inclusão
foram de quadro clínico de meningite somando-se aos achados de instabilidade
hemodinâmica com necessidade de monitorização e/ou líquor compatível com
meningite bacteriana (pleocitose, predomínio de polimorfonucleares,
hiperproteinorraquia e hipoglicorraquia). Os critérios para definição de HIC
foram clínicos, não sendo usado nenhum tipo de medida invasiva. Além do
diagnóstico de meningite e da ocorrência de HIC, pesquisou-se também agente
etiológico, sexo, cor, idade na época de internação, tempo de internação,
tratamento e acompanhamento ambulatorial, sendo este avaliado somente nos
pacientes que seguiram acompanhamento nos ambulatórios do HCPA. Os critérios
para definição de lesão cerebral motora (LCM) foram clínicos, como sinais de
liberação piramidal (tetraparesia espástica do tipo piramidal), ataxia
motora (tetraparesia espástica do tipo atáxica), sinais extrapiramidais
(forma elástica) ou mista. O tempo de acompanhamento ambulatorial foi de no
mínimo 6 meses para a realização do diagnóstico de LCM. Os dados foram
analisados no software Epi-info versão 6.04, com um nível de
significância estatística estabelecido em 0,05%. O trabalho foi aprovado
pelo comitê de ética em pesquisa do HCPA.
Resultados
Durante o período de estudo foram revisados 187 casos de meningite
bacteriana. Houve um predomínio masculino (52%) e da cor branca (92,5%). O
tempo médio de internação hospitalar foi de 20 dias, com uma mediana de 15
dias, variando de 1 a 89 dias. A média da idade de internação foi de 22
meses, com uma mediana de 10 meses, variando de 1 mês a 12 anos. O período
de maior número de internações foi entre os meses de março e junho,
independente do ano. A proporção entre as etiologias das meningites foi de
H influenzae (18%), N meningitis (18%) e S pneumoniae
(18%). Etiologia indeterminada foi detectada em 40% dos casos, sendo que em
nenhum destes casos houve diagnóstico de outras infecções do SNC
(neurotuberculose, criptococose, neurocisticercose...). A Tabela 1 mostra as
intercorrências durante a internação. Houve diferença estatisticamente
significativa (p=0,000002) entre os casos com e sem HIC quanto à ocorrência
de intercorrências na internação, sendo maior no grupo que apresentou HIC. A
prevalência de HIC nos casos estudados foi de 15%. O seguimento ambulatorial
foi realizado em 112 pacientes, que variou de 6 meses a 5 anos, onde as
ocorrências mais freqüentes de seqüelas foram: epilepsia (19%), lesão
cerebral motora (9%) e hipoacusia (5%).
Tabela 1 –
Intercorrências durante a internação
As Tabelas 2 e 3 mostram a relação de HIC com diversos fatores,
destacando-se a correlação entre níveis menores de glicorraquia, aumento de
proteinorraquia, lesão cerebral motora, convulsões, etiologia pneumocócica e
maior tempo de internação com a ocorrência de HIC. As Tabelas 4 e 5 mostram
a mesma comparação, excetuando-se a etiologia pneumocócica, visto que esta
possuía uma forte correlação com a ocorrência de HIC, mantendo-se as demais
correlações demonstradas. Apenas 10 pacientes que apresentaram HIC
realizaram TC de crânio, sendo que 8 destes apresentavam sinais de vasculite
e ou edema cerebral. De um total de 159 pacientes que não apresentaram
sinais clínicos de HIC, 52 (32%) realizaram TC de crânio. Destes, 7
apresentaram TC de crânio com sinais de vasculite e/ou edema cerebral,
havendo correlação estatisticamente significativa entre edema cerebral e
vasculite com os sinais de HIC (p=0,00006; OR=25,7, IC=3,7-225). Com relação
ao amplo período de tempo em que foram abordados os casos, foi possível
mostrar que não houve diferença entre a ocorrência de HIC entre os pacientes
que fizeram uso de cefalosporinas e os que usaram outros regimes de
antimicrobianos. Também não houve diferença entre o uso ou não de
dexametasona em relação à ocorrência de HIC. Em relação à ocorrência de
hidrocefalia, em 25% dos casos de HIC foi evidenciado radiologicamente
ocorrência de hidrocefalia. Por outro lado, 45% dos casos de hidrocefalia
apresentaram HIC, não havendo correlação estatística (p=0,08).
Tabela 2 – HIC* versus
variáveis numéricas
Tabela 3 –
HIC* versus variáveis dicotômicas
Tabela 4 – HIC* versus
variáveis numéricas excluídos os casos causados por pneumococo
Tabela 5 – HIC versus
variáveis dicotômicas excluídos os casos causados por pneumococo
Discussão
Deve sempre haver uma forte suspeição clínica para a
ocorrência de HIC nos casos de meningite, independente do seu agente
etiológico ou mesmo quando houver dúvida quanto à natureza bacteriana da
meningite. HIC por si só pode estar relacionada a dano cerebral, além de
também poder ser um marcador para forte reação inflamatória que ocorre no
SNC (2).
O dano isquêmico provocado pelo edema cerebral e
conseqüente HIC está entre os maiores determinantes de prognósticos nas
meningites bacterianas (1,11). Estudo angiográfico (11) mostra que as
complicações vasculares estão entre as mais freqüentes.
Estudos recentes (4) têm mostrado forte correlação entre
a formação de edema cerebral e conseqüente HIC a partir da formação de
radicais livres. O uso de terapia antioxidante, como o uso de ácido úrico
(4) e superóxido-dismutase (5) em modelos animais, têm se mostrado efetivo
tanto no quadro de modificação de HIC como de modificação no perfil
liquórico. O uso de inibidores da enzima óxido-nítrico-sintetase (5)
causaram, além dos efeitos já citados, também uma diminuição da ocorrência
de dilatação de arteríolas do SNC em modelos animais de meningite
pneumocócica, mostrando que o pneumococo também tem papel na gênese da HIC
por estimular a produção de óxido nítrico, potente vasodilatador (5,6). O
próprio uso de metabólitos da cicloxigenase têm mostrado alguma eficácia
(12).
Nossos achados com relação à grande patogenicidade do
pneumococo na gênese da HIC está de acordo com a literatura (1,4-6,11-13).
Dessa maneira, para podermos verificar o efeito da HIC sem influência já
estabelecida desse agente, estratificou-se a amostra, excluindo-se aqueles
casos com etiologia pneumocócica documentada. O que se evidenciou foi a
manutenção da maioria das correlações anteriormente demonstradas, inclusive
com a acentuação de algumas, como uma maior diferença na média de idade de
internação hospitalar.
A ocorrência de convulsões, bem como do aparecimento de
paralisia cerebral com uma forte correlação com HIC apenas vêm a somar-se a
outros estudos (2,3,10,13) que mostram o grau de morbidade que mudanças na
perfusão cerebral bem como estresse oxidativo ligado a edema cerebral e HIC
podem causar.
Apesar de haver forte correlação clínica com os achados
de TC de crânio de edema e vasculite, existem várias explicações que
poderiam justificar o fato de essa correlação não ter sido maior: TCs de
crânio realizadas muito precocemente ou muito tardiamente poderiam não
mostrar a ocorrência das lesões de perfusão; o fato de ter sido usado o
critério clínico, que não é o melhor para medir esse tipo de desfecho (13),
pode ter deixado passar desapercebida a ocorrência de HIC em outros casos.
Além disso, nosso estudo não mostrou correlação
estatística entre a ocorrência de hidrocefalia e HIC, podendo ser explicado
por um insuficiente número de casos que fizeram TC de crânio.
Quanto ao papel específico da HIC nas seqüelas
observadas, foi possível concluir que a HIC é um fator clínico de grande
importância na meningite bacteriana aguda, com estreita correlação com
etiologia pneumocócica, menor idade de início de sintomas, tempo de
internação hospitalar prolongado, ocorrência de convulsões e paralisia
cerebral, além de hipoglicorraquia e aumento de proteínas no líquor.
Entendemos que novos estudos são necessários para uma
melhor compreensão da HIC na meningite para a construção de uma terapêutica
mais eficaz.
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