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Os recentes avanços na área da saúde permitiram um maior controle da natalidade, da mortalidade infantil e das doenças infectocontagiosas. Houve uma mudança do perfil demográfico e epidemiológico da população, observando-se um aumento da freqüência de doenças crônico-degenerativas. A Lei n o 8.842/94 preconiza que a primeira instância de atendimento à saúde deva ocorrer na família (3). Nesse contexto, têm surgido iniciativas governamentais como as do Programa de Agentes Comunitários da Saúde (PACS) e do Programa de Saúde da Família (PSF), que buscam resgatar a importância do indivíduo no seu núcleo familiar e na sociedade. Diante dessas evidências, constata-se também a necessidade de estratégias de atendimento intermediárias, que possibilitem um cuidado mais intensivo do que o proporcionado ambulatorialmente, sem as desvantagens da hospitalização, possibilitando a participação do suporte familiar (2). Uma alternativa é a internação domiciliar que, após uma internação hospitalar convencional, pode proporcionar apoio para a reestruturação da dinâmica familiar, funcionando como uma ponte entre o hospital, a casa do paciente e o nível primário.O conceito de Home Health Care, relacionado à internação domiciliária, surgiu nos EUA na década de oitenta, como uma alternativa aos altos custos da internação hospitalar. O objetivo deste trabalho é o de relatar a experiência de um programa de internação domiciliar existente na rede pública do município de Santa Maria (Rio Grande do Sul). Acompanhou-se o funcionamento do Serviço de Pós-Alta Hospitalar (SPAH) vinculado ao único hospital público do município de Santa Maria (Casa de Saúde), coletando-se os dados dos prontuários dos pacientes atendidos no primeiro semestre do ano de 2002. Os mesmos foram organizados em tabelas e gráficos, sendo submetidos a análise descritiva com a finalidade de se traçar um perfil da população atendida por esse serviço.
Métodos Inicialmente, acompanhou-se o trabalho da equipe multiprofissional de internação domiciliar a fim de poder realizar uma descrição do funcionamento do programa SPAH. A equipe é constituída por uma médica, uma enfermeira, uma fisioterapeuta, um auxiliar de enfermagem, uma psicóloga e uma nutricionista. Todos os profissionais são funcionários da Secretaria de Saúde do município de Santa Maria. O transporte dos mesmos até a residência dos pacientes é realizada através de uma ambulância. No Hospital Casa de Saúde, os 15 pacientes internados no setor clínico são atendidos e acompanhados por um médico. Este último solicita, quando necessário, a inclusão do paciente para o programa de internação domiciliar. O médico ou a enfermeira do SPAH realizam uma entrevista com o paciente e um dos familiares, preenchendo uma ficha com os dados de identificação, história clínica, tratamento realizado no hospital e medicação em uso. Os principais critérios utilizados para a inclusão no SPAH são: pacientes com alta hospitalar, mas situação clínica de difícil manejo em nível primário de atenção à saúde; pelo menos três internações pela mesma causa/procedimento em um ano; portadores de condições crônicas, tais como insuficiência cardíaca, doença broncopulmonar obstrutiva crônica (DBPOC), acidente vascular cerebral (AVC), diabetes mellitus, pacientes acometidos por trauma com fratura ou afecção ósteo-articular em recuperação, pacientes portadores de neoplasias malignas (6). Aceitavam-se tanto crianças, como adultos e idosos. Foram excluídos pacientes com doença aguda que necessitavam de monitorização contínua, que apresentavam indicação de internação hospitalar convencional. Aprovando-se a entrada do paciente no programa, agenda-se uma visita domiciliária. Nessa etapa de avaliação inicial, os membros da equipe traçam um plano de acompanhamento, estipulando o número de visitas e o tipo de atendimento que deverá ser enfatizado. Para a realização deste trabalho, foram coletados os dados a partir dos prontuários de todos os pacientes atendidos pelo SPAH no primeiro semestre de 2002, totalizando um número de 107. Após a coleta dos dados, os mesmos foram organizados em tabelas e gráficos e realizou-se uma análise descritiva dos mesmos.
Resultados A equipe do SPAH realiza, em média, de 4 a 5 visitas por tarde, registrando, nos prontuários, os dados da evolução, tratamento e plano futuro para cada paciente. Geralmente, a primeira visita é feita com toda a equipe (médico, enfermeira, fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga), a fim de oferecer uma orientação multiprofissional ao paciente e cuidadores. Nessa ocasião, realiza-se uma pequena explanação sobre as características da doença do paciente, a sua evolução, fatores de alívio e piora do quadro clínico, cuidados gerais de higiene, alimentação, manutenção do ambiente (ventilação, posição da cama, iluminação do quarto), estímulos motores, medidas para prevenção de escaras e outras orientações pertinentes a cada caso. Aos cuidadores são atribuídas as seguintes funções: medidas de higiene, administração de alimentação e medicação via oral, realização de curativos simples (sem cobertura). As medicações de administração parenteral (endovenosa ou intramuscular), assim como os curativos com cobertura, só poderiam ser aplicados pela equipe de enfermagem. No primeiro semestre de 2002, uma população de 107 pacientes foi atendida pelo SPAH, sendo 93,5% adultos e 6,5% com idade inferior a 15 anos. O Gráfico 1 mostra a distribuição da população quanto à idade, mostrando também a relação dos sexos em cada faixa etária. Não se observa uma diferença estatisticamente significativa (p<0,05) entre a quantidade de pacientes masculinos (55%) e femininos (45%). Gráfico 1 – Faixa etária e sexo dos pacientes. O paciente com menor idade apresenta 5 meses, enquanto que o mais idoso tem 92 anos. A média de idade de toda a população atendida foi de 60 anos. Considerando o idoso como toda pessoa com idade acima de 65 anos, 50,5% dos pacientes atendidos pelo SPAH, nesse período, incluíam-se nesta faixa etária. O tempo médio de permanência no programa foi de cerca 20 dias, sendo que cada paciente recebia, em média, uma visita semanal. Eram realizadas cerca de 3 a 4 visitas durante todo o período de acompanhamento domiciliar. Também eram realizados contatos telefônicos quando a família necessitasse de alguma orientação antes do dia agendado para a visita. Quando necessário, o paciente poderia ser visto com uma freqüência maior. Visitas extras poderiam ser solicitadas, principalmente em situações de piora clínica. O Gráfico 2 mostra as principais patologias responsáveis pela internação dos pacientes do SPAH na Casa de Saúde. As infecções respiratórias (35,5%) representam o principal diagnóstico, seguidas das neoplasias (12%), seqüela de Acidente Vascular Cerebral (A.V.C.) (11%), cardiopatias (9%), infecções do trato urinário (I.T.U.) (9%) e infecções cutâneas (6,5%). Gráfico 2 – Doenças dos pacientes do SPAH. O tempo médio de permanência hospitalar dos pacientes antes de serem incluídos no programa do SPAH foi de 10 dias. Durante o período de acompanhamento pela equipe de internação domiciliária, 22 dos 107 pacientes (20,5%) necessitaram se reinternar na Casa de Saúde, permanecendo, em média, 7 dias. No final de cada programa, a equipe entrega um relatório à família do paciente e deixa uma segunda via do mesmo no Posto de Saúde mais próximo. O relatório apresenta dados referentes ao(s) diagnóstico(s), evolução, tratamentos realizados, medicação em uso e orientações. Esse contato tem como principal finalidade a de estimular e fortificar o elo entre o paciente e sua Unidade de Saúde de referência. Uma outra cópia do relatório permanece nos arquivos do SPAH. Entre os 107 pacientes atendidos, 59% receberam alta do programa com melhora do quadro clínico (Gráfico 3), 28% foram ao óbito, 7% tiveram seu quadro clínico inalterado e 6% foram encaminhados a outras instituições. Gráfico 3 – Evolução dos pacientes do SPAH. O Gráfico 4 mostra os diagnósticos dos pacientes que foram ao óbito. Observa-se que 34% dos pacientes que faleceram tinham uma infecção respiratória como motivo de internação na Casa de Saúde. Por outro lado, é importante ressaltar que todos esses pacientes apresentavam co-morbidades graves e avançadas como seqüelas de acidente vascular cerebral (80%), neoplasia (10%) e insuficiência renal crônica (10%). Gráfico 4 – Patologias dos pacientes que foram ao óbito. Encontrou-se uma correlação positiva (r = 0,63) entre a idade dos pacientes e os óbitos (p<0,05), como mostra o Gráfico 5. Por outro lado, não foi evidenciada nenhuma correlação entre a idade e o tempo de acompanhamento pelo serviço. Gráfico 5 – Relação entre a faixa etária e os óbitos. Discussão O atendimento domiciliário, nos moldes do home care internacional, vem sendo gradativamente implementado no Brasil em diversos serviços públicos desde 1993, com o incentivo do Ministério da Saúde através do Programa de Saúde da Família (5). Como exemplo de serviço de assistência domiciliária no Brasil, podemos citar aqueles desenvolvidos na cidade de São Paulo, particularmente o do Hospital do Servidor Público Municipal, e o Serviço de Assistência Domiciliária, específico para o idoso (SADI), aplicado em Guarulhos (7). De acordo com o levantamento estatístico realizado em 1996 no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, 833 pacientes foram acompanhados pela assistência domiciliária, sendo que a transferência dos pacientes crônicos e convalescentes integrados nesse programa promoveu a liberação de leitos hospitalares para os casos que realmente necessitavam de internação, ampliando assim a oferta de leitos, diminuindo a média de permanência hospitalar e os custos de internação (4). Nas estatísticas atuais, os idosos constituem o grupo etário mais freqüentemente hospitalizado, cerca de três vezes mais que a população mais jovem, sendo aqueles os mais beneficiados pela implementação de programas dessa ordem (2). Em relação às patologias mais prevalentes no presente estudo, observou-se uma relativa semelhança com o levantamento estatístico realizado em 1996 em São Paulo, citado anteriormente. Dos 833 pacientes acompanhados pela assistência domiciliária de São Paulo, as enfermidades mais prevalentes foram: neurológicas (34,70%), vasculares (11,52%), pulmonares (10,58%), cardíacas (8,52%), politrauma (7,80%) e neoplasia (6,36%) (4). Em nossa amostra, a alta prevalência de doenças respiratórias (35,5%) pode estar relacionada às particularidades regionais, dentre elas o clima, que favoreceriam tais patologias. Os resultados obtidos demonstram que esse tipo de programa é uma nova e vantajosa alternativa a ser instituída nos serviços de saúde, visto que a maioria dos pacientes (59%) recebeu alta do programa com considerável melhora clínica. Por outro lado, a ele vada taxa de mortalidade dos pacientes pode ser explicada por serem portadores de doenças crônico-degenerativas, as quais evoluiriam para o óbito, independentemente do ambiente de tratamento; nesses casos, a internação domiciliar objetivava proporcionar também ao paciente um amparo emocional familiar não oferecido em ambiente hospitalar. Também se mostrou que a idade tem uma correlação positiva com os óbitos. Os idosos, de fato, têm suas necessidades médicas e sociais diferenciadas e tendem a utilizar de forma mais intensa os serviços e equipamentos de saúde. Levando-se em conta que a maioria da população nessa faixa etária em nosso país vive em condições de baixo nível sócio-econômico, o setor público de saúde surge como a única alternativa viável de assistência médica. Parece, pois, urgente, em termos de saúde pública, a necessidade de encontrar novos modelos de assistência e de programas realmente eficazes nas tentativas de reduzir a relação custo benefício, os quais permitam efetuar a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento das afecções crônicas. Portanto, a implementação dos serviços de assistência domiciliária aos idosos no nosso país viria ao encontro das expectativas dessa população. A qualidade de vida dos idosos e de seus cuidadores familiares pode ser melhorada pela intervenção de cuidadores profissionais (leigos treinados para realizar esse tipo de tarefa), trabalhando em seus domicílios. Essas intervenções devem ter como alvo ajudar a manter e a implementar o bem-estar físico, emocional e cognitivo dos idosos, auxiliar a família a superar os conflitos gerados pela situação de cuidado, ajudá-la a tomar as providências necessárias à incrementação da qualidade de vida do idoso e da sua própria e, como objetivos não tão imediatos, porém não menos significativos, promover a criação de uma nova sensibilidade social em relação aos idosos e a solidariedade entre as gerações.
Referências bibliográficas 1. DUARTE, Yeda A. O., DIOGO, Maria J.D.D. Atendimento Domiciliar – Um Enfoque Gerontológico. São Paulo: Editora Atheneu, 2000. 2. HOSPITAL DE CLÍNICAS DE SÃO PAULO. Manual do Núcleo de Atendimento Domiciliário Integrado. São Paulo, 1995. 3. CÂMARA DOS DEPUTADOS E SENADO FEDERAL. Lei n 4. MONTEIRO, José L., MONTEIRO, Carlos P. Internação Domiciliária. São Paulo: Editora Atheneu, 2000. 5. MONETTA, L. A Especialidade no Atendimento Domiciliário. São Paulo: Editora Atheneu, 2000. 6. MINISTÉRIO DA SAÚDE, Secretaria de Assistência à Saúde: Portaria número 2416. Mar. 1998. 7. YUASO, Denise R., SGUIZZATTO, Guilherme T. Serviço de Assistência Domiciliária ao Idoso (SADI) do Centro de Referência à Saúde do Idoso do Município de Guarulhos. São Paulo: Editora Atheneu, 2000. |
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