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Revista da
AMRIGS Volume 49 No
1: 1 - 68 / Janeiro - Março 2005 BL ISSN
0102 - 2105
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ARTIGO ORIGINAL |
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Prevalência da
doença periodontal
na gravidez e sua
influência na
saúde do
recém-nascido |
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Elaine Catarina de Camargo, Mauro Soibelman |
Introdução
Doenças sistêmicas afetam o
sistema estomatológico da mesma maneira que enfermidades bucais podem
influenciar negativamente a saúde integral do indivíduo. A periodontite, uma
das mais freqüentes, é uma doença inflamatória e infecciosa que afeta o
periodonto (perio = em torno de; donto = dente – conjunto de tecidos que
circunda e sustenta o dente), causando perda progressiva da inserção
conjuntiva e podendo ocorrer em indivíduos saudáveis de qualquer idade. (1).
Há duas hipóteses para a etiologia da doença periodontal, a específica, que
relaciona diretamente os níveis de higiene bucal à destruição dos tecidos
periodontais – as bactérias patogênicas potenciais para a periodontite
seriam responsáveis pela formação de produtos que induzem à inflamação, e a
teoria não específica, na qual diferenças individuais não estão associadas à
higiene bucal, permitindo concluir que nem todos os indivíduos respondem de
forma semelhante à presença da placa bacteriana ou bio-filme, película
aderida aos dentes composta por resíduos e flora bacteriana mista com
potencialidade variável para indução à doença na cavidade bucal (2).
As perturbações da saúde bucal durante gravidez
e períodos onde há alterações hormonais, por si só, não desencadeiam as
periodontites. Entretanto, os hormônios sexuais podem agir sobre os tecidos
periodontais de diferentes maneiras, tanto alterando a resposta tecidual à
placa, como influenciando a composição da microbiota e estimulando a síntese
de citocinas inflamatórias, particularmente as prostaglandinas (3). Ou seja,
as concentrações hormonais que as gestantes atingem acentuam o quadro
clínico da inflamação gengival, uma vez que as alterações vasculares
provocadas por esses hormônios somam-se à constante presença de placa
bacteriana ao redor dos elementos dentários (maior freqüência de ingestão de
alimentos e higiene bucal deficiente) (4).
Durante a gestação normal,
hormônios maternos e citocinas de ação local contribuem na regulação do
início do trabalho de parto, das modificações do colo uterino, das
contrações uterinas e da própria expulsão. Infecções maternas que ocorrem
durante a gestação podem perturbar esse mecanismo de regulação, resultando
em trabalho de parto prematuro, ruptura prematura de membranas e parto
prematuro com baixo peso ao nascer (5).
Em um estudo com 124 mulheres no
puerpério, com controle para fatores de risco para baixo peso ao nascer
preestabelecidos, observou-se que portadoras de doença periodontal eram sete
vezes mais vulneráveis a ter um bebê com baixo peso (5). Diversos estudos
foram conduzidos para avaliar a associação de doença periodontal materna com
complicações na gestação e na saúde do concepto, sendo os resultados
conflitantes e não conclusivos (6, 7, 8, 9).
As importantes diferenças culturais,
ainda mais quando se considera o segmento social com menor acesso à
informação e ao próprio sistema de saúde, podem contribuir para aumentar a
relevância de estratégias preventivas que respeitem essas especificidades.
Conhecendo melhor nossa realidade, programas odontológicos adequadamente
direcionados às gestantes poderiam ser delineados para esclarecer a
importância em manter a saúde bucal, ressaltando-se o eventual benefício
direto ao recém-nascido (10).
O presente estudo investigou a relação entre
má qualidade de saúde bucal da gestante e condições do recém-nascido através
da associação entre periodontite materna, índice Apgar no 5o
minuto e peso do recém-nascido.
Métodos
Delineamento
Estudo transversal
Amostragem
Foram avaliadas 115 pacientes
com idades entre 18 e 42 anos, nos meses de abril e outubro de 2003,
selecionadas por conveniência dentre as clientes internadas pelo Sistema
Único de Saúde (SUS) na Maternidade Mário Totta (CHSCPA), unidade de ensino
da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (FFFCMPA)
que esclarecida e livremente consentiram em participar do estudo.
A limitação da idade foi
estabelecida com o objetivo de diminuir possível viés relacionado à gestação
de alto risco e para excluir adolescentes, sabidamente suscetíveis ao
desenvolvimento de periodontite juvenil. Foram excluídas do estudo 12
pacientes com doenças sistêmicas graves (diabetes, cardiopatias e infecção
pelo HIV, entre outras), com o objetivo de diminuir a incidência de
condições associadas a baixo peso ao nascer. Houve 5 casos com impedimentos
diversos (fora do leito, dormindo ou não consentiu).
Estudo-piloto
Foi conduzido estudo em 15
pacientes para padronizar os critérios dos examinadores quanto ao exame
periodontal e adequar os procedimentos da pesquisa à rotina da equipe médica
e de enfermagem.
Avaliação odontológica da parturiente
Os critérios diagnósticos para
periodontite foram baseados na classificação da American Association of
Periodontology (11) e os exames intra-bucais seguiram os critérios da
Organização Mundial da Saúde (OMS) para levantamentos epidemiológicos (12),
com a paciente no leito e utilizando foco de luz portátil.
Na avaliação da condição periodontal (periodontite)
foi medido e registrado o CPI (Índice Periodontal Comunitário), que avalia a
condição periodontal quanto a sangramento e presença de cálculo ou bolsa.
A boca foi dividida em sextantes,
sendo os seguintes dentes-índices: 17, 16, 11, 26, 27, 37, 36, 31, 46, 47.
Na ausência de dentes-índices, os remanescentes do sextante, quando
existentes, foram examinados .
Respeitando as dificuldades de identificação
clínica, histopatológica e microbiológica para caracterização da
Periodontite Agressiva e para Periodontite Crônica, foi considerado sulco
gengival clinicamente saudável o espaço entre gengiva e dente livre de
sinais inflamatórios, sem sangramento à sondagem e com profundidade de
sondagem de até 3 mm.
Classificação final:
1 – Ausência de doença periodontal – periodontite
2 – Presença de doença periodontal – periodontite
Procedimentos
Exame odontológico
Os exames odontológicos foram
procedidos na própria enfermaria, durante o restabelecimento puerperal
hospitalar por duas duplas de cirurgiões-dentistas, que seguiram
rigorosamente a rotina estabelecida após avaliação do estudo-piloto. Foi
estabelecido com a equipe médica e de enfermagem período de 4 horas semanais
para a realização de até 10 avaliações. Quando o número de candidatas
excedia o limite, realizava-se sorteio para limitar os exames ao limite
previsto. O protocolo convencionado seguiu a seguinte ordem: revisão do
prontuário médico para a seleção, convite para mães candidatas com
informação pertinente e assinatura do termo de consentimento livre e
esclarecido por todas as que consentiram participar.
Avaliação médica do recém-nascido
A avaliação das condições do
recém-nascido foi realizada no momento do parto, pelo médico obstetra,
através do índice Apgar no 5o minuto e do peso
ao nascer.
Análise dos resultados
Para investigar a associação entre a
periodontite e a realização de acompanhamento médico pré-natal (variáveis
dicotômicas) com os desfechos de saúde do recém-nascido (variáveis
quantitativas), foi utilizado o teste t de Student. Para a
associação da presença de periodontite com realização de acompanhamento
pré-natal, foi utilizado o teste do Chi-quadrado. Para todos os
testes foi adotado valor alfa de 0,05.
A prevalência de periodontite foi
descrita em porcentagem, sendo apresentado o intervalo de confiança de 95%.
Questões éticas
Todas as gestantes examinadas
assinaram Termo de Consentimento Livre e Informado, receberam um boletim com
o diagnóstico de sua condição periodontal e listagem dos serviços públicos
que prestam atendimento odontológico.
O projeto e o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido foram aprovados pelo Comitê de Ética em
Pesquisa da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Figura 1 –
Avaliação odontológica de
puérpera no leito hospitalar
Figura 2 –
Exame periodontal (detalhe)
– puérpera JCOD, 18 anos, com periodontite e sem acompanhamento
médico/odontológico pré-natal
Figura 3 –
Vista intrabucal da
puérpera JCOD (periodontite)
Figura 4 –
Puérpera JCOD com o
recém-nascido (Apgar 9/10; peso 3.014g)
Resultados
Acompanhamento pré-natal médico
(variando de 2 a 11 consultas) foi realizado por 111 (96,6%) puérperas, não
sendo identificada associação significativa com a doença periodontal ou com
a saúde do recém-nascido. Todas as entrevistadas negaram ter consultado
cirurgião-dentista durante a gestação.
Foram diagnosticados 57 casos de
periodontite, correspondendo à prevalência de 49,6% (IC95% 40,4 – 58,8%). A
média de idade do grupo de mulheres portadoras de periodontite mostrou-se
discretamente inferior, sendo 38,49 semanas a duração média das gestações,
sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos com e sem
diagnóstico de periodontite (Tabela 1).
Tabela 1 –
Associação da idade
materna e da idade gestacional com a presença de periodontite
A Tabela 2 apresenta a comparação de
características do recém-nascido entre os dois grupos de puérperas,
demonstrando que a associação investigada não pode ser identificada.
Tabela 2 –
Associação do Índice de
Agar no 1o e 5o minutos e do peso ao nascer com a presença de periodontite
Discussão
O presente estudo não conseguiu
identificar associação entre doença periodontal em puérperas e dois
indicadores de más condições de saúde do recém-nascido: baixo índice de
Apgar e baixo peso ao nascer.
Outros estudos sobre o tema,
realizados em diferentes países, foram publicados, apresentando grande
heterogeneidade de resultados: variam da ausência de associação (6,7,8) até
a estimativa de que a doença periodontal materna é o principal fator de
risco independente para partos prematuros e para baixo peso ao nascer (9).
Diferenças metodológicas, incluindo o
tipo de delineamento, a definição operacional de doença periodontal e,
conseqüentemente, do grau de severidade dos casos, assim como procedimentos
para controle de variáveis confundíveis, contribuem para explicar as
variações observadas nos resultados.
Nesse estudo, utilizou-se uma
definição abrangente de doença periodontal, sem classificação de gravidade;
assim, a inclusão de casos leves pode ter dificultado a identificação da
associação pesquisada. Por outro lado, buscou-se restringir a
população-alvo, sendo excluídas da amostra puérperas com características
associadas à gestação de alto risco, tais como idade menor que 18 ou maior
que 42 anos e determinadas doenças. Além disso, na intenção de evitar
possíveis fatores de confusão, foram incluídas somente pacientes do SUS.
A semelhança observada entre os
grupos na freqüência dos desfechos estudados torna pouco provável a
possibilidade de que um reduzido poder estatístico seja a explicação para os
resultados encontrados.
Novos estudos, tanto com delineamentos
observacionais como experimentais, são necessários para concluir se existe
associação entre doença periodontal materna e condições de saúde do
recém-nascido e para justificar o investimento em cuidados preventivos
baseados nessa premissa.
Mesmo assim, esta pesquisa
contribuiu para demonstrar a viabilidade da participação de
cirurgiões-dentistas nas atividades de assistência e de pesquisa de um
grande complexo hospitalar universitário, estando de acordo com as
recomendações do relatório Oral Health in America: A Report of the
Surgeon General – U.S. Public Health Service (1) para promover
modificações visando a reconhecer que a saúde bucal é um componente da saúde
geral:
1. mudar as percepções da população;
2. mudar as percepções dos responsáveis pela
definição das políticas de saúde; e
3. mudar as percepções dos profissionais da saúde.
Como metas de médio e longo
prazos, espera-se, entre outras mudanças, a remoção de barreiras entre o
usuário e os serviços de atenção à saúde bucal, mudanças curriculares e
treinamento efetivamente multidisciplinar.
Agradecimentos
Agradecemos aos Cd. Helen Carolina Letti, Leonardo
Moreira Salles, Cibele e Gustavo, realizadores voluntários dos procedimentos
odontológicos, aos Md. Antônio Celso Koeheler Ayub e Ernesto de Paula Guedes
Neto, pela orientação clínica, a Alan Birck (UAP), pela consultoria em
bioestatística, ao Conselho Regional de Odontologia (CRO-RS) e ao Complexo
Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre, pelo apoio institucional, e aos
profissionais que colaboraram neste estudo.
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Rockville, MD: U. S. Department of Health and Human Services, National
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COORDENADORIA DE ATENÇÃO INTEGRAL À SAÚDE. POLÍTICA DE ATENÇÃO INTEGRAL À
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Manual do examinador. Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul,
2001.
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Elaine Catarina de Camargo – Cirurgiã-dentista,
Especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais e
Odontologia Preventiva e Social. Presidente da Associação Brasileira de
Odontologia Hospitalar (ABRAOH).
Mauro Soibelman – Médico Internista, M.Sc.,
Consultor em Epidemiologia da Unidade de Apoio à Pesquisa da Irmandade
Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre.
*
Endereço para correspondência:
Elaine C. Camargo
Rua Dona Laura,
414/503
90430-090 –
Porto Alegre, RS – Brasil
Tel: (51)
3330-4705
:
camargoe@terra.com.br
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