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Revista da AMRIGS
Volume 49  No 1: 1 - 68 / Janeiro - Março 2005
BL ISSN 0102 - 2105

ARTIGO ORIGINAL

 

Prevalência do tabagismo entre estudantes de Medicina e fatores de risco associados

Elaine Catarina de Camargo, Mauro Soibelman

 

    

Introdução

     Apesar de serem conhecedores dos efeitos nocivos do fumo sobre o organismo humano, uma parcela significativa dos acadêmicos de Medicina ainda cultiva esse hábito, mesmo que em menores proporções do que na população geral (1, 2). A prevalência de fumantes entre os estudantes de Medicina varia muito de acordo com o país de origem, podendo atingir níveis tão elevados quanto 56,9%, no sexo masculino, na Turquia, e 44,7%, no sexo feminino, na Espanha (3).

    Dados brasileiros demonstram uma tendência de redução na prevalência do tabagismo entre os estudantes de Medicina nos últimos anos, como demonstrado em estudos realizados em Sorocaba – SP, onde esta alcançou 17,1% em 1989 (4), e em Pelotas – RS, onde atingiu 11% em 1996 (5).

    Apesar de demonstrarem uma aparente redução nos últimos anos, esses índices ainda são considerados elevados, tendo em vista o papel dos estudantes de Medicina na sociedade, onde, como futuros médicos, deveriam servir como exemplo e atuar efetivamente na prevenção de doenças e promoção da saúde.

   Assim, este estudo tem o objetivo de determinar a prevalência do tabagismo entre os acadêmicos de Medicina da ULBRA e identificar grupos de maior risco para o desenvolvimento desse vício, o que pode ser importante na elaboração de estratégias de prevenção capazes de reduzir o número de fumantes e tentar atrair esses estudantes para a luta antitabágica.

 

Material e Métodos

– POPULAÇÃO: Alunos do 2o ao 9o semestres do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), localizada em Canoas – RS.

– METODOLOGIA: Foram utilizados questionários auto-aplicáveis com perguntas sobre variáveis biológicas (sexo, idade), demográficas (procedência, residência atual, com quem reside), semestre cursado e estado conjugal dos pais. Em relação ao hábito tabágico, foi questionado sobre tabagismo atual ou passado, idade de início, quantidade de cigarros, freqüência do hábito, tabagismo entre os pais, familiares e colegas/amigos. Também foram formuladas questões sobre o desempenho acadêmico do estudante (auto-avaliado como ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo), reprovações em disciplinas no curso de Medicina e número de vestibulares prestados para Medicina até a aprovação. Investigou-se também o uso concomitante de álcool e sua freqüência, o hábito da prática esportiva, a utilização de dietas para emagrecer, a presença de diagnóstico atual ou prévio de ansiedade e/ou depressão e o uso atual ou prévio de medicações ansiolíticas e/ou antidepressivas pelos estudantes.

     Foram considerados fumantes aqueles estudantes que responderam que fumavam diariamente, independentemente do número de cigarros; ex-fumantes foram aqueles que no momento da entrevista não fumavam regularmente, mas haviam fumado no passado. Estudantes que relatavam fumar apenas nos finais-de-semana ou à noite, em festas, não foram considerados fumantes para a análise dos dados.

     Os estudantes que avaliaram seu desempenho escolar no curso de Medicina como regular, ruim ou péssimo foram agrupados para a análise estatística em uma única categoria denominada "mau desempenho acadêmico". Aqueles que prestaram mais de 6 vestibulares para Medicina até a aprovação também foram agrupados para o estudo estatístico. Os alunos que ingeriam álcool mais de 2 vezes por semana foram considerados usuários freqüentes e analisados separadamente, assim com os praticantes de esportes mais de 3 vezes por semana, que foram classificados praticantes regulares e também avaliados isoladamente.

– DELINEAMENTO: Estudo de caso-controle, comparando fumantes (casos) com não-fumantes (controles) em relação aos fatores de risco para desenvolvimento do hábito do tabagismo.

– ANÁLISE ESTATÍSTICA: Regressão logística, calculando-se o odds ratio (OR) e intervalo de confiança 95% (IC95%), considerando-se significativo um p<0,05, utilizando-se para os cálculos o software Epi Info 3.2.2.

 

Resultados

     Os questionários foram respondidos por 300 estudantes, sendo 165 (55%) do sexo feminino e 135 (45%) do sexo masculino. Destes, 56 (18,7%) se declararam fumantes e 244 (81,3%) não-fumantes. Dentre os não-fumantes no momento da entrevista, 22 alunos relataram terem sido fumantes regulares no passado, sendo classificados como ex-fumantes, o que correspondeu a 7,3% do total da amostra, conforme descrito na Tabela 1.


Tabela 1 –  Distribuição dos estudantes de medicina conforme o hábito tabágico


     As características da amostra e a distribuição das variáveis analisadas entre o grupo em estudo (fumantes) e o grupo-controle (não-fumantes) estão descritas na Tabela 2.


Tabela 1 –  Características da amostra e análise das variáveis relacionadas ao hábito do tabagismo no grupo em estudo e no grupo-controle


     Conforme esses resultados, as seguintes variáveis foram consideradas fatores de risco para o desenvolvimento do hábito do tabagismo: procedência do interior do Rio Grande do Sul ou de outro Estado brasileiro, morar sozinho, mau desempenho acadêmico, reprovação em disciplinas do curso de Medicina, realização de mais de 6 vestibulares para Medicina até a aprovação e uso eventual e freqüente de álcool. Por outro lado, as variáveis a seguir foram consideradas fatores protetores: morar com os pais e praticar esportes eventual ou regularmente. As demais variáveis não apresentaram significância estatística como fator de risco ou protetor.

 

Discussão

     A prevalência de tabagismo encontrada entre os estudantes de Medicina da ULBRA (18,6%) é menor do que a da população geral brasileira, onde um terço dos adultos fumam e, especialmente, a da região Sul do Brasil, onde se encontram os maiores índices de fumantes, atingindo 42%, conforme dados do Ministério da Saúde (6).

     Em comparação com outras Universidades brasileiras, a prevalência de tabagismo entre os estudantes da ULBRA foi superior, mas poucos dados são disponíveis. Estudos transversais realizados em Pelotas – RS têm demonstrado uma tendência de queda progressiva da prevalência de fumantes entre os acadêmicos dessa cidade, que diminuiu, de 21%, em 1986, para 14%, em 1991, e atingiu 11% em 1996 (5). Em Sorocaba – SP, a prevalência de tabagismo entre estudantes de Medicina também diminuiu, de 37,8%, em 1969, para 17,1%, em 1989 (6).

     Em alguns países, como os Estados Unidos, também se observa uma menor prevalência de tabagistas entre os acadêmicos de Medicina em relação à população geral, inclusive quando comparados com estudantes de outros cursos da área da saúde, como no estudo de Patkar e colaboradores, que demonstrou uma prevalência de 9,8% entre os estudantes de Medicina e de 17,8% entre os de enfermagem (7). Entretanto, em outros países, como a China, essa diferença não é observada, como no levantamento de Zhu e colaboradores, que encontraram diferenças não-significativas de estudantes fumantes nos cursos de Medicina e nos cursos não-médicos, tanto no sexo masculino (40,7% × 45,1%) como no feminino (4,4% × 6,0%)(8). Em um trabalho realizado na Colômbia, Rosselli e colaboradores constataram prevalências semelhantes de tabagistas entre acadêmicos de Medicina (25,9%) e a população geral (9).

    Esta grande variação geográfica ficou bem documentada em um estudo multicêntrico que avaliou 9.000 estudantes de Medicina de 51 escolas, oriundos de 42 países. Em alguns dos países estudados, a prevalência foi extremamente elevada, como na Turquia (56,9% no sexo masculino), no Japão (45-49% também entre os homens) e na Espanha, onde o sexo feminino atingiu seus maiores índices (44,7%). Em contraste, em outros países essa prevalência foi muito baixa, como nos Estados Unidos (0 a 2%) e em países muçulmanos, como a Arábia Saudita e Marrocos, onde ficou em 0% entre as mulheres (3).

     Em relação aos fatores de risco para a aquisição do hábito do tabagismo, o estudo de Akvardar e colaboradores também demonstrou uma associação direta entre o uso de álcool e o tabagismo entre médicos e estudantes de medicina da Turquia (10). Essa associação já é bem conhecida na população geral, como mostrou o trabalho de Riala e colaboradores, que colocou o tabagismo na adolescência como o principal fator preditor do posterior desenvolvimento de alcoolismo na idade adulta (11).

     A relação entre o tabagismo e a presença de ansiedade ou depressão não foi significativa em nosso estudo, assim como no estudo de Akvardar e colaboradores, que também não demonstraram associação entre o consumo de álcool e tabaco e esses distúrbios psiquiátricos (10). Entretanto, um trabalho realizado entre médicos residentes argentinos encontrou, assim como no nosso estudo, uma correlação positiva entre morar sozinho e tabagismo (12), o que poderia levantar a possibilidade de a solidão atuar como potencial fator de risco. Como o diagnóstico de ansiedade e/ou depressão em nosso estudo foi baseado no relato espontâneo do estudante, sem a realização de questionário psiquiátrico específico, é possível que essas patologias tenham sido sub-diagnosticadas.

     Em nosso estudo observou-se uma correlação significativa entre o mau desempenho escolar, mensurado de três formas diferentes (auto-avaliação, história de reprovações no vestibular e em disciplinas do curso) e o tabagismo. Achado semelhante foi relatado por Yorulmaz e colaboradores, que descreveu o sucesso escolar como importante fator de proteção para a aquisição de hábito tabágico entre adolescentes (13).

     A prática desportiva em nosso estudo foi considerada um fator protetor significativo contra o tabagismo, especialmente quando realizada de maneira regular. Achado semelhante foi relatado por Bergamaschi e colaboradores, que encontraram uma prevalência significativamente maior de fumantes entre os estudantes que não praticam esportes (40,1%) em relação aos que praticam (33,5%) (14). Outro estudo, de Donato e colaboradores, demonstrou uma relação inversa entre a freqüência da atividade esportiva e o tabagismo (15). Nerin e colaboradores, em um levantamento realizado entre universitários espanhóis, sugeriram que a prática de exercício físico durante a adolescência pode ajudar a previnir a aquisição do hábito do tabagismo (16).

     Assim, neste estudo pretendemos chamar a atenção para a necessidade de adoção de medidas preventivas entre os acadêmicos de Medicina com o objetivo de tentar reduzir os índices de tabagistas nessa população, concentrando essas ações naqueles grupos considerados de maior risco. O incentivo à prática desportiva, o estímulo ao hábito do estudo e ao desenvolvimento intelectual e o combate simultâneo ao alcoolismo, desde a adolescência, podem ser iniciativas capazes de reverter o quadro atual e atrair todos os estudantes para a batalha contra o fumo.

 

Referências Bibliográficas

1. Mas A, Nerin I, Barrueco M, Cordero J, Guillén D, Jiménez-Ruiz C, et al. Smoking habits among sixth-year medical students in Spain. Arch Bronconeumol 2004; 40: 403-408.

2. Britton J. Tobacco: the epidemic we could avoid. Thorax 1997; 52: 1021-1022.

3. Richmond R. Teaching medical students about tobacco. Thorax 1999; 54: 70-78.

4. Rosemberg J, Perin S. Tabagismo entre estudantes da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba. Tabagismo nos acadêmicos de medicina e nos médicos. J Pneumol 1990; 16: 13-22.

5. Menezes A, Palma E, Holthausen R, Oliveira R, Oliveira PS, Devens E, et al. Evolução temporal do tabagismo em estudantes de medicina, 1986, 1991, 1996. Rev Saúde Pública 2001; 35: 165-169.

6. Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Tabagismo no Brasil. Disponível na URL: http://www.inca.gov.br/tabagismo

7. Patkar AA, Hill K, Batra V, Vergare MJ, Leone FT. A comparison of smoking habits among medical and nursing students. Chest 2003; 124: 1415-1420.

8. Zhu T, Feng B, Wong S, Choi W, Zhu SH. A comparison of smoking behaviors among medical and other college students in China. Health Promot Int 2004; 19: 189-196.

9. Rosselli D, Rey O, Calderon C, Rodriguez MN. Smoking in Colombian medical schools: the hidden curriculum. Prev Med 2001; 33: 170-174.

10. Akvardar Y, Demiral Y, Ergor G, Ergor A. Substance use among medical students and physicians in a medical school in Turkey. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol 2004; 39: 502-506.

11. Riala K, Hakko H, Isohanni M, Jarvelin MR, Rasanen P. Teenage smoking and substance use as predictors of severe alcohol problems in late adolescence and in young adulthood. J Adolesc Health 2004; 35: 245-254.

12. Ferrero F, Castanos C, Duran P, Blengini MT. Prevalence of tobacco use among pediatric residents in Argentina. Rev Panam Salud Publica 2004; 15: 395-399.

13. Yorulmaz F, Akturk Z, Dagdeviren N, Dalkilic A. Smoking among adolescents: relation to school success, socioeconomic status nutrition and self-esteem. Swiss Med Wkly 2002; 132: 449-454.

14. Bergamaschi A, Morri M, Resi D, Zanetti F, Stampi S. Tobacco consumption and sports participation: a survey among university students in northern Italy. Ann Ig 2002; 14: 435-442.

15. Donato F, Assanelli D, Chiesa R, Poeta ML, Tomasoni V, Turla C. Cigarette smoking and sports participation in adolescents: a cross-sectional survey among high school students in Italy. Subst Use Misuse 1997; 32: 1555-1572.

             16. Nerin I, Crucelaegui A, Novella P, Ramon y Cajal P, Sobradiel N, et al. A survey on the relationship between tobacco use and 

            physical exercise among university students. Arch Bronconeumol 2004; 40: 5-9.

 
 
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Eduardo Walker Zettler – Professor Adjunto do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). Doutor em Pneumologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Lisia Martins Nudelmann – Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Daniel Pietko da Cunha – Acadêmico do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Cláudia Hilgert – Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Melissa Dias Mattos – Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Margit Scholl – Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Fernanda Villa Verde – Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Thais Lunardi Nader – Acadêmica do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Canoas – RS.

* Endereço para correspondência:

Dr. Eduardo Walker Zettler

Av. Ipiranga, no 6690 – conjunto 501

90610-000 – Porto Alegre, RS – Brasil

: ewzettler@terra.com.br

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
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