a Grécia há uma
montanha chamada Parnaso, a 160 km de Atenas, situada no golfo de Corinto e
consagrada às musas e a Apolo. Aí se encontra Delfos, antiga cidade grega,
cujas ruínas estão bem conservadas. Nessa cidade há um templo dedicado ao
deus Apolo. Dentro desse templo havia o Oráculo, que durante cerca de 2.000
anos foi prestigiado como um lugar sagrado onde o deus, através de suas
sacerdotisas, chamadas pitonisas, exercia o dom da profecia. Aí acorriam
reis, generais e cidadãos comuns, todos querendo saber do futuro.
Muitos escritores escreveram
sobre o Oráculo. Um deles foi Plutarco, escritor grego e sacerdote do templo
de Apolo, que deixou detalhada narrativa. As pitonisas eram mulheres
selecionadas na cidade e faziam uma preparação intensiva. No momento do
culto elas entravam numa câmara pequena sob o templo e sentavam no trípode,
banco de três pernas, situado sobre uma fenda nas rochas, donde emanava um
gás (pneuma) de aroma doce, que induzia um estado de transe. Nesse estado
elas respondiam às perguntas dos visitantes e profetizavam. Às vezes as
respostas eram sem nexo e enigmáticas. Daí o termo linguagem sibilina,
por causa de Sibila, famosa pitonisa. Nesses casos os sacerdotes do templo
interpretavam as mensagens.
Durante muitos séculos não houve
dúvida que aquela era a mensagem de Apolo, prevendo o futuro. Entretanto
Adolphe Oppé, cerca de 1900, questionou esse dogma, após visita às
escavações que os franceses tinham feito no templo de Apolo. Ele não
encontrou fendas nem saída de gazes e afirmou também que nenhum gás natural
seria capaz de provocar um estado de "possessão espiritual". Em 1950 a
teoria de Oppé ganhou um novo defensor. O arqueologista Pierre Amandry
afirmou que gazes vulcânicos não poderiam ter aparecido em Delfos porque
essa região não era vulcânica. Isso encerrou a polêmica na época e as
referências sobre pitonisas e oráculo de Apolo passaram a ser consideradas
apenas lendas da mitologia. Em 1980 o quadro mudou de novo. Num estudo
geológico patrocinado pelas Nações Unidas, De Boer descobriu uma falha
vulcânica que se origina na encosta sul do monte Parnaso e passa sob o
santuário. Em 1996 De Bôer e Hale descobriram uma segunda falha vulcânica
que cruza com a primeira sob o santuário. Chanton, um químico, analisou a
água e encontrou vestígios de metano, etano e etileno. Este último tem um
cheiro doce, lembrando a descrição de Plutarco. Spiller, um toxicologista,
foi chamado para integrar o time. Sua credencial era a experiência no
tratamento de usuários de drogas que cheiram cola ou thinner,
substâncias que contêm hidrocarbonetos e são alucinógenas. Esse autor
estudou o etileno, ou eteno, que é um gás incolor com cheiro agradável e que
havia sido usado por Isabella Herb em suas experiências pioneiras para
induzir a anestesia geral.
Assim a Ciência
provou, passo a passo, que realmente fatos extraordinários ocorreram em
Delfos. Não por intervenção divina, mas por ação de substâncias
alucinógenas, cuja ação é hoje bem conhecida.
O prestígio do Oráculo de Delfos
decresceu com o progresso do cristianismo. O encerramento de suas atividades
ocorreu no ano de 385 por ordem do imperador Teodósio.
Carlos A. Vargas Souto