Introdução
Recentes avanços e um
conhecimento mais amplo sobre tratamento e prevenção da doença arterial
coronariana (DAC) permitiram uma redução da mortalidade, considerada ainda
insatisfatória, pois, em alguns países, desde 1975, atinge 24 a 28%,
apresentando um maior declínio a partir de 1990 (1,2). Aproximadamente 45%
dessa redução é atribuída a terapêuticas médicas para doença coronariana; os
restantes 55% são atribuídos à redução de fatores de risco (FR),
particularmente no que se refere ao declínio do tabagismo e ao tratamento da
hipertensão (3,4).
O impacto econômico causado pela
doença arterial coronariana (DAC) e a carência de um programa efetivo, na
prevenção dos fatores de risco (FR) para essa doença, têm levado estudiosos
mundiais, freqüentemente, a revisarem as diretrizes até então adotadas
(5,6).
Historicamente, as primeiras
diretrizes sobre prevenção de DAC, elaboradas pela European Society of
Cardiology (ESC), em 1994, e pela American Heart Association (AHA),
em 1995, comprovaram a preocupação e a importância da prevenção na redução
dos FR para DAC (5,6).
Em 2001, a American Heart Association
(AHA) e o American College of Cardiology (ACC) revisaram e atualizaram as
diretrizes para a prevenção ao ataque cardíaco e morte em pacientes com DAC,
com o objetivo de elevar o padrão da cardiologia preventiva (7).
As orientações na prevenção de
novos eventos, relacionadas a este estudo, definem: quanto ao tabagismo,
parar de fumar; quanto à obesidade, perda de peso atingindo o IMC entre
18,5-24,9 kg/m2; quanto à hipertensão, manter o controle da pressão arterial
em <140/90 mmHg, se insuficiência cardíaca, ou insuficiência renal, <130/85
mmHg; se diabetes melito, <130/80 mmHg.
Historicamente, a epidemia das doenças
cardiovasculares inicia atingindo as classes sociais mais elevadas. A
explicação para isso é que, devido à sua condição social, são as primeiras a
trocarem hábitos de baixo risco por aqueles de alto risco, como dietas ricas
em gordura e calorias, sedentarismo e tabagismo. A história, no entanto,
mostrou, também, que são esses mesmos indivíduos os primeiros a modificarem
os hábitos de vida quando orientados para a prevenção das doenças
cardiovasculares. Então, a partir do momento em que as classes mais
favorecidas adquirem hábitos mais saudáveis, o inverso começa a ocorrer em
classes menos favorecidas. Essa inversão é decorrente de fortes pressões
exercidas pelas grandes indústrias, no sentido de estimular esses grupos a
utilizarem maior quantidade de produtos insalubres, como, por exemplo,
cigarros e gorduras saturadas (8).
O Euraspire I (European Action or Secondary
Prevention by Intervention to Reduce Events) foi um estudo epidemiológico
desenvolvido em 1994, após as recomendações da European Society of
Cardiology, que mostrava a alta prevalência de FR modificáveis.
Após as novas recomendações da
European Society of Cardiology, um novo levantamento foi efetuado (Euraspire
II). Este estudo indicou que o potencial para redução de risco, mostrado no
Euraspire I, frustrou as expectativas.
Comparativamente, a evolução dos FR,
nos dois estudos, demonstrou que o tabagismo, no estudo Euraspire I, que era
de 20,8% passou a 19,4% no Euraspire II. O comportamento da obesidade, que
era de 25,3% no Euraspire I, elevou-se para 32,8% no Eurospire II. E,
finalmente, a hipertensão passou de 55,4% para 53,9% (5,6).
Entende-se a necessidade de ações
agressivas, na tentativa de diminuir estes índices, a serem desenvolvidas
por profissionais da área da saúde, cujos esforços e atividades possam
interferir na redução dos FR, tendo em vista que o potencial de participação
na DAC é determinante.
Na teoria do autocuidado, Orem (9)
descreve a possibilidade de prevenção dos fatores de risco para doenças
através de ações de saúde. Essas ações de saúde são atividades executadas
por indivíduos, os quais são orientados pelo enfermeiro em seu próprio
benefício para manutenção da vida, saúde e bem estar.
Um programa de intervenção de
enfermagem na prevenção e redução dos FR para a DAC, com baixo custo, foi o
objetivo deste estudo, visando analisar o aumento da efetividade e do
benefício na redução dos FR para DAC, através de ações educativas e de
autocuidado.
Métodos
Delineamento/População do Estudo
Trata-se de um ensaio clínico
randomizado, com e sem intervenção de enfermagem, em uma população composta
de pacientes com primeiro infarto sem supra desnível de ST internados no
Centro de Tratamento Intensivo do Instituto de Cardiologia (CTI-IC-FUC), no
período de abril de 2001 a agosto de 2002, perfazendo um total de 74
pacientes.
O primeiro grupo, com um total de 38
pacientes, era constituído por aqueles que receberam um programa de
intervenção de enfermagem (Grupo A); e o segundo, com 36 pacientes, era o
grupo controle (Grupo B), submetido ao método convencional de tratamento.
Seleção dos Pacientes e Critério de Inclusão
Os pacientes selecionados deveriam residir
em Porto Alegre, ou na Grande Porto Alegre, terem sido acometidos por
primeiro infarto sem supra desnível de ST, estarem internados na CTI do
IC/FUC, estarem lúcidos e concordarem em participar do estudo.
Não foram incluídos, neste estudo, pacientes
internados com angina instável, infarto com supradesnível de ST (não Q) ou
outra indicação de internação na Unidade de Tratamento Intensivo
Cardiológica que não fosse, comprovadamente, infarto agudo do miocárdio.
Protocolo do Estudo
Os pacientes incluídos no estudo eram
submetidos ao termo de consentimento livre e esclarecido e, após
confirmação, a um questionário. Para caracterização dos pacientes, esse
questionário era composto por dados de identificação (nome completo, número
do prontuário, idade, sexo, endereço completo, telefone, condições
socioeconômicas, nível de escolaridade, atividade física); dados sobre
presença ou não de FR (obesidade, hipertensão, tabagismo); informações sobre
glicemia e níveis de colesterol. Outros dados, referentes a procedimentos
médicos realizados e terapêutica medicamentosa, foram coletados do
prontuário do paciente.
No item obesidade foi considerado IMC
³ 25,0, se hipertensão diastólica ³ 90 e
sistólica ³ 140. No tabagismo,
se era fumante, independente do número de cigarros fumados.
Dos pacientes elegíveis e convidados a
aderir ao programa, apenas dois se negaram; os demais foram randomizados. Os
pacientes randomizados para o grupo controle realizaram apenas a entrevista
inicial e uma avaliação aos seis meses, através dos dados registrados em
prontuário. Os pacientes alocados para o grupo da intervenção eram visitados
mais uma vez, enquanto internados no Centro de Tratamento Intensivo (CTI).
O segundo contato com o paciente
ocorria após a alta do CTI e a transferência à Unidade de Internação
Clínica.
Na Unidade de Internação Clínica, o
enfermeiro estimulava os pacientes a se manifestarem quanto à dificuldade de
abandonar os FR aos quais estavam expostos. Além disso, orientava e
motivava-os a fazê-lo, implementando um programa orientado em material
educativo sobre ações de saúde.
O terceiro contato ocorria no
respectivo dia da alta hospitalar, momento em que o paciente recebia o
encaminhamento para agendamento da consulta no ambulatório de enfermagem, a
ser realizada em torno de quinze dias.
Os contatos subseqüentes ocorriam no
Ambulatório de Enfermagem para Fatores de Risco, com avaliações em 15, 30,
60, 90 e 180 dias.
Na consulta de enfermagem, o paciente
era pesado, verificados os sinais vitais, questionado sobre a adaptação à
terapêutica medicamentosa e às novas condições ajustadas de vida. Questões
sobre adaptação e condicionamento físico também eram analisadas. O
enfermeiro reforçava as medidas de ações de saúde: quanto aos males do
tabagismo; quanto ao sedentarismo – definindo programa de atividade física;
quanto à definição da dieta, após consulta pelo nutricionista; quanto à
aderência à terapêutica anti-hipertensiva e à modalidade de como adquiri-la
e utilizá-la.
Do total de 74 pacientes selecionados, dois
foram a óbito e houve cinco perdas no acompanhamento. Foram incluídos, na
análise final, portanto, 67 pacientes.
Análise Estatística
Os dados foram atualizados em banco de
dados do programa EPI INFO, versão 2000, utilizando-se o programa SPSS 8.0
para análise estatística.
As variáveis categóricas são descritas
sob a forma de proporções, e as variáveis contínuas sob a forma de médias e
desvios-padrão ou medianas e intervalos inter quartis.
Os grupos foram comparados na linha de
base e após seis meses de intervenção, em duas análises separadas.
Adicionalmente, calculou-se uma diferença absoluta entre os parâmetros
obtidos no final do estudo e aqueles da linha de base. Para todas essas
comparações, foram utilizados os testes qui quadrado (variáveis categóricas)
e o teste t de Student ou Mann-Whitney (variáveis contínuas) (10),
considerando um alfa crítico de 0,05.
Resultados
A caracterização da amostra
revela que o sexo preponderante foi o masculino (77,6%) e que a média de
idade foi similar entre os grupos: 52,37±7,9 no grupo de intervenção e
56,28±9,0 no grupo controle (Tabela 1).
Tabela 1 -
Característica da amostra segundo os
grupos estudados
Dos 69 pacientes estudados, 55 (82,1%)
pacientes se submeteram ao cateterismo, 25 (45,5%) realizaram ACTP
(Angioplastia Coronariana Transluminal Percutânea) e 18 (32,7%) ACTP com
colocação de STENT. Apenas quatro (6%) pacientes, nesse estudo, foram
submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio. A distribuição de
procedimentos de diagnóstico por cateterismo foi semelhante entre os grupos
(Tabela 1).
Quanto às condições socioeconômicas,
este estudo demonstrou que, no Grupo A, houve uma predominância de pacientes
que percebiam menores salários, tendo sido significativa a diferença entre
os grupos (p< 0,04).
No item escolaridade, os grupos se
mantiveram similares (p< 0,47). O fundamental foi o nível preponderante,
participando com 73,1% da amostra, salientando-se a presença de dois
pacientes (5,4%) analfabetos no Grupo A.
Na atividade física, o sedentarismo
teve predominância em ambos ou grupos, ou seja, para o Grupo A, 26 (70,3%)
e, no Grupo B, 17 (56,7%).
Dos três fatores de risco
observados nos pacientes, a obesidade foi a de maior prevalência no momento
da internação, sendo observada em 46 pacientes (68,7%) da amostra total e
distribuída de forma semelhante entre os dois grupos.
A hipertensão e o tabagismo
apresentaram prevalências semelhantes, entre os grupos, no momento da
internação (29 pacientes, 43,3%). Não houve diferença significativa nos
valores da PA em ambos os grupos no início do estudo. Os dados relacionados
ao IMC foram semelhantes em ambos os grupos (Tabela 2).
Tabela
2 - Distribuição
de fatores de risco entre os grupos
Após seis meses de acompanhamento, no
grupo de intervenção de enfermagem, foi observada uma diferença
significativa no número de FR entre os grupos (Tabela 2). A Figura 1
descreve as diferenças entre o momento da intervenção e o final do
acompanhamento entre os grupos. Observa-se que houve diferenças
significativas para a redução do número total de FR e para o tabagismo
(Figura 1).
Figura 1 -
Demonstração das ações de enfermagem após
seis meses da internação - Percentual de Redução em Cada Grupo. Grupo A –
Fatores com intervenção. Grupo B – Fatores sem intervenção.
HAS: hipertensão
arterial sistêmica; PAS: pressão arterial sistólica; PAD:
pressão arterial diastólica; IMC: índice de massa corporal.
No gráfico a seguir, estão
demonstrados os valores percentuais atingidos quanto à eficiência das
orientações da enfermagem. Note-se a evolução substancial no que tange à
diminuição do número de fatores de risco e, principalmente, quanto ao
tabagismo. Os demais fatores de risco acompanhados também demonstraram
diminuição, se comparados entre os dois grupos, embora percentualmente
menores.
No presente estudo, procurou-se
mensurar o custo por tempo dedicado pelo enfermeiro às orientações na
redução dos FR.
O tempo utilizado para orientar os pacientes
que se submeteram às intervenções de enfermagem variou de 80 a 240 minutos,
perfazendo um total de 204.3 minutos/paciente, em seis meses. O custo da
hora do enfermeiro é de R$ 15,00, o que equivale ao custo total por
paciente, durante este período, de R$ 51,08.
Pode-se deduzir que o custo é
irrisório, tendo em vista que o benefício alcançado na redução do número de
FR foi significativo.
Discussão
No presente estudo, o Grupo A
apresentava uma proporção maior de fumantes no que concerne à caracterização
da amostra .
Quanto à presença dos fatores de risco para DAC, percebe-se que, no grupo
submetido ao programa de intervenção de enfermagem, houve, ao final de seis
meses, redução no número total de fatores de risco.
De acordo com Orem (9), o atendimento
de enfermagem promove o sistema de apoio-educação. Nele, o paciente
consegue, sob orientação, executar medidas de autocuidado terapêutico, de
ordem interna ou externa, embora não consiga, inicialmente, realizá-las sem
auxílio. Tal situação é também conhecida como um sistema
auxiliar-desenvolvimental. Nesse sistema, o paciente está desenvolvendo
atividades relacionadas com seu autocuidado. As "exigências do paciente
quanto ao autocuidado resumem-se à tomada de decisões, ao controle do
comportamento e à aquisição de conhecimentos e habilidades. O papel do
enfermeiro é, assim, o de promover o paciente em um agente de autocuidado".
De acordo com essa teoria, a
enfermagem tem como especial preocupação a necessidade de ações de
autocuidado do indivíduo e o oferecimento e controle dessas, numa base
contínua para sustentar a vida e a saúde, recuperar-se da doença ou
ferimento e haver a compatibilização com seus efeitos. Os princípios
norteadores da teoria de Orem possibilitam resgatar ações de melhoria na
saúde, o que foi possível demonstrar pela redução dos FR nesta amostra.
Quanto à análise do Índice de Massa Corporal
(IMC), neste estudo, ambos os grupos apresentavam valores compatíveis de
risco para DAC representado pelo índice ³25 kg/m 2 em
ambos os grupos. O estudo NHANES (11) revelou que 40 a 50% dos adultos que
apresentavam IMC superior a 25 kg/m2 e que 20 a 25%
tinham sobrepeso. Apesar de estudos relatarem o ganho de peso de 1 kg/ano
após a cessação completa no hábito de fumar, o aumento de peso, no nosso
estudo, não foi observado.
A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)
é considerada um dos principais fatores de risco da morbidade e mortalidade
cardiovascular (12). Estima-se que, apesar da prescrição de drogas
anti-hipertensivas, apenas 27% dos hipertensos têm a pressão arterial
adequadamente controlada. O tratamento farmacológico anti-hipertensivo é uma
medida eficaz de prevenção primária, capaz de diminuir em 38% a ocorrência
de AVE (13). A importância do esclarecimento sobre HAS, além dos meios para
aquisição, utilização e efeitos colaterais causados pelas drogas
anti-hipertensivas, foi o foco no programa de saúde empregado pelo
enfermeiro.
Um outro aspecto importante a ser
considerado é a prevalência de 39,2% do tabagismo como fator de risco para
DAC. A dificuldade para abandonar o fumo, assim como a propensão dos
ex-fumantes para a recaída, têm grande influência do reforço prazeroso da
ingestão da nicotina (14).
Calcula-se que há 80% de casos de
recaídas nos indivíduos que tentam parar de fumar já na primeira semana
(15). Nos Estados Unidos, tem sido 1% o número de pessoas que deixam,
voluntariamente, o hábito de fumar (16). Neste estudo, os pacientes que
abandonaram o cigarro fizeram-no por decisão própria, após terem sido
esclarecidos, através do programa de intervenção de enfermagem, sem uso de
medicação complementar. Tal iniciativa
pode ser atribuída à exigência do paciente quanto ao
autocuidado10 que se resumia à tomada de decisões,
controle de comportamento e aquisição de conhecimentos sobre malefícios do
tabagismo e habilidades para evitar a compulsão no ato de fumar. O papel do
enfermeiro é, assim, o de promover o paciente a um agente de autocuidado.
O custo médio na prevenção dos
fatores de risco, utilizado no programa de enfermagem, foi baixo, com
aplicação simples, considerando o custo de novos eventos. Tendo em vista que
a receita dispensada aos procedimentos e ao tratamento medicamentoso
utilizado no advento de novos eventos isquêmicos é de alta complexidade, a
prevenção, comprovadamente, tem um custo menor.
Algumas limitações neste estudo
podem ter interferido nos resultados. As diferenças de renda e idade podem
ter contribuído para os melhores resultados no grupo da intervenção. Novos
estudos, com maior tamanho – amostral –, são necessários para esclarecer
mais profundamente esta questão.
A prevenção estimulada em novos
projetos, tanto em nível primário como secundário, tem um largo caminho a
percorrer, uma vez que, entre escolares e adolescentes, a instalação desta
doença tem ocorrido com freqüência em população cada vez mais jovem.
Conclusão
Os resultados deste estudo
mostram que a redução dos fatores de risco para DAC são eficazes quando há
uma ação conjunta de profissionais (médico, nutricionista, enfermeiro,
psicólogo, fisioterapeuta) atuando tanto na terapêutica farmacológica quanto
nas medidas preventivas. A intervenção de enfermagem através da educação em
saúde foi de metodologia simples, com utilização de material educativo e
elucidativo de boa resolutividade e baixo custo.
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