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Revista da AMRIGS
Volume 49  No 3: 137 - 216 / Julho - Setembro 2005
BL ISSN 0102 - 2105

ARTIGO ORIGINAL

 

Associação entre idade ao diagnóstico de diabetes do tipo 2 e o uso de insulina

Daniel Panarotto, Alex Roque Rizzi, Carina Tessari, Karine Paula Brambatti, Marina Spadari Artico, Andrea Severa

 

 

Introdução

     O DM tipo 2 é considerado atualmente uma pandemia (1). Estima-se que 5% da população apresente diabetes e que para cada paciente diabético diagnosticado haja um que não sabe apresentar a doença, o que elevaria a prevalência real para 10% (2).

    No Brasil, a prevalência de DM tipo 2 é comparada a de países desenvolvidos. Há uma semelhança entre homens (7,5%) e mulheres (7,6%), e é evidente um aumento na prevalência de 2,7% em grupos de paciente de 30-39 anos para 17,4% no grupo de pacientes de 60-69 anos de idade. O tratamento mais comumente utilizado são os hipoglicemiantes orais (40,7%). A insulina é utilizada por 7,9% dos pacientes com DM tipo 2 (3).

    Os pacientes com DM tipo 2 conservam alguma capacidade de secreção endógena da insulina. Entretanto, os níveis do hormônio, mesmo estando freqüentemente elevados, não são capazes de sobrepujar a resistência à insulina concomitante, o que resulta em hiperglicemia (4).

    Tipicamente, o DM tipo 2 surge depois dos quarenta anos de idade, possui alta taxa de penetrância genética não relacionada ao HLA e está associada com a obesidade. A maioria dos pacientes são tratados com dieta, exercícios e medicações orais, mas aqueles que permanecem com valores de hemoglobina glicada maior de 1% acima do limite superior do método devem iniciar insulina para compensação da doença (5,6).

    Em efeito, alguns estudos demonstram que a diminuição da secreção de insulina de certos pacientes com DM tipo 2 é a anormalidade fisiopatológica principal (7,8). Por exemplo, um estudo realizado em pacientes DM tipo 2 não obesos revela que mutações do gene que codifica para sintaxina-1 (uma proteína tipo receptor SNAP implicada na secreção de insulina) podem levar à exaustão precoce das células beta (7). Como conseqüência, estes pacientes necessitariam de introdução iminente de insulina para compensar o quadro de DM.

    Além disso, um estudo realizado em pacientes caucasianos demonstrou que uma possível destruição autoimune de células beta de pacientes DM tipo 2 (9). A reação estaria associada com a presença de anticorpos anti-CD-38 e anti-GAD. Sabe-se que a presença destes anticorpos está associada com o uso subseqüente de insulina nos pacientes com DM tipo 2 (10). Porém, neste estudo, não foi detectada associação entre a presença destes anticorpos e idade ao diagnóstico de DM tipo 2 (9).

   Outro estudo, realizado entre os índios Pima, mostrou que indivíduos cujas mães desenvolveram diabetes antes dos 35 anos têm uma secreção de insulina diminuída a uma carga glicêmica aguda. Estes resultados sugerem que pessoas com desenvolvimento precoce de DM tipo 2 apresentam prole com anormalidades de secreção de insulina. Teoricamente, estes indivíduos, ao tornarem-se diabéticos, teriam maior probabilidade de vir a necessitar de insulina precocemente (11).

    Estes estudos mostram que a entidade clínica normalmente designada como DM tipo 2 é, na verdade, uma doença heterogênea. Alguns destes pacientes parecem ter como anormalidade fisiopatológica fundamental uma diminuição da secreção de insulina.

   Independente do mecanismo que leva a este fenômeno, a característica comum entre estes pacientes é a necessidade de uso de insulina em um momento precoce da evolução do DM tipo 2. Portanto, faz sentido acreditar que pacientes que desenvolvessem DM tipo 2 em uma menor idade tivessem maior probabilidade de usarem insulina. A pronta identificação destes indivíduos torna-se importante já que a instituição do tratamento mais apropriado evitaria que permanecessem longos períodos em hiperglicemia, minimizando assim o risco de complicações crônicas do diabetes (6,12). Para explorar esta hipótese, desenvolvemos um estudo transversal cujo objetivo foi correlacionar a idade ao diagnóstico da DM tipo 2 com o uso de insulina.

 

Pacientes e Métodos

     Foram selecionados todos os pacientes com DM tipo 2, com idade superior a trinta anos, que consultaram no ambulatório de diabetes, no Ambulatório Central da Universidade de Caxias do Sul, no período de setembro de 2002 a agosto de 2003. Além destes, também foram selecionados os pacientes que procuraram atendimento na área de Endocrinologia, em ações comunitárias realizadas em dois diferentes bairros de Caxias do Sul, durante o ano de 2003.

   As ações comunitárias fazem parte de um projeto interdisciplinar desenvolvido pela Universidade de Caxias do Sul para levar às comunidades dos bairros de Caxias do Sul e dos municípios vizinhos múltiplas ações e serviços nas áreas de medicina, enfermagem, serviço social, biologia, direito, educação física e educação artística. Participam destes eventos alunos e professores ligados às diferentes áreas de conhecimento e cursos, assim como funcionários da instituição, todos de forma voluntária.

     Foram excluídos do estudo pacientes incapazes de consentir por motivos psiquiátricos (exceto depressão), por AVC ou por Mal de Parkinson.

    Após obter o consentimento esclarecido, os investigadores coletaram uma série de dados através de um protocolo padronizado, tais como idade ao diagnóstico de diabetes, sexo, terapêutica atual, peso, altura, circunferência abdominal, circunferência do quadril e presença de outras patologias concomitantes como hipertensão e dislipidemia.

    O programa SPSS® (SPSS for Windows 11.5) foi utilizado para as análises. As variáveis categóricas foram apresentadas como proporções. As variáveis contínuas foram apresentadas como média e desvio padrão. Estas foram submetidas ao teste de Kolmogorov-Smirnov com a finalidade de verificação de normalidade. Os dados que foram considerados normalmente distribuídos foram comparados através do teste t de Student, enquanto que para a comparação dos não normalmente distribuídos foi utilizado o teste U de Mann-Whitney. Foi realizada uma análise de regressão logística tendo como variável dependente o uso de insulina e outras variáveis de relevância como tempo de diagnóstico, idade ao diagnóstico, peso, IMC e relação cintura-quadril como variáveis independentes.

    O estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa, e somente iniciado após a sua aprovação. Os aspectos éticos fundamentais, tais como o princípio de justiça, de voluntariedade e de beneficiência, foram respeitados no presente estudo.

 

Resultados

 

     Foram avaliados 90 pacientes com DM tipo 2, 55 (61,1%) mulheres e 35 (38,9%) homens. Destes, 39 (43,3%) não usavam antidiabéticos orais, 40 (44,4%) faziam uso de um e 11 (12,2%) usavam combinação de dois medicamentos.

   Dezesseis (17,7%) voluntários usavam insulina. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os usuários e não-usuários de insulina quanto à idade, idade ao diagnóstico, pressão arterial sistólica, pressão arterial diastólica, colesterol total, colesterol HDL, colesterol LDL, circunferência abdominal e relação cintura-quadril (Tabela 1). A duração do DM foi maior nos usuários de insulina (9,6 ± 9,2 vs 6,0 ± 6,1 anos; p =0,043) (Tabela 1). Os pacientes que usavam insulina apresentaram peso corporal menor do que os que não usavam (Tabela 1).


Tabela 1 - Comparação das variáveis do estudo entre usuários e não-usuários de insulina


     Para avaliar a inter-relação entre as diversas variáveis do estudo, construímos um modelo de regressão logística com o uso de insulina como variável dependente e a idade ao diagnóstico de DM, a duração do DM, o IMC e o ICQ como variáveis independentes. Neste modelo, apenas a duração do DM foi determinante do uso de insulina (p = 0,02).

    Também realizamos uma análise destinada a verificar se os pacientes com diagnóstico de DM tipo 2 antes dos 45 anos apresentavam características distintas dos diabéticos diagnosticados após aquela idade. Observamos que os pacientes com diagnóstico antes dos 45 anos eram mais obesos (32,4 ± 7,0 vs 29,66 ± 4,2; p = 0,04). Este mesmo grupo apresentou uma tendência a ter maior circunferência abdominal (107,5 ± 17,2 vs 101,75 ±9,6; p = 0,10). Outras variáveis não se mostraram diferentes entre os dois grupos.

 

Discussão

     Este trabalho teve o objetivo de verificar se idade ao diagnóstico do DM tipo 2 predispunha ao uso de insulina.

   Nossa amostra foi retirada de duas populações. A primeira composta de pacientes que consultam regularmente no ambulatório de diabetes da Universidade de Caxias do Sul. A segunda proveniente de pacientes que compareceram a duas ações comunitárias patrocinadas pela mesma Universidade. Quanto à distribuição por sexo, a maioria dos pacientes da nossa amostra foi do sexo feminino. Acreditamos que esta diferença seja atribuída ao fato de que as mulheres costumam buscar atenção médica com maior freqüência que homens já que outros estudos, incluindo um estudo nacional, mostraram que a prevalência de diabetes é semelhante em homens e mulheres (3,13).

    Encontramos uma prevalência de uso de insulina em nossa amostra de 17,7%, a qual foi superior à média nacional de 8% (3). Acreditamos que esta diferença seja atribuída ao fato de que nossos pacientes, em sua maioria, são atendidos em um ambulatório terciário, composto por uma equipe interdisciplinar, que tem como objetivo atingir as metas ideais de controle glicêmico (hemoglobina glicada < 7%). Para que estes objetivos sejam atingidos, faz-se necessário um tratamento mais agressivo, o que inclui o uso mais freqüente de insulina.

     Nosso estudo não foi capaz de demonstrar diferença estatisticamente significativa na idade ao diagnóstico do DM entre usuários e não-usuários de insulina. Nossa hipótese pressupunha que indivíduos com desenvolvimento de diabetes em idades menos avançadas teriam, com maior freqüência, uma deficiência de produção de insulina, possivelmente por uma agressão autoimune das células beta. Dados provenientes da coorte do United Kingdon Prospective Diabetes Study (UKPDS) de fato sugerem que pacientes diagnosticados como com DM tipo 2 mas que apresentam anticorpos anti-ilhotas e anti-GAD têm maior chance de virem a necessitar de insulina no seguimento (10).

    Outro estudo também mostrou que a idade ao diagnóstico do diabetes não foi diferente em pacientes que apresentavam uma alteração autoimune, o que levaria à diminuição de secreção de insulina pelas células beta (9). Este estudo sugere que não há relação entre a idade ao diagnóstico do DM tipo 2 e características biológicas que predispõe à deficiência de secreção de insulina pelas células beta e, conseqüentemente, ao uso de insulina.

    Por outro lado, alguns estudos sugerem que pacientes jovens com DM tipo 2 apresentam obesidade e resistência à insulina como principal anormalidade metabólica. Como exemplo, um estudo realizado nos Estados Unidos, onde a população é mais obesa que no Brasil, mostrou que pacientes com diagnóstico de DM tipo 2 antes dos 45 anos apresentam algumas características distintas, quando comparados com diabéticos diagnosticados após aquela idade (14). Mais especificamente, apresentam maior IMC, pressão diastólica e colesterol total, assim como menor colesterol HDL que seus pares diagnosticados após os 45 anos.

    A fim de explorar as características de nossos pacientes com diagnóstico de DM tipo 2 em idade precoce, realizamos uma análise semelhante, dividindo-os entre aqueles com idade ao diagnóstico de DM tipo 2 antes ou depois dos 45 anos. Percebemos que os indivíduos com diagnóstico antes dos 45 anos apresentavam maior IMC e tendência a maior circunferência abdominal que os indivíduos cujo diagnóstico se deu em idade mais avançada, sugerindo que a anormalidade fisiopatológica preponderante nestes pacientes é a resistência à insulina. Estes achados podem explicar porque não encontramos uma correlação entre idade ao diagnóstico e uso de insulina na nossa amostra.

    A presença de resistência à insulina em indivíduos cada vez mais jovens está relacionada com o aumento da prevalência de obesidade infantil. De fato, a prevalência de obesidade infantil vem crescendo em todo o mundo, inclusive no Brasil (15). Em nossa região, realizamos um estudo recente (16), no qual observamos que a prevalência de obesidade infantil é de 7,5% (21,7% quando considerado sobrepeso e obesidade conjuntamente), confirmando dados de outros estudos nacionais (15).

    Por outro lado, não podemos descartar a possibilidade de que exista de fato uma diferença na idade ao diagnóstico entre os usuários e não-usuários de insulina, mas que esta não tenha sido detectada pelo nosso estudo, devido a uma amostra insuficiente.

    Devemos considerar que a coleta da idade ao diagnóstico de diabetes fornecida pelo paciente pode não ter sido fidedigna, já que estima-se que o diabetes esteja presente de 9 a 12 anos antes do diagnóstico clínico (17). No entanto, a diferença entre o início real do DM e o diagnóstico deveria, teoricamente, ser menor em usuários de insulina, pois estes apresentariam falência de células beta mais precoce e portanto sintomatologia antes dos não-usuários. Desta forma não acreditamos que este possível viés possa ter contribuído para os resultados do nosso estudo.

   É sabido que pacientes com resistência à insulina apresentam uma hiperinsulinemia compensatória. No entanto, quando a produção de insulina é insuficiente para sobrepujar a resistência à insulina subjacente há piora progressiva das concentrações plasmáticas de glicose, momento no qual a doença passa a chamar-se diabetes melito (4). Também é conhecido, através de dados do UKPDS, que a hemoglobina glicada dos pacientes com DM tipo 2 tende a aumentar progressivamente, independentemente do tipo de tratamento utilizado (5). Dentro desta evolução natural da doença, espera-se que alguns pacientes necessitem de insulina.

    Neste sentido, poderíamos esperar que quanto maior o tempo decorrido desde o diagnóstico de diabetes maior a probabilidade de uso de insulina. Por isso, a duração do DM é uma variável de confusão importante neste estudo. De acordo com este raciocínio, encontramos uma diferença estatisticamente significativa na duração do DM entre usuários e não-usuários de insulina. Porém, a idade ao diagnóstico de DM tipo 2 não foi associada com o uso de insulina mesmo quando outras variáveis, incluindo a duração do diabetes, o IMC e o ICQ, foram consideradas em um modelo de regressão logística.

    Usuários de insulina apresentaram peso corporal menor que os não-usuários. O uso de insulina traduz uma hipoinsulinemia acentuada devido à falência das células beta, o que provoca maior lipólise, explicando o menor peso nestes pacientes (18).

    Em conclusão nosso estudo mostrou que pacientes usuários de insulina não apresentam idade ao diagnóstico diferente dos não-usuários. Outros estudos, com delineamento prospectivo, são necessários para identificar fatores predisponentes para o uso de insulina em pacientes com DM tipo 2.

 

Referências Bibliográficas

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Daniel Panarotto – Professor da Disciplina de Fisiologia do Curso de Graduação em Medicina da Universidade de Caxias do Sul – RS, Doutor em Ciências Clínicas – Endocrinologia pela Universidade de Sherbrooke – Canadá.

Alex Roque Rizzi – Acadêmico do 10o semestre do Curso de Graduação em Medicina da Universidade de Caxias do Sul.

Carina Tessari – Acadêmico do 10o semestre do Curso de Graduação em Medicina da Universidade de Caxias do Sul.

Karine Paula Brambatti – Acadêmico do 10o semestre do Curso de Graduação em Medicina da Universidade de Caxias do Sul.

Marina Spadari Artico – Acadêmico do 10o semestre do Curso de Graduação em Medicina da Universidade de Caxias do Sul.

Andrea Severa – Médica Residente de Clínica Médica do Hospital Geral de Caxias do Sul.

Departamento de Ciências Biomédicas – Universidade de Caxias do Sul.

* Endereço para correspondência:

Daniel Panarotto

Rua Francisco Getúlio Vargas, 1130

Bloco S Sala 514

95070-560 – Caxias do Sul, RS – Brasil

Tel: (54) 218-2100 / Ramal 2738

: dpanarot@ucs.br


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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