Introdução
O DM tipo 2 é considerado
atualmente uma pandemia (1). Estima-se que 5% da população apresente
diabetes e que para cada paciente diabético diagnosticado haja um que não
sabe apresentar a doença, o que elevaria a prevalência real para 10% (2).
No Brasil, a prevalência de DM tipo 2
é comparada a de países desenvolvidos. Há uma semelhança entre homens (7,5%)
e mulheres (7,6%), e é evidente um aumento na prevalência de 2,7% em grupos
de paciente de 30-39 anos para 17,4% no grupo de pacientes de 60-69 anos de
idade. O tratamento mais comumente utilizado são os hipoglicemiantes orais
(40,7%). A insulina é utilizada por 7,9% dos pacientes com DM tipo 2 (3).
Os pacientes com DM tipo 2 conservam
alguma capacidade de secreção endógena da insulina. Entretanto, os níveis do
hormônio, mesmo estando freqüentemente elevados, não são capazes de
sobrepujar a resistência à insulina concomitante, o que resulta em
hiperglicemia (4).
Tipicamente, o DM tipo 2 surge depois dos quarenta
anos de idade, possui alta taxa de penetrância genética não relacionada ao
HLA e está associada com a obesidade. A maioria dos pacientes são tratados
com dieta, exercícios e medicações orais, mas aqueles que permanecem com
valores de hemoglobina glicada maior de 1% acima do limite superior do
método devem iniciar insulina para compensação da doença (5,6).
Em efeito, alguns estudos demonstram
que a diminuição da secreção de insulina de certos pacientes com DM tipo 2 é
a anormalidade fisiopatológica principal (7,8). Por exemplo, um estudo
realizado em pacientes DM tipo 2 não obesos revela que mutações do gene que
codifica para sintaxina-1 (uma proteína tipo receptor SNAP implicada na
secreção de insulina) podem levar à exaustão precoce das células beta (7).
Como conseqüência, estes pacientes necessitariam de introdução iminente de
insulina para compensar o quadro de DM.
Além disso, um estudo realizado em
pacientes caucasianos demonstrou que uma possível destruição autoimune de
células beta de pacientes DM tipo 2 (9). A reação estaria associada com a
presença de anticorpos anti-CD-38 e anti-GAD. Sabe-se que a presença destes
anticorpos está associada com o uso subseqüente de insulina nos pacientes
com DM tipo 2 (10). Porém, neste estudo, não foi detectada associação entre
a presença destes anticorpos e idade ao diagnóstico de DM tipo 2 (9).
Outro estudo, realizado entre os índios
Pima, mostrou que indivíduos cujas mães desenvolveram diabetes antes dos 35
anos têm uma secreção de insulina diminuída a uma carga glicêmica aguda.
Estes resultados sugerem que pessoas com desenvolvimento precoce de DM tipo
2 apresentam prole com anormalidades de secreção de insulina. Teoricamente,
estes indivíduos, ao tornarem-se diabéticos, teriam maior probabilidade de
vir a necessitar de insulina precocemente (11).
Estes estudos mostram que a entidade
clínica normalmente designada como DM tipo 2 é, na verdade, uma doença
heterogênea. Alguns destes pacientes parecem ter como anormalidade
fisiopatológica fundamental uma diminuição da secreção de insulina.
Independente do mecanismo que leva a este
fenômeno, a característica comum entre estes pacientes é a necessidade de
uso de insulina em um momento precoce da evolução do DM tipo 2. Portanto,
faz sentido acreditar que pacientes que desenvolvessem DM tipo 2 em uma
menor idade tivessem maior probabilidade de usarem insulina. A pronta
identificação destes indivíduos torna-se importante já que a instituição do
tratamento mais apropriado evitaria que permanecessem longos períodos em
hiperglicemia, minimizando assim o risco de complicações crônicas do
diabetes (6,12). Para explorar esta hipótese, desenvolvemos um estudo
transversal cujo objetivo foi correlacionar a idade ao diagnóstico da DM
tipo 2 com o uso de insulina.
Pacientes e Métodos
Foram selecionados todos os
pacientes com DM tipo 2, com idade superior a trinta anos, que consultaram
no ambulatório de diabetes, no Ambulatório Central da Universidade de Caxias
do Sul, no período de setembro de 2002 a agosto de 2003. Além destes, também
foram selecionados os pacientes que procuraram atendimento na área de
Endocrinologia, em ações comunitárias realizadas em dois diferentes bairros
de Caxias do Sul, durante o ano de 2003.
As ações comunitárias fazem parte de um
projeto interdisciplinar desenvolvido pela Universidade de Caxias do Sul
para levar às comunidades dos bairros de Caxias do Sul e dos municípios
vizinhos múltiplas ações e serviços nas áreas de medicina, enfermagem,
serviço social, biologia, direito, educação física e educação artística.
Participam destes eventos alunos e professores ligados às diferentes áreas
de conhecimento e cursos, assim como funcionários da instituição, todos de
forma voluntária.
Foram excluídos do estudo
pacientes incapazes de consentir por motivos psiquiátricos (exceto
depressão), por AVC ou por Mal de Parkinson.
Após obter o consentimento
esclarecido, os investigadores coletaram uma série de dados através de um
protocolo padronizado, tais como idade ao diagnóstico de diabetes, sexo,
terapêutica atual, peso, altura, circunferência abdominal, circunferência do
quadril e presença de outras patologias concomitantes como hipertensão e
dislipidemia.
O programa SPSS® (SPSS for Windows
11.5) foi utilizado para as análises. As variáveis categóricas foram
apresentadas como proporções. As variáveis contínuas foram apresentadas como
média e desvio padrão. Estas foram submetidas ao teste de Kolmogorov-Smirnov
com a finalidade de verificação de normalidade. Os dados que foram
considerados normalmente distribuídos foram comparados através do teste t
de Student, enquanto que para a comparação dos não normalmente
distribuídos foi utilizado o teste U de Mann-Whitney. Foi realizada uma
análise de regressão logística tendo como variável dependente o uso de
insulina e outras variáveis de relevância como tempo de diagnóstico, idade
ao diagnóstico, peso, IMC e relação cintura-quadril como variáveis
independentes.
O estudo foi submetido ao Comitê de
Ética em Pesquisa, e somente iniciado após a sua aprovação. Os aspectos
éticos fundamentais, tais como o princípio de justiça, de voluntariedade e
de beneficiência, foram respeitados no presente estudo.
Resultados
Foram avaliados 90 pacientes com
DM tipo 2, 55 (61,1%) mulheres e 35 (38,9%) homens. Destes, 39 (43,3%) não
usavam antidiabéticos orais, 40 (44,4%) faziam uso de um e 11 (12,2%) usavam
combinação de dois medicamentos.
Dezesseis (17,7%) voluntários usavam
insulina. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os
usuários e não-usuários de insulina quanto à idade, idade ao diagnóstico,
pressão arterial sistólica, pressão arterial diastólica, colesterol total,
colesterol HDL, colesterol LDL, circunferência abdominal e relação
cintura-quadril (Tabela 1). A duração do DM foi maior nos usuários de
insulina (9,6 ± 9,2 vs 6,0
± 6,1 anos; p =0,043) (Tabela 1). Os
pacientes que usavam insulina apresentaram peso corporal menor do que os que
não usavam (Tabela 1).
Tabela 1 -
Comparação das variáveis do estudo entre
usuários e não-usuários de insulina
Para avaliar a inter-relação
entre as diversas variáveis do estudo, construímos um modelo de regressão
logística com o uso de insulina como variável dependente e a idade ao
diagnóstico de DM, a duração do DM, o IMC e o ICQ como variáveis
independentes. Neste modelo, apenas a duração do DM foi determinante do uso
de insulina (p = 0,02).
Também realizamos uma análise
destinada a verificar se os pacientes com diagnóstico de DM tipo 2 antes dos
45 anos apresentavam características distintas dos diabéticos diagnosticados
após aquela idade. Observamos que os pacientes com diagnóstico antes dos 45
anos eram mais obesos (32,4 ± 7,0 vs
29,66 ± 4,2; p = 0,04). Este mesmo grupo
apresentou uma tendência a ter maior circunferência abdominal (107,5
± 17,2 vs 101,75
±9,6; p = 0,10). Outras variáveis não se
mostraram diferentes entre os dois grupos.
Discussão
Este trabalho teve o objetivo de
verificar se idade ao diagnóstico do DM tipo 2 predispunha ao uso de
insulina.
Nossa amostra foi retirada de duas
populações. A primeira composta de pacientes que consultam regularmente no
ambulatório de diabetes da Universidade de Caxias do Sul. A segunda
proveniente de pacientes que compareceram a duas ações comunitárias
patrocinadas pela mesma Universidade. Quanto à distribuição por sexo, a
maioria dos pacientes da nossa amostra foi do sexo feminino. Acreditamos que
esta diferença seja atribuída ao fato de que as mulheres costumam buscar
atenção médica com maior freqüência que homens já que outros estudos,
incluindo um estudo nacional, mostraram que a prevalência de diabetes é
semelhante em homens e mulheres (3,13).
Encontramos uma prevalência de uso de
insulina em nossa amostra de 17,7%, a qual foi superior à média nacional de
8% (3). Acreditamos que esta diferença seja atribuída ao fato de que nossos
pacientes, em sua maioria, são atendidos em um ambulatório terciário,
composto por uma equipe interdisciplinar, que tem como objetivo atingir as
metas ideais de controle glicêmico (hemoglobina glicada < 7%). Para que
estes objetivos sejam atingidos, faz-se necessário um tratamento mais
agressivo, o que inclui o uso mais freqüente de insulina.
Nosso estudo não foi capaz de
demonstrar diferença estatisticamente significativa na idade ao diagnóstico
do DM entre usuários e não-usuários de insulina. Nossa hipótese pressupunha
que indivíduos com desenvolvimento de diabetes em idades menos avançadas
teriam, com maior freqüência, uma deficiência de produção de insulina,
possivelmente por uma agressão autoimune das células beta. Dados
provenientes da coorte do United Kingdon Prospective Diabetes Study
(UKPDS) de fato sugerem que pacientes diagnosticados como com DM tipo 2 mas
que apresentam anticorpos anti-ilhotas e anti-GAD têm maior chance de virem
a necessitar de insulina no seguimento (10).
Outro estudo também mostrou que a
idade ao diagnóstico do diabetes não foi diferente em pacientes que
apresentavam uma alteração autoimune, o que levaria à diminuição de secreção
de insulina pelas células beta (9). Este estudo sugere que não há relação
entre a idade ao diagnóstico do DM tipo 2 e características biológicas que
predispõe à deficiência de secreção de insulina pelas células beta e,
conseqüentemente, ao uso de insulina.
Por outro lado, alguns estudos sugerem que pacientes
jovens com DM tipo 2 apresentam obesidade e resistência à insulina como
principal anormalidade metabólica. Como exemplo, um estudo realizado nos
Estados Unidos, onde a população é mais obesa que no Brasil, mostrou que
pacientes com diagnóstico de DM tipo 2 antes dos 45 anos apresentam algumas
características distintas, quando comparados com diabéticos diagnosticados
após aquela idade (14). Mais especificamente, apresentam maior IMC, pressão
diastólica e colesterol total, assim como menor colesterol HDL que seus
pares diagnosticados após os 45 anos.
A fim de explorar as características
de nossos pacientes com diagnóstico de DM tipo 2 em idade precoce,
realizamos uma análise semelhante, dividindo-os entre aqueles com idade ao
diagnóstico de DM tipo 2 antes ou depois dos 45 anos. Percebemos que os
indivíduos com diagnóstico antes dos 45 anos apresentavam maior IMC e
tendência a maior circunferência abdominal que os indivíduos cujo
diagnóstico se deu em idade mais avançada, sugerindo que a anormalidade
fisiopatológica preponderante nestes pacientes é a resistência à insulina.
Estes achados podem explicar porque não encontramos uma correlação entre
idade ao diagnóstico e uso de insulina na nossa amostra.
A presença de resistência à insulina
em indivíduos cada vez mais jovens está relacionada com o aumento da
prevalência de obesidade infantil. De fato, a prevalência de obesidade
infantil vem crescendo em todo o mundo, inclusive no Brasil (15). Em nossa
região, realizamos um estudo recente (16), no qual observamos que a
prevalência de obesidade infantil é de 7,5% (21,7% quando considerado
sobrepeso e obesidade conjuntamente), confirmando dados de outros estudos
nacionais (15).
Por outro lado, não podemos descartar
a possibilidade de que exista de fato uma diferença na idade ao diagnóstico
entre os usuários e não-usuários de insulina, mas que esta não tenha sido
detectada pelo nosso estudo, devido a uma amostra insuficiente.
Devemos considerar que a coleta da
idade ao diagnóstico de diabetes fornecida pelo paciente pode não ter sido
fidedigna, já que estima-se que o diabetes esteja presente de 9 a 12 anos
antes do diagnóstico clínico (17). No entanto, a diferença entre o início
real do DM e o diagnóstico deveria, teoricamente, ser menor em usuários de
insulina, pois estes apresentariam falência de células beta mais precoce e
portanto sintomatologia antes dos não-usuários. Desta forma não acreditamos
que este possível viés possa ter contribuído para os resultados do nosso
estudo.
É sabido que pacientes com resistência à
insulina apresentam uma hiperinsulinemia compensatória. No entanto, quando a
produção de insulina é insuficiente para sobrepujar a resistência à insulina
subjacente há piora progressiva das concentrações plasmáticas de glicose,
momento no qual a doença passa a chamar-se diabetes melito (4). Também é
conhecido, através de dados do UKPDS, que a hemoglobina glicada dos
pacientes com DM tipo 2 tende a aumentar progressivamente, independentemente
do tipo de tratamento utilizado (5). Dentro desta evolução natural da
doença, espera-se que alguns pacientes necessitem de insulina.
Neste sentido, poderíamos esperar que
quanto maior o tempo decorrido desde o diagnóstico de diabetes maior a
probabilidade de uso de insulina. Por isso, a duração do DM é uma variável
de confusão importante neste estudo. De acordo com este raciocínio,
encontramos uma diferença estatisticamente significativa na duração do DM
entre usuários e não-usuários de insulina. Porém, a idade ao diagnóstico de
DM tipo 2 não foi associada com o uso de insulina mesmo quando outras
variáveis, incluindo a duração do diabetes, o IMC e o ICQ, foram
consideradas em um modelo de regressão logística.
Usuários de insulina apresentaram peso
corporal menor que os não-usuários. O uso de insulina traduz uma
hipoinsulinemia acentuada devido à falência das células beta, o que provoca
maior lipólise, explicando o menor peso nestes pacientes (18).
Em conclusão nosso estudo mostrou que
pacientes usuários de insulina não apresentam idade ao diagnóstico diferente
dos não-usuários. Outros estudos, com delineamento prospectivo, são
necessários para identificar fatores predisponentes para o uso de insulina
em pacientes com DM tipo 2.
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