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Revista da
AMRIGS Volume 49 No
3: 137 - 216 / Julho - Setembro 2005 BL ISSN
0102 - 2105
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ARTIGO ORIGINAL |
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Crioglobulinemia mista em
pacientes com infecção pelo vírus da hepatite C (VHC) |
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Andréa Ribeiro de Souza, Cristiane Valle Tovo, Angelo Alves de Mattos, Mara
Lane Zardin, Silvia Chaves e Silva |
Introdução
Em países industrializados, o
VHC é responsável por 20% dos casos de hepatite aguda, 70% dos casos de
hepatite crônica, 40% dos casos de cirrose, 60% dos casos de hepatocarcinoma
e 30% dos casos de transplante hepático (1) .
Paralelamente à elevada freqüência e
ao mau prognóstico que o VHC empresta a esta população, a infecção por este
vírus está associada com várias manifestações extra-hepáticas, sendo a
patogenia da maior parte baseada em mecanismos autoimunes ou
linfoproliferativos. O mecanismo mais documentado é a injúria produzida por
imunocomplexos (3), e a manifestação extra-hepática mais conhecida, até o
presente, é a crioglobulinemia mista (CM).
Determinar quais manifestações podem
estar relacionadas com esta infecção implica na identificação de um grupo de
pacientes que podem beneficiar-se de uma abordagem mais precoce de sua
doença, e portanto de tratamento específico, mesmo antes de se ter
estabelecido os critérios exigidos pela hepatopatia.
Este estudo tem como objetivo
identificar a prevalência de crioglobulinemia entre os pacientes com
infecção pelo VHC.
Pacientes e Métodos
Foram estudados de forma
prospectiva e consecutiva os pacientes com hepatite crônica pelo VHC,
provenientes do ambulatório do Serviço de Gastroenterologia do Hospital
Nossa Senhora da Conceição (HNSC), no período de março de 2002 a março de
2003.
Foram excluídos os pacientes com idade
menor que 18 anos e maior que 70 anos, co-infectados com vírus HIV e/ou HBV,
com cirrose descompensada, gestantes, pacientes com neoplasia e aqueles com
tratamento antiviral prévio para VHC.
Todos foram avaliados quanto a
presença de crioglobulinas, autoanticorpos e quanto a sintomas relacionados
a crioglobulinemia. Os sintomas e sinais pesquisados para o diagnóstico de
crioglobulinemia foram: presença de artrite, neuropatia, doença renal,
lesões de pele (púrpura em especial), fenômeno de Raynaud, e síndrome sicca.
Foram solicitados os seguintes
exames laboratoriais por ocasião da inclusão: RNA-VHC por técnica da reação
em cadeia da polimerase (PCR) e genotipagem, crioglobulinas, fator
reumatóide (FR), fator antinuclear (FAN), anticorpo anti-microssoma,
anticorpo anti-tireoglobulina, marcadores sorológicos para vírus B (HBsAg,
anti-HBs, anti-HBc), anti-HIV e aminotransferases (ALT, AST).
A detecção das crioglobulinas foi
realizada conforme descrito na literatura (4), através da coleta de sangue
em frasco pré-aquecido e coagulação a 37 °C.
Após a centrifugação, o soro foi removido e armazenado em refrigerador a 4°C
por sete dias. Avaliou-se a presença ou ausência de crioprecipitado. Os
demais exames foram realizados dentro da rotina estabelecida pelo hospital.
O diagnóstico de hepatopatia foi
baseado na biópsia hepática percutânea ou nos achados clínicos,
laboratoriais e ecográficos naqueles pacientes com contra-indicações para
realização deste procedimento.
O diagnóstico do VHC foi
realizado pela técnica da PCR.
Os pacientes forneceram o
consentimento informado e o trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética do
HNSC.
Para análise estatística, as variáveis
categóricas foram avaliadas pelo teste X², com cálculo de
significância por correção de Yates ou teste exato de Fisher, quando
apropriado. Variáveis contínuas foram analisadas através de teste de
correlação de Pearson ou teste T de Student quando apropriado. Admitiu-se um
p menor que 0,05 para significância estatística.
Resultados
Foram estudados 67 pacientes com
hepatite crônica pelo VHC, com idade média de 47,2 anos, sendo 36 do sexo
feminino (54%). Destes, 47 realizaram genotipagem, sendo 23 (49%) genótipo
1; 03 (6%) genótipo 2; e 21 (45%) genótipo 3. A prevalência de cirrose na
amostra estudada foi de 16%.
Foi detectada a presença de
crioglobulinas em 18 pacientes (27%).
Fator reumatóide (FR) foi detectado em
23 (35%), FAN em 5 pacientes (7%), anticorpo anti-tireoglobulina em 5 (7%) e
anticorpo anti-microssoma em 2 (3%).
Do ponto de vista clínico e
laboratorial, quando comparados os pacientes com crioglobulinas com os
demais, foi observado que o genótipo 1 foi menos freqüente nos pacientes com
criogrobulinas. Estes dados podem ser observados na Tabela 1.
Tabela 1 -
Características demográficas e
laboratoriais dos pacientes com e sem crioglobulinas
Tabela
2 -
Prevalência
de cirrose em pacientes com hepatite C em estudos de prevalência de
crioglobulinas
Artralgia foi relatada por 39% dos
pacientes com crioglobulinas. Foi caracterizada como simétrica em 86%,
acompanhada de rigidez matinal em 28% e com edema articular em 14%. No
entanto, 28% com crioglobulinemia negativa também apresentavam esta
manifestação.
A síndrome clínica de crioglobulinemia
mista foi diagnosticada em 2 pacientes (11%), e um deles apresentava
glomerulonefrite crioglobulinêmica. Dois pacientes com crioglobulinemia
apresentavam diagnóstico de lupus eritematoso sistêmico.
Discussão
Um grande espectro de manifestações
extra-hepáticas têm sido atribuídas ao VHC. A apresentação clínica em geral
é sutil e a relação com a infecção viral ainda é controversa, sendo variável
o prognóstico dos mesmos.
Dentre as manifestações sabidamente relacionadas
com o VHC destacamos a crioglobulinemia, a glomerulonefrite, o linfoma, as
manifestações cutâneas como liquen planus, vasculite cutânea e
porfiria cutânea tarda. A mais estudada é a crioglobulinemia mista
(4).
A associação entre
crioglobulinemia mista e VHC foi descrita pela primeira vez em 1990, por
Pascual et al. (5). O VHC é um vírus linfotrópico, e a persistente
estimulação do sistema imune parece ser responsável pela presença de
crioglobulinemia em pacientes infectados (3).
Crioglobulinas são imunoglobulinas que
precipitam em baixas temperaturas (6). Brouet et al. (7) propuseram uma
classificação imunoquímica das crioglobulinas. As crioglobulinas tipo I
consistem em imunoglobulinas monoclonais e são observadas em doenças
linfoproliferativas, como mieloma múltiplo e a síndrome de Waldenström.
Crioglobulinas tipo II e tipo III são imunoglobulinas policlonais com um
componente monoclonal (tipo II) ou não (tipo III). O tipo II consiste em IgG
policlonal e IgM monoclonal com atividade de fator reumatóide. O tipo III
consiste em fator reumatóide IgM e IgG policlonal. Os tipos II e III são
chamadas crioglobulinas mistas e são observadas em doenças
imunolinfoproliferativas, inflamação crônica, doenças autoimunes, doenças
infecciosas crônicas e agudas. Quando não é identificada doença subjacente,
é denominada crioglobulinemia mista essencial (CME) (6). As crioglobulinas
associadas ao VHC são do tipo II e III.
Foi descrito que 50 a 80% dos pacientes com
CME são infectados pelo VHC, e que as crioglobulinas podem ser encontradas
em mais de 50% dos pacientes com infecção pelo VHC (6). A alta prevalência
de CME entre pacientes com infecção pelo VHC tem sido confirmada por vários
estudos (6,9,10,11,12,13,14). As maiores prevalências foram relatadas em
países do Mediterrâneo, cerca de 50 a 90% em pacientes da Itália e França
(6,13,14). As variações de prevalência são parcialmente explicadas pela
falta de padronização dos métodos de detecção e caracterização das
crioglobulinas (6). Em estudo recente realizado no Brasil, a prevalência de
crioglobulinemia em pacientes com hepatite C foi de 34,4% (15).
Os resultados do presente estudo são
semelhantes aos de Calleja (12) e inferior aos demais (6,9,10,11,13,14)
confirmando, de qualquer maneira, uma elevada prevalência de
crioglobulinemia nestes pacientes.
Em relação ao gênero, neste estudo as
crioglobulinas foram mais prevalentes na população feminina sem alcançar, no
entanto, significância estatística, resultado semelhante ao estudo de Parise
et al. (14) e contrário a outros estudos (9,10,11). Quando a média de idade
foi avaliada, não foi observada diferença entre os grupos, o que vem ao
encontro dos resultados dos demais estudos (6,9,11,12), exceto o de Fayyazi
et al (10), no qual a média de idade dos pacientes com crioglobulinas
positivas foi maior.
Quanto ao nível de aminotransferases,
não houve diferença significativa entre os pacientes com e sem
crioglobulinas, resultado este também obtido pelos estudos aqui avaliados
(6,9,10,11,12,13,14).
Em relação ao genótipo viral envolvido
na crioglobulinemia associada ao VHC, a maioria dos estudos não demonstrou
haver associação, e o genótipo mais prevalente relacionado com CM foi aquele
mais prevalente na população na mesma área geográfica (6,16,17,18). Alguns
estudos, porém, encontraram relação inversa entre crioglobulinemia e
genótipo 1 (16,19,20). O significado deste achado permanece discutível e a
relação entre genótipo e crioglobulinemia ainda é controversa. Na presente
amostra pode-se observar uma menor freqüência de genótipo 1 entre os
pacientes com crioglobulinemia quando comparados com os demais.
O papel das crioglobulinas na evolução
da doença hepática é motivo de estudos e recente meta-análise demonstrou uma
forte associação entre cirrose e crioglobulinemia. Após ajustes para idade,
gênero e duração estimada de doença, o "odds ratio" para incidência de
cirrose em pacientes com crioglobulinas em relação aos sem crioglobulinas
foi de 4,87 (95% IC: 3,32-7,15) (23).
Como podemos observar na Tabela 2, em
todos os estudos a prevalência de cirrose foi maior nos pacientes com
crioglobulinas (p<0,001). Na presente casuística, cirrose foi mais
prevalente em pacientes com crioglobulinas (22% × 14%) porém sem alcançar
significância estatística.
Artralgia foi uma queixa comum dos
pacientes, relatada em 31% dos casos. Nos pacientes com crioglobulinas, a
prevalência foi de 39% e destes 47% apresentavam fator reumatóide. No
entanto, estes pacientes não apresentavam critérios clínicos para o
diagnóstico de artrite reumatóide (AR).
A prevalência de fator reumatóide foi maior
nos pacientes com crioglobulinemia quando comparados com os demais,
característica também observada em outros estudos (6,10,12).
A artrite tem sido observada em alguns
estudos, contudo a interpretação desses achados torna-se difícil, na medida
da não especificidade dos testes sorológicos utilizados, bem como do relato
de anti-VHC falso positivo em pacientes com AR (25).
A artropatia é uma manifestação comum
na infecção pelo VHC, afetando até 20% dos pacientes, mais comumente
associada à crioglobulinemia. Deve ser distinguida das mialgias e da fadiga.
A artrite relacionada ao VHC se
apresenta mais comumente como " reumatóide-like", poliartrite inflamatória
simétrica envolvendo pequenas articulações, ou menos comumente como mono ou
oligoartrite, usualmente de grandes articulações. Geralmente tem um curso
benigno e tipicamente não apresenta deformidades, erosões ósseas ou nódulos
subcutâneos. Em aproximadamente 2/3 dos pacientes, a rigidez matinal pode
ser severa e resolve-se após mais de uma hora (27).
Vários mecanismos patogênicos
podem estar envolvidos: a artrite pelo VHC pode fazer parte do contexto
clínico da crioglobulinemia mista, ou pode ser mediada direta ou
indiretamente pelo VHC. Alguns destes mecanismos já foram descritos e
necessitam maior confirmação: invasão direta das células sinoviais pelo
vírus levando a uma resposta inflamatória local, doença induzida por
citocinas ou imunocomplexos, particularmente em pacientes predispostos
geneticamente (27).
O diagnóstico diferencial entre
artrite associada ao VHC com fator reumatóide positivo e "artrite reumatóide
clássica" é difícil. Algumas manifestações clínicas e parâmetros
laboratoriais podem auxiliar nesta distinção. A presença de erosões ósseas e
nódulos subcutâneos, bem como a determinação de anticorpos antiqueratina,
são características da AR, não sendo encontrados na artrite pelo VHC (26).
Vários autores sugerem que a
infecção pelo VHC deve fazer parte do diagnóstico diferencial em pacientes
com artrite (30,31,32).
Em relação aos auto-anticorpos
detectados em pacientes com hepatite crônica por VHC, sabe-se que a presença
destes não parece influenciar a apresentação clínica ou o curso da doença.
Além disso, não há diferenças entre gênero, severidade histológica da
hepatite, ou resposta ao tratamento entre os pacientes VHC positivos com ou
sem anticorpos (3).
Anticorpo antinuclear, anticorpo
antimúsculo liso ou anticorpos anti-tireóide são detectados em 40 a 65% dos
pacientes com hepatite crônica C. Na maioria dos pacientes os
auto-anticorpos têm pouco significado clínico e provavelmente constitui um
epifenômeno (3). Na presente amostra a prevalência de auto-anticorpos foi
inferior àquelas relatadas na literatura e não tiveram representação
clínica.
Os pacientes com hepatite
crônica pelo VHC e crioglobulinas apresentam sintomas clínicos relacionados
com crioglobulinemia mista em 10 a 25% dos casos, mais comumente incluindo
manifestações cutâneas e artralgias e menos freqüentemente glomerulopatia e
alterações neurológicas (6,13,24). Nos pacientes avaliados no presente
estudo, o quadro clínico de crioglobulinemia foi observado em 11%.
No presente estudo, concluímos
que a prevalência de crioglobulinemia mista em pacientes com infecção pelo
vírus da hepatite C é elevada, porém a síndrome clínica é infreqüentemente
detectada.
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Andréa Ribeiro de Souza – Médica
Gastroenterologista, Mestranda do Curso de Pós-Graduação em
Medicina-Hepatologia da FFFCMPA.
Cristiane Valle Tovo – Mestre em Gastroenterologia;
Doutora em Hepatologia; Livre-Docente em Gastroenterologia; Chefe do
Serviço de Gastroenterologia do HNSC-POA.
Angelo Alves de Mattos – Professor Titular da
Disciplina de Gastroenterologia da FFFCMPA e do Curso de Pós-Graduação em
Hepatologia da FFFCMPA/ISCMPA.
Mara Lane Zardin – Farmacêutica e Bioquímica.
Assistente Técnica do Setor de Bioquímica do Laboratório Central do
HNSC-POA.
Silvia Chaves e Silva – Médica Patologista do
Serviço de Patologia do HNSC-POA.
Serviço de Gastroenterologia do Hospital Nossa Senhora
da Conceição de Porto Alegre (HNSC-POA) e Curso de Pós-Graduação em
Medicina-Hepatologia da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de
Porto Alegre (FFFCMPA).
* Endereço para
correspondência:
Cristiane Valle Tovo
Rua Cel. Aurélio Bitencourt 115 apto 201
90430-080 – Porto Alegre, RS – Brasil
Tel (51) 3335-3349
(51) 3332-5706
: cris.tovo@terra.com.br
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