Introdução
O médico, na sua atividade diária, está inserido nas
profundas modificações sociais que caracterizam os tempos modernos.
Entretanto, quando procuramos artigos que nos atualizem sobre as questões
socioculturais que incidem em nossa prática médica e que deveriam
subsidiar uma pedagogia apropriada, não os encontramos. Em relação à
violência, que é um exemplo ao mesmo tempo emblemático e preocupante de
nosso tempo, os periódicos internacionais apresentam apenas referências à
questão. As informações nelas contidas abordam em geral um dos locais em
que tradicionalmente o médico acaba se defrontando com este fenômeno – as
salas de emergência. Segundo pesquisa realizada junto aos Serviços de
Emergência de 127 hospitais universitários norte-americanos, 41 (32%)
relataram uma ou mais ameaças verbais ao dia, por parte dos pacientes, à
equipe de saúde, e 23 (18%) relataram no mínimo uma ameaça envolvendo o
uso de algum tipo de arma a cada mês (1). Um estudo realizado no Reino
Unido com 100 médicos recém-formados pertencentes aos Serviços de
Emergências e Acidentes constatou que 96 deles sofreram agressão verbal,
50 receberam ameaças, 32 relataram que pacientes tentaram agredi-los
fisicamente e 18 foram vítimas de agressão física (2). O comportamento
violento dos pacientes em um hospital geral pode acabar impedindo-os de
receber tratamento médico adequado, além de colocar a equipe médica e os
outros pacientes em risco (3,4,5). Além disso, o comportamento violento
nas emergências com grande freqüência é o fator determinante de
internações psiquiátricas ou da solicitação de auxílio ao psiquiatra, por
parte de colegas de outras especialidades.
No Brasil, observamos outro fenômeno que difere do
contexto em que tradicionalmente os médicos estão acostumados a lidar,
como no caso dos atendimentos em serviços de emergência. Esta forma de
violência está mais relacionada às transformações sociais que ocorrem
atualmente do que à questão de doença propriamente dita, como a presença
de um quadro de psicose ou de delirium. Esta nova forma de violência
coloca os médicos frente a uma realidade que os profissionais não podem
abordar com métodos tais como a prescrição de um antipsicótico ou a
contenção mecânica do paciente. Para esta situação não encontramos estudos
nas revistas de língua inglesa, que são fortemente valorizadas por órgãos
como a CAPES e o CNPq. O médico brasileiro, ao estudar durante a sua
formação as técnicas mais avançadas para tratamento dos seus futuros
pacientes, provavelmente nada irá aprender sobre a forma de abordar esta
realidade que o espera após a formatura. Para abordar este tema, faremos
inicialmente uma breve reflexão a propósito do fenômeno da violência e
analisaremos uma situação destas ocorrida em Porto Alegre.
Uma breve reflexoão sobre o fenômeno da violência
A pergunta que se faz, quando se tenta delimitar o
fenômeno da violência, um dos mais preocupantes do mundo atual, vincula-se
a sua complexidade. Ele pode estar vinculado a fatores culturais,
econômicos, políticos, psicológicos e biológicos, entre outros.
A violência pode ser entendida como uma falha do
comportamento humano em respeitar os limites entre a agressão aceitável e
a inaceitável. A gênese da conduta violenta é multifatorial e ainda não se
encontra completamente elucidada. Os estudos estatísticos e
epidemiológicos nos auxiliam a delimitar o problema e avaliar o grau em
que afeta os indivíduos e a sociedade. Dados do estudo "Epidemiological
Catchment Area (ECA)" (6) sugerem que 3,7% da população dos Estados Unidos
(EUA) cometem um ou mais atos de violência a cada ano, e a incidência de
comportamento agressivo durante toda vida é de aproximadamente 24% (7).
Ainda que as autoridades desse país relatem uma diminuição nas taxas de
criminalidade, em 1996 ocorreram 19.645 assassinatos, 95.769 estupros e
537.050 roubos, contribuindo para um total de aproximadamente 500 milhões
de dólares em bens subtraídos (8).
Nos EUA, uma mulher é sexualmente atacada a cada 45
segundos. Mais de um terço dos americanos relatam ter assistido a um homem
espancar sua esposa ou namorada. Entre 1986 e 1993, o número de crianças
vítimas de abusos ou negligenciadas dobrou, e o das seriamente feridas
quadruplicou. Os assassinatos constituem uma importante forma de violência
em locais de trabalho e são a forma de crime que mais cresce, ficando
abaixo somente dos acidentes de trânsito como causa de mortes no trabalho
(9).
Ainda que não tenhamos tanta disponibilidade de estudos
epidemiológicos aplicados à realidade brasileira, vivemos num mundo cada
vez mais globalizado e podemos supor que, no nosso meio, a problemática
não seja muito diferente, tendo, com certeza, importantes conseqüências
sociais, psicológicas e econômicas.
Podemos dizer que a violência é um elemento estrutural,
intrínseco ao fato social, isto é, aparece em todas as sociedades. De um
modo geral, os tempos atuais assistem a uma escalada da violência. Vivemos
em uma sociedade da velocidade, do imediatismo, do utilitarismo –
dissolvem-se as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo,
solapando o esforço em prol dos benefícios imediatos.
Com a diminuição significativa das instâncias formais
de controle social – igreja, sindicato, escola, família –, assiste-se ao
crescimento de guetos: famílias sem pai, tráfico de drogas (em que muitas
vezes o traficante é o pai), produzindo níveis de violência e delinqüência
até então desconhecidos.
Há ainda que lembrar que a dinâmica social atual, com
suas rápidas transformações, leva ao desaparecimento de padrões culturais
tradicionais, e que, por outro lado, não há fixação de novos padrões em
face da velocidade dessas transformações, fazendo com que os indivíduos
vivam sem regras definidas que lhes permitam pensar em parâmetros
estruturados em códigos sociais mais permanentes (10). Essas constatações
não significam afirmar que estamos vivendo no grau zero dos valores
morais. Um núcleo estável de valores morais e éticos, como direitos
humanos, honestidade, princípio da diferença, tolerância, entre outros,
permanecem. Há, no entanto, que lembrar que as novas tecnologias
provocam uma grande metamorfose na sociedade. Compactuamos com os autores
António Damásio (11, 12) e
Derrick de Kerckove (13), quando estes afirmam que hoje vivemos a era da
mente e não mais a da razão.
Outros fatores implicam, ao nosso ver, o aumento da
violência. Entre eles podemos citar a coisificação do indivíduo pelo
dinheiro, a necessidade de se viver o aqui e agora, a ausência de valores
que permitam reconhecer o outro como seu igual. Há, no entanto, um fator
importante que deve ser analisado: a velocidade em que a sociedade vive
atualmente.
As novas tecnologias mudaram a relação de sentido único
com o televisor para o modo interativo e bidirecional dos computadores
pessoais. Todos esses fenômenos técnicos/científicos vêm contribuindo para
a deterioração dos valores tradicionais e a sua velocidade impede que
novos valores sejam desenvolvidos nessa cultura da velocidade e da mente.
Pesquisa (14) realizada na França revela que, quando se
pede para destacar, numa lista de 17 qualidades morais, as cinco virtudes
que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças, apenas 15%
dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. Quando se interroga a
faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes
ensinaram, 75% falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom
emprego. Mas o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em
cada quatro – a própria idéia da educação moral perdeu o valor.
Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max
Weber, segundo a qual "o fim precípuo de nossa época, caracterizada pela
racionalização, pela intelectualização e, principalmente, pelo
‘desencantamento do mundo’, levou os homens a banir da vida pública os
valores supremos e mais sublimes".
O autor contrapõe aduzindo que tudo isso não indica que
não exista mais moral, mas que aquela moral tradicional deixou de ser
socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício), passando à moral
à la carte, ou seja, sacrifícios altruístas mínimos,
descompromissados, "indolores", que podem ser escolhidos pelo indivíduo.
Este ainda quer família, mas com a condição de que possa se divorciar,
viver em concubinato, ter filhos por encomenda, etc.
Também é importante salientar que os maiores avanços
científicos das últimas décadas se deram na área da Biologia. E isto é
especialmente verdadeiro quando se trata de psiquiatria biológica. Em
termos de comportamento violento, as descobertas mais recentes tratam
especialmente da questão do comportamento agressivo impulsivo e das
alterações nos neurotransmissores, hormônios e fatores genéticos
envolvidos, cuja descrição completa foge aos nossos objetivos( 15).
Transtorno de Personalidade Anti-Social
(TPAS)
Ainda que o comportamento violento, em especial a
agressão impulsiva dirigida a si próprio e aos outros, seja especialmente
característico de certos transtornos psiquiátricos, como o transtorno de
personalidade borderline, o anti-social (TPAS) e os transtornos do humor,
ela ocorre em todas as categorias diagnósticas (16). Porém, quando
pensamos em situações nas quais existe um comportamento que envolve vários
indivíduos e que se caracteriza pelo desrespeito às regras e normas
sociais, podemos supor que entre estes indivíduos iremos provavelmente
encontrar uma prevalência maior de indivíduos com TPAS.
O TPAS, de acordo com o Manual Diagnóstico e
Estatístico dos Transtornos Mentais Revisado (DSMR-IV) (17), pode ser
essencialmente definido com um padrão invasivo de desrespeito e violação
dos direitos alheios que, normalmente, começa na infância ou início da
adolescência e continua na idade adulta (18). Os indivíduos com TPAS não
se conformam às normas pertinentes a um comportamento dentro de parâmetros
legais. Eles podem realizar repetidos atos que constituem motivo de
detenção (quer sejam presos ou não), tais como destruir propriedade
alheia, importunar os outros, roubar ou dedicar-se à contravenção. As
pessoas com este transtorno desrespeitam os desejos, direitos ou
sentimentos alheios. Freqüentemente enganam ou manipulam os outros, a fim
de obter vantagens pessoais ou prazer (por ex., para obter dinheiro, sexo
ou poder). Podem mentir repetidamente, usar nomes falsos, ludibriar ou
fingir. Um padrão de impulsividade pode ser manifestado por um fracasso em
planejar o futuro. As decisões são tomadas ao sabor do momento, de maneira
impensada e sem considerar as conseqüências para si mesmo ou para outros,
o que pode levar a mudanças súbitas de empregos, de residência ou de
relacionamentos.
Os indivíduos com TPAS tendem a ser irritáveis ou
agressivos e podem repetidamente entrar em lutas corporais ou cometer atos
de agressão física. Exibem também um desrespeito imprudente pela segurança
própria ou alheia e costumam engajar-se em um comportamento sexual ou de
uso de substâncias com alto risco de conseqüências danosas.
Os indivíduos com TPAS demonstram pouco remorso pelas
conseqüências de seus atos. Mostram-se indiferentes ou oferecem uma
racionalização superficial por terem ferido, maltratado ou roubado alguém
(por ex., "a vida é injusta", "perdedores merecem perder" ou "isto iria
acontecer de qualquer modo"). Preferem culpar suas vítimas por serem
tolas, impotentes ou por terem o destino que merecem; minimizar as
conseqüências danosas de suas ações; ou simplesmente demonstrar completa
indiferença. Em geral não procuram compensar ou emendar sua conduta.
Acreditam que todo o mundo está aí para "ajudar o número um" e que não se
deve respeitar nada nem ninguém para não ser dominado.
Um aspecto do TPAS é que muitos aparentam não ter
sentimentos, com pouca ou quase nenhuma empatia pelas pessoas. Essa
indiferença emocional é o que faz o anti-social ser tão perigoso, pois lhe
permite cometer os crimes mais hediondos sem remorso, crimes que podem ser
várias vezes repetidos, sem se preocupar com suas vítimas. É como se uma
parte vital do caráter do anti-social – a sua moral de julgamento – fosse
de alguma maneira ausente ou pouco desenvolvida. Esta parte essencial de
nossa "humanidade" nos faz aderir a regras sociais e a obrigações. Mas o
anti-social sem nenhum esforço resiste a todo regulamento, incapaz de ver
além de seu próprio egoísmo ou de adotar padrões corretos.
No que diz respeito à etiologia propriamente dita deste
transtorno, um dos modelos desenvolvidos é o do marcador somático. Segundo
este modelo, o TPAS, ou a Psicopatia, como é também chamado, seria
desencadeado diante de uma dificuldade vinculada à associação de
determinados estímulos com determinadas respostas. Em outras palavras, os
psicopatas tenderiam a não responder adequadamente nas diferentes
situações de interação social, uma vez que neles se encontram ausentes os
mecanismos fundamentais que engendram a emoção e a fazem estar disponível
em todo e qualquer processo decisório. A falha no chamado "marcador
somático" (18,19) faz, deste modo, com que os estímulos acabem por estar
sempre desacompanhados de emoções pelas quais torna-se possível gerar as
respostas adequadas. Damásio apoiou sua hipótese em muitos dos achados
neurológicos efetuados pela sua equipe, com os quais foi possível
demonstrar que determinadas lesões no córtex frontal tendem a desencadear
um empobrecimento na capacidade de efetuar decisões, bem como uma
respectiva inadequação social daí decorrente (20).
Os indivíduos com TPAS possuem um sistema nervoso
central não responsivo – pouco alerta, com um padrão de ondas cerebrais
freqüentemente encontradas em crianças e adolescentes sugerindo
imaturidade cerebral. Também possuem um padrão de freqüência cardíaca de
repouso baixa em contraste com o pulso rápido da ansiedade e estados de
alerta. Não experimentam ansiedade quando mentem, cometem um crime ou se
envolvem em comportamentos de alto risco. Estes indivíduos com um nível de
consciência cronicamente baixo buscam situações de risco, como o crime e a
violência, como forma de aumentar seu estado de alerta. O comportamento
anti-social seria um esforço para estimular um SNC cronicamente
não-responsivo (21).
O transtorno parece ser tão comum quanto outros que
conseguiram capturar a atenção pública recentemente, como a síndrome de
pânico, o transtorno obsessivo-compulsivo e o transtorno de déficit de
atenção. Contudo, a natureza do TPAS demonstra que seu poder de destruição
em sociedade é maior que a maioria das outras doenças mentais, tendo em
vista que o transtorno envolve principalmente reações contra o ambiente
social, o que faz com que outras pessoas sejam arrastadas para sua teia
destrutiva. Muitos transtornos mentais têm implicações sérias para além
dos pacientes e das suas famílias, como perda de rendimento e custo de
tratamento. Mas o impacto social do TPAS aparece mais de imediato. Os
criminosos anti-sociais são responsáveis por incontáveis perdas e requerem
grandes gastos em policiamento e aplicação de sanções. O desespero e a
ansiedade criados pela tragédia do anti-social afetam famílias e
comunidades, enquanto deixam cicatrizes físicas e emocionais profundas em
seus filhos, que crescem freqüentemente seguindo os difíceis caminhos de
seus pais por toda a vida. Mas o verdadeiro preço do TPAS é expresso de
modo mais sutil, inclusive com um senso difuso de desconfiança geral das
pessoas sobre as intenções de outros. O crime e outros problemas sociais
se originam de uma variedade de causas além do TPAS, mas os anti-sociais e
as suas ações contribuem para os nossos medos e preocupações coletivas.
Estes medos nos fazem apertar os passos em uma rua escura, fechar nossos
carros e casas e suspeitar de promessas. Enquanto estes instintos nos
protegem do perigo, eles podem ser prejudiciais se nos levarem a acreditar
que nada está seguro, que as regras da sociedade já não dispõem de
qualquer proteção ou garantia da ordem. As preocupações de hoje sobre
crime, corrupção e coesão social formam um bom contexto para explorar o
TPAS e seu papel nos problemas sociais que testemunhamos. Nosso interesse
nas raízes de seu comportamento deveria incitar-nos a olhar mais
atentamente este transtorno psiquiátrico e suas manifestações destrutivas
(21).
O encontro dos aspectos sociais que abordamos com as
questões específicas dos fatores biológicos que predispõem ao
comportamento violento e aos transtornos mentais, como o TPAS, às drogas
de abuso e outros, é que cria condições para a ocorrência de situações
como a que iremos relatar. Abordaremos igualmente algumas das possíveis
conseqüências para os médicos.
Descrição Resumida da Interdição do
Exercício da Medicina pelo CREMERS e seus Determinantes
Segundo notícias veiculadas em jornais locais, uma
unidade de saúde de um bairro de Porto Alegre teve o exercício da Medicina
interditado devido às ameaças à integridade física dos médicos. A referida
unidade funcionava havia 25 anos no prédio da associação comunitária do
bairro. Há dois anos eram feitas ameaças e agressões físicas e morais à
equipe, as quais se intensificaram nas duas semanas que precederam o
fechamento. Entre as situações que vinham ocorrendo, os médicos estavam
sendo coagidos a fornecer atestados falsos, medicamentos controlados e
favorecimentos no agendamento de consultas para os traficantes locais e,
por se negarem a tanto, sofreram ameaças físicas destes traficantes, que
muitas vezes exibiam suas armas para a equipe de saúde que atuava no
local, como forma de coação. Por exemplo, uma das médicas chegou a ser
ameaçada de ter o rosto cortado caso voltasse a trabalhar. O autor da
intimidação era o chefe do tráfico da região, que foi ao posto pedir o
endereço da profissional. Uma das funcionárias sofreu agressões físicas e
teve seu veículo depredado. Os pacientes, sabedores do temor dos Médicos e
dos outros membros da equipe, passaram a ameaçá-los de queixar-se aos
traficantes, como forma de pressão para conseguir o que queriam. Frente às
situações que vinham ocorrendo, o Conselho Regional de Medicina interditou
o exercício da medicina na referida unidade, o que, na prática, resultou
no fechamento. Revoltados, os moradores ameaçaram interditar avenidas como
forma de protesto.
Chama a atenção a manifestação de alguns policiais de
alta patente, garantindo que o fechamento da unidade não se dera por falta
de segurança, e sim por outros motivos, sugerindo haver um exagero nas
preocupações de médicos e outros funcionários. E numa ocasião anterior,
frente às queixas de toda a equipe de saúde, a Secretaria Municipal de
Saúde tentou solucionar o problema e, para tanto, entendeu ser suficiente
para impedir a atuação dos infratores – que prejudicavam não apenas a
equipe de saúde, mas toda a comunidade – a contratação de um segurança
privado, desarmado, e a abertura de uma pequena porta nos fundos do prédio
em que funcionava o serviço e que dava para um "valão" – caso os médicos e
funcionários precisassem fugir do local. Nada justifica, do ponto de vista
moral, jurídico ou político, atos de coerção que impeçam profissionais de
exercer sua profissão. Quando se trata de saúde, condição básica para
viver, a violência maior recai sobre os mais carentes, que são impedidos
de receber atendimento.
Sabemos que hoje o tráfico pode praticamente ser
considerado como mais "um ramo de atividades" e, nele, como em todos os
ramos de atividades, encontramos trabalhadores dos mais diferentes
escalões. Os médicos, de modo geral, estão acostumados à pressão de
pessoas poderosas por atendimento especial e/ou alguma forma de regalia.
Entretanto, aqui temos uma situação em que o tipo de atividade dos
poderosos (no caso o "dono do morro", como referiu um paciente) os torna
completamente indiferentes aos valores e regras mínimos necessários para
um convívio social digno. O que esperar daqueles que trabalham
despreocupados com as próprias vidas e acostumados com a violência
constante? Quando o bem maior – a vida e a integridade física – fica
ameaçado, passamos para uma situação de impossibilidade do exercício
profissional, e a atitude tomada pelo Cremers foi considerada
extremamente oportuna pelos que tiveram acesso às informações sobre
o que estava realmente ocorrendo. Transcorridos cinco meses e com a
participação ativa do Conselho de Medicina junto à comunidade e aos órgãos
públicos, a unidade de saúde foi reaberta. O Cremers levantou a interdição
após ajudar a recompor a equipe médica, sendo que dos cinco profissionais
médicos, só um permaneceu na unidade.
Entretanto, a situação aqui descrita é apenas uma das
que vêm ocorrendo, e com muita freqüência podemos encontrar outras
semelhantes nos jornais de qualquer região do Estado e do País. E
geralmente vêm a público os casos em que os médicos não aceitam o jogo a
eles imposto. Podemos pensar no custo que situações como esta representam
para o exercício da Medicina de um modo geral. Quantos colegas, frente a
uma pressão tão grande, podem soçobrar e desrespeitar aqueles valores
profissionais mínimos que normalmente são descritos nos códigos de ética
profissional?
Um outro custo que situações como esta tendem a acarretar para a
medicina e para a sociedade como um todo é o dos desdobramentos para a
saúde mental dos profissionais. Ainda que não tenhamos como saber todas as
conseqüências para os colegas que viveram esta situação, sabe-se que
vítimas de situações muito estressantes podem desenvolver um Transtorno de
Estresse Agudo ou um Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) (22).
Transtorno de Estresse Pós-Traumático
(TEPT)
A característica essencial do TEPT é o desenvolvimento
de uma sintomatologia característica, subseqüente à exposição a um
estressor traumático extremo que é decorrente de uma experiência pessoal
direta frente a um evento no qual ocorreu morte ou ameaça de morte,
ferimentos importantes, ou ameaça à integridade física de outros, ou
testemunhar um evento em que ocorre morte ou dano à outra pessoa, ou ter
notícias destes eventos quando estes ocorreram com um membro da família ou
pessoa da qual o indivíduo é próximo. Os eventos traumáticos incluem, mas
não se limitam, a combate militar, agressão pessoal violenta (ataque
sexual, físico, roubo, assalto), seqüestro, tortura, desastres naturais,
acidentes, ou receber notícia de doença que traz risco para a vida, entre
outros. A resposta ao evento deve necessariamente consistir de um medo
intenso, impotência ou horror. O quadro clínico completo deve estar
presente por um período superior a um mês e a perturbação deve causar
sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social,
ocupacional e/ou outras áreas importantes da vida do indivíduo.
As principais características clínicas do TEPT são a
revivência dolorosa do evento, esquiva, embotamento emocional e
hiperexcitabilidade razoavelmente constantes. A revivência geralmente se
dá na forma de recordações ou sonhos recorrentes e intrusivos do evento. A
esquiva se dá através do esforço para evitar pensamentos, conversas,
pessoas, situações e locais que provoquem recordações do evento. Os
padrões de esquiva podem interferir com as atividades e determinar
divórcio e/ou perda do emprego. O embotamento emocional se manifesta por
um "torpor psíquico" e uma falta de interesse por atividades anteriormente
prazerosas. Já a hiperexcitabilidade se manifesta por sintomas
persistentes de ansiedade ou maior excitação, dificuldades com o sono e,
em alguns, irritabilidade e ataques de raiva. O transtorno pode não se
desenvolver até meses ou anos após o evento. Pode haver o relato de
estados dissociativos, presença de outros transtornos de ansiedade como
ataques de pânico, sentimento de culpa, ilusões e alucinações. Podem,
ainda, estar presentes sintomas depressivos, agressividade, fraco controle
dos impulsos e transtornos relacionados a substâncias.
Não temos informações a respeito das repercussões para
os colegas dos fatos ocorridos nesta unidade. Mas tendo em vista o fato de
que só um quis retornar ao local de trabalho, podemos pensar numa hipótese
de que este fato esteja ligado a sintomas de TEPT. Caso o médico
desenvolva um transtorno como este, o resultado pode ser ele não querer
retornar ao local de trabalho, pois isto será motivo de intenso
sofrimento, podendo até mesmo, algumas vezes, ficar incapacitado para
exercer suas atividades profissionais. Desta forma, se fatos como estes se
tornarem o cotidiano da atividade de grande parte dos profissionais,
certamente aumentará o número de colegas desistindo ou se considerando
incapacitados para exercer suas funções, com grande perda pessoal e para a
sociedade como um todo.
Conclusões
Conforme mencionado previamente, a violência origina-se
de vários fatores sociais, psicológicos e biológicos muito complexos. A
sua compreensão, bem como a busca de soluções para o problema, somente
será possível mediante uma abordagem que dê conta da complexidade do
problema. E uma das formas de aprofundar o conhecimento desse fenômeno se
dá através do enfoque interdisciplinar. Se desejarmos avançar no sentido
de ter uma formação adequada para enfrentar o problema da violência e
reduzir seus índices, necessitaremos também considerar que o comportamento
é um processo dinâmico de interação entre a fisiologia e a experiência.
Neste sentido, o cérebro humano merece uma atenção especial. Para que
funcione adequadamente na vida adulta, ele deve ser protegido de fatores
que prejudicam seu desenvolvimento. A prevenção, que é a intervenção mais
precoce e eficaz, inicia-se com os cuidados pré-natais e o bem-estar
físico e emocional materno. A investigação de abuso de substâncias e da
violência doméstica deveria ser considerada tão vital como os níveis de
tensão arterial. Neste sentido os estudos demonstram que crianças que
foram abusadas e negligenciadas apresentam um risco aumentado de serem
presas por um crime violento quando adultos. Desta forma, a própria
Medicina poderia dar uma maior contribuição para a redução dos índices de
violência. Porém os resultados só ocorreriam para as próximas gerações
(23).
Desta forma, temos de pensar como o médico pode agir
frente a situações como a descrita neste artigo, que tendem a se repetir
muitas vezes. Destaca-se, no caso apresentado, como os Conselhos de
Medicina podem atuar quando outras instituições falham na solução de
conflitos referentes à intimidação e violência no exercício da profissão.
É igualmente muito importante que o médico aprenda a trabalhar em equipe e
de forma multidisciplinar. E entenda que certos problemas de saúde só
poderão ser resolvidos quando ele tiver a assessoria de profissionais que
compreendam os grupamentos humanos e que saibam organizar os recursos
sociais de uma determinada comunidade. O aumento do comportamento violento
está também associado à fragilidade do indivíduo nos tempos atuais.
Pode-se medi-la pelo número de suicídios, pelo aumento da depressão, da
ansiedade, do consumo de medicamentos, drogas, etc. Para se ter a dimensão
destes problemas, sabemos que existem projeções de que, no ano de 2020, a
depressão será a segunda maior causa de incapacidade e morte em nível
mundial (24). O indivíduo que se tornou senhor de sua própria existência é
cada vez mais frágil. Ele sofre mais a pressão do tempo tanto no trabalho
como na vida privada. Também vivemos na época dos direitos humanos, e
praticamente acabamos de descobrir que entre eles está o direito de
decidir – é claro que dentro de certos limites – sobre as intervenções que
são realizadas em nosso próprio corpo, isto é, sobre a saúde e a doença,
sobre a vida e a morte (25,26). Se o aumento da liberdade individual deu
ao homem atual maior possibilidade de decidir sobre a sua vida, por outro
lado ele ficou cada vez mais desprotegido pelas instituições sociais como
a família, e os conflitos da vida privada aumentaram. Soma-se a tudo isto
a descrença no Estado e nos aparelhos políticos, na política, trazendo
dificuldades para uma vida organizada e estruturada por essas
instituições. O exemplo que trouxemos, das intimidações sofridas pela
equipe de saúde, é emblemático para ilustrar este estado de coisas.
Referências Bibliográficas
1. Lavoie FW, Carter GL, Danzl DF, Berg RL.
Emergency department violence in US teaching hospitals. An Emerg Med
1988;17:1227-33.
2. Wyatt JP, Watt M. Violence towards junior
doctors in accident and emergency departments. J Accid Emerg Med
1995;12:40-2.
3. Coverdale J, Gale C, Weeks S, et al. A
survey of threats and violent acts by patients against training
physicians. Med Educ 2001;35:154-9.
4. Fink D, Shoyer B, Dubin WR. A study of
assaults against psychiatric residents. Acad Psychiatry 1991;15:94-9.
5. Schwartz TL, Park TL. Assaults by patients
on psychiatric residents: a survey and training recommendations.
Psychiatr Serv 1999;50:381-3.
6. Swanson JW, Holzer CE, Ganju VK et al.
Violence and psychiatric disorder in the community: Evidence from
Epidemiologic Catchment Area surveys. Hosp. Community Psychiatry 1990;
17:173-186.
7. Bland R, Orn H. Family violence and
psychiatric disorder. Can. J. Psychiatry, 1986;31:129-137.
8. Federal Bureau of Investigation. Crime in
the United States 1996. Washington D.C.: Department of Justice, 1996.
9. Niehoff D. The Biology of Violence. New
York: The Free Press, 1999.
10. Gauer RMC. Alguns Aspectos da
Fenomenologia da Violência. In: Gauer GC & Gauer RMC, A Fenomenologia da
Violência. Curitiba: Juruá, 1999: 13-36.
11. Damásio A. O Mistério da Consciência.
São Paulo: Companhia das Letras, 2000:17-52.
12. Damásio A. O Erro de Descartes: Emoção
Razão e Cérebro Humano. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda.
1995.
13. Kerckove D. A pele da cultura.
Lisboa: Relogio D’Água, 1997:218.
14. Morin EP. A Sociedade em busca de
valores. Lisboa: Piaget, 1998.
15. Gauer GJC & Guilhermano TF. Fatores
biológicos associados à conduta agressiva. In: Gauer GC. Agressividade:
Uma Leitura Biopsicossocial. Curitiba: Juruá, 2001:11-38.
16. Woo-Ming AM, Siever LJ.
Psychopharmacological Treatment of Personality Disorders. In: Nathan PE,
Gorman JM. A Guide to Treatments that Work. New York: Oxford University
Press, 1998:554-567.
17. PEREIRA, L.A. Ética, Bioética e Perícia.
Revista AMRIGS. Abril 2005.
18. American Psychiatric Association. Task
force on nomenclature and statistics. Diagnostic and statistical manual
of mental disorders. 4. ed. rev. Washington: American Psychiatric
Association, 2000.
19. Vasconcellos SJL & Gauer GJC. Diferentes
Concepções sobre Etiologia do Transtorno de Personalidade Anti-Social.
In: Gauer GJC & Machado DS. Filhos & Vítimas do tempo da violência.
Curitiba: JURUÁ, 2003:100-105.
20. Damasio AR, Tranel D, Damasio H.
Individuals with sociopathic behavior caused by frontal damage fail to
respond autonomically to social stimuli. Behav Brain Res, 41, 81-94,
1990.
21. Gauer GJC & Cataldo Neto A. Transtorno de
Personalidade Anti-Social. IN: Cataldo Neto A, Gauer GJC, Furtado NR.
Psiquiatria Para o Estudante de Medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
22. Black DW. Bad boys, bad men: confronting
antisocial personality disorder. New York: Oxford University Press,
1999.
23. Gauer GJC, Diefenthaeler EC, Ceitlin LHF.
Transtorno de estresse pós-traumático. In: Cataldo Neto A, Gauer GJC,
Furtado NR. Psiquiatria Para o Estudante de Medicina. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2003.
24. Gauer GJC. Personalidade e Conduta
Violenta. CIVITAS 2001; 1, 2:45-65.
25. Gauer GJC et al. Transtorno do Humor.. In:
Cataldo Neto A, Gauer GJC, Furtado NR. Psiquiatria Para o Estudante de
Medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
26. Gracia D. Ética y vida: Ética de Los
Confines de La Vida. Santa Fé de Bogotá: El Búho, 1998. v.3.
27.
Clotet J. Por que bioética. Bioética 1993; 1:15-16.
|