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Revista da
AMRIGS Volume 49 No
3: 137 - 216 / Julho - Setembro 2005 BL ISSN
0102 - 2105
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RELATO DE CASO |
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Leishmaniose tegumentar americana: primeiros casos autóctones notificados no
Rio Grande do Sul desde 2001 e revisão da literatura
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Fernanda Razera, Luiz Felipe de Oliveira
Blanco, Renan Rangel Bonamigo |
Introdução
A Leishmaniose Tegumentar
Americana (LTA) é uma doença infecciosa, não contagiosa, causada por
protozoários do gênero Leishmania. Esta patologia constitui um problema de
saúde pública devido a incidência, ampla distribuição geográfica e presença
de seqüelas desfigurantes, destrutivas e incapacitantes (1).
É uma doença endêmica que
predomina em regiões tropicais e subtropicais (1). No Brasil, observa-se uma
expansão geográfica, uma vez que casos já foram notificados em todos os
estados (2).
A LTA já havia sido notificada
como autóctone no início da década de 80, na região noroeste do Rio Grande
do Sul. Porém, até 2001, não havia casos autóctones notificados na região
metropolitana de Porto Alegre.
A finalidade deste artigo é
chamar atenção para a existência desta patologia em nosso meio, a qual
passará a figurar entre o diagnóstico diferencial de outras patologias
comumente vistas.
Relato dos Casos
Caso 1
Paciente feminina, 34 anos,
consultou em setembro de 2002 por lesão ulcerada, odor fétido e pouca
secreção, próximo ao cotovelo esquerdo com dois meses de evolução.
Previamente hígida, sem história de trauma e uso de medicamentos. Natural e
procedente de Porto Alegre (RS), residente na zona urbana da capital e
relatava não ter viajado. O exame dermatológico demonstrou duas lesões
ulcerosas, de bordos infiltrados "em moldura" e fundo granuloso grosseiro,
localizado no cotovelo esquerdo (Figura 1). Presença de linfonodos palpáveis
em região axilar esquerda. Observou-se pequena pápula e eritema no septo
nasal. A avaliação laboratorial inicial não demonstrava alterações;
marcadores virais, bem como investigação para sífilis, foram negativos. O
exame micológico direto, bacteriológico e cultural foi negativo. A
radiografia de tórax apresentava-se sem anormalidades. Foi realizada
biópsia, cujo exame histopatológico mostrou epiderme com padrão
pseudoepiteliomatoso, com infiltrado inflamatório dérmico misto,
principalmente por histiócitos e plasmócitos e presença de microrganismos
(amastigotas) intracitoplasmáticos em histiócitos. Reação de Montenegro foi
de 15 mm de diâmetro e a imunofluorescência indireta com título de 1:20
(reator fraco). Definido o caso como sendo de leishmaniose mucocutânea,
iniciou-se o uso de Antimoniato-N-metil-glucamina. Este foi o primeiro caso
notificado às autoridades sanitárias municipais de Leishmaniose mucocutânea
autóctone na região metropolitana de Porto Alegre.
Figura 1 -
Lesões em cotovelos da paciente
caso 1. Nota-se lesões ulceradas com bordos bem delimitados, “tipo em
moldura”.
Caso 2
Paciente feminina, branca, 58 anos, natural e procedente
de Porto Alegre. Consultou em setembro de 2003 por lesão em dorso com
evolução de dois meses. Negava sintomas no local e trauma prévio, sem
história de viagens a outras localidades. A paciente era hipertensa em
tratamento com hidroclorotiazida e propranolol. Ao exame: lesão em placa,
ulcero-vegetante, com borda papulosa (em moldura), eritemato-violácea de
quatro cm no maior diâmetro. Assoalho da úlcera de aspecto granular (Figura
2). Presença de lesão pâpulo-eritematosa satélite em borda inferior.
Realizada biópsia da lesão com envio de material para AP (o qual evidenciou
a presença da forma amastigota do protozoário) (Figura 3) e para pesquisa
direta e cultural para fungos e micobactérias (ambos negativos), reação de
montenegro (20 mm) (Figura 4), imunofluorescência indireta para
Leishmania (negativa). Realizou tratamento com
Antimoniato-N-metil-glucamina.
Figura 2 – Lesão em dorso da
paciente caso 2.
Figura 3 – Exame
histopatológico. Seta indicando presença de forma amastigota da
Leishmania sp.
Figura 4 – Intradermorreação
de Montenegro com 20 mm de diâmetro.
Caso 3
Paciente masculino, branco, 51 anos,
procedente de Porto Alegre. Iniciou acompanhamento no Ambulatório de
Dermatologia Sanitária em outubro de 2001 com queixa de lesão ulcerada em
perna direita com dois meses de evolução (Figura 5 e 6). Negava outras
patologias, uso de medicações. Sem história de viagens para fora do estado
do Rio Grande do Sul. Realizado exame anatomopatológico que evidenciou
inflamação crônica superficial e profunda com fibrose. Sem evidência de
vasculites ou granulomas, com pesquisa de fungos negativa. Sugeria pioderma
gangrenoso (PG). Paciente iniciou então tratamento com diversas medicações
indicadas para o tratamento de PG com pouca ou nenhuma resposta, inclusive
com surgimento de nova lesão ulcerada em face. Diante da dificuldade
terapêutica e por ser morador de área com outros casos de leishmaniose,
decidiu-se por realizar reação de Montenegro, que resultou em 14 mm, e
imunofluorescência indireta, que era negativa. Iniciado tratamento em 2003
com Antimoniato-N-metil-glucamina com cicatrização completa das ulcerações
(Figura 7).
Figura 5 – Lesão inicial em
perna do paciente caso 3.
Figura 6 – Lesão em face de
paciente do caso 3.
Discussão
As leishmanioses são doenças
infecto-parasitárias que acometem o homem, sendo que apresentam diferentes
formas clínicas dependendo do parasita envolvido em sua etiologia e da
relação do hospedeiro com o mesmo (1,2). A leishmaniose tegumentar americana
(LTA) compreende as formas cutânea e mucosa da patologia (3).
Diversas espécies dos protozoários
Leishmania já foram identificadas como agentes etiológicos da LTA (1). Estes
protozoários possuem um ciclo de vida digenético, vivendo alternadamente em
hospedeiros vertebrado e insetos vetores, estes responsáveis pela
transmissão da Leishmania de um mamífero para o outro (1). Todas as espécies
do gênero são transmitidas pela picada de fêmeas infectadas de dípteros da
família Phlebotominae, pertencentes ao gênero Lutzomyia (no Novo Mundo) e
Phlebotomus (no Velho mundo) (1,3,4). Os flebótomos são freqüentemente
encontrados em ambientes úmidos, escuros, onde têm muitas plantas,
ocasionalmente próximo de casas e são pouco antropofílicos (2,5,6,7).
De acordo com a Organização Mundial de
Saúde, esta doença é endêmica em regiões tropicais e subtropicais de 88
países (1,8,9). Do total de casos já registrados, 90% ocorreram em apenas 6
países: Irã, Arábia Saudita, Síria, Afeganistão, Brasil e Peru (1). Nas
Américas, ocorre do sul dos Estados Unidos da América ao norte da Argentina,
sendo o foco sul-americano mais importante, acometendo todos os países, com
exceção do Chile e Uruguai (1).
A incidência de leishmaniose no Brasil
tem aumentado nos últimos 20 anos em praticamente todos os estados. No
período de 1985 a 2001, a LTA no Brasil vêm apresentando coeficientes de
detecção que oscilam entre 10,45 a 21,23 por 100.000 habitantes. Na análise
da evolução da LTA no Brasil, observa-se uma expansão geográfica, sendo que
no início da década de 80 foram registrados casos em 19 unidades federadas e
nos últimos anos todas as unidades federadas registraram casos autóctones da
doença (2,7,10,11). As regiões do país que apresentam o maior número de
casos de LTA são o Norte e o Nordeste. De acordo com a Fundação Nacional de
Saúde do Brasil, no período de 1997-1999, o Rio Grande do Sul não apresentou
registro de LTA autóctone (3).
A leishmaniose constitui problema de saúde
pública: sua importância reside na alta incidência, ampla distribuição
geográfica e na possibilidade de determinar lesões desfigurantes,
destrutivas e incapacitantes (1).
Até o momento, foram identificadas, no
Brasil, seis espécies de Leishmania pertencentes aos subgêneros Leishmania e
Viannia. A principal é Leishmania (Viannia) braziliensis, encontrada em
todas as zonas endêmicas do país e associada à presença de animais
domésticos. As outras são a Leishmania (Viannia) guyanensis, Leishmania
(Viannia) naiffi, Leishmania (Viannia) shawi, Leishmania (Viannia) lainsoni
e Leishmania (Leishmania) amazonensis (estas espécies predominam na região
norte do Brasil) (1).
Os reservatórios primários do parasita são
os animais silvestres. Porém, os animais que convivem diretamente com o
homem, como o cão e o cavalo, servem, secundariamente, como reservatórios
(3,4,5). Atualmente no Brasil existem dois padrões epidemiológicos
distintos: surtos epidêmicos em áreas de colonização recente, associados à
derrubada de matas e aberturas de estradas. Nesse caso, trata-se de uma
zoonose de animais silvestres, atingindo pessoas que entram em contato com
esses focos (2,3). E o segundo padrão identificável é a leishmaniose de
regiões de colonização antiga, já sem desmatamentos, relacionada ao processo
migratório, ocupação de encostas e aglomerados semi-urbanizados na periferia
de centros urbanos. Neste caso, cães, eqüinos e roedores parecem representar
papel importante como reservatórios do parasita (2). A infecção animal é,
habitualmente, inaparente, sendo encontrados parasitas na pele e nas
vísceras (2).
O período de incubação é, em
média, de dois meses (variando de 2 semanas a 24 meses). A leishmaniose pode
caracterizar-se por lesões exclusivamente na pele (1), as quais iniciam no
ponto de inoculação do parasita, geralmente como pápula eritematosa que
evolui para nódulo (1). Com o desenvolvimento da doença, percebe-se o
polimorfismo das lesões (lesões impetigóides, liquenóides, tuberculosa ou
lupóide, nodular, vegetante e ectimatóide) (1,2). Ulcerações com bordas
elevadas, enduradas e fundo com tecido de granulação grosseira são
apresentações freqüentes da LTA, considerada a forma clássica da lesão com
borda em moldura (1,2,3,4). São, em geral, indolores (3), predomina em áreas
corporais expostas e se instala em pacientes provenientes de áreas endêmicas
ou que estiveram recentemente (1).
Na apresentação cutânea as
lesões podem caracterizar a forma localizada (única ou múltipla), a forma
disseminada (numerosas em várias áreas do corpo) e a forma difusa (rara)
(3,4). Na forma difusa, forma menos comum de apresentação, as lesões são
papulosas ou nodulares, deformantes e muito graves, distribuindo-se
amplamente na superfície corporal, podendo assemelhar-se à hanseníase
Virchowiana (3, 4). Representa o pólo anérgico da LTA (1). As lesões não
cicatrizam espontaneamente e são rebeldes ao tratamento medicamentoso. O
diagnóstico diferencial é feito com a forma disseminada da LTA, que se
caracteriza por múltiplas lesões ulceradas, distribuídas por diferentes
partes do tegumento. Porém apresenta imunidade celular preservada
(intradermorreação de Montenegro positiva) e responde ao tratamento habitual
(1).
Os casos clínicos descritos
neste trabalho bem representam a riqueza de achados clínicos e variabilidade
topográfica possíveis de serem encontradas na Leshmaniose.
O primeiro caso se destaca pela
clássica infiltração "em moldura" e pela presença, nem sempre tão evidente,
dos amastigotas à histopatologia. O caso 2 apresentava lesão no dorso,
localização incomum, possuía também visualização de amastigotas à
histopatologia e uma forte reação de Montenegro, sendo a imunofluorescência
negativa. Já o terceiro paciente possuía uma longa história de tratamento
para pioderma gangrenoso. Esta é uma doença dermatológica que realmente pode
ser incluída como importante no diagnóstico diferencial da Leshmaniose, pois
freqüentemente ocasiona ulcerações nos membros inferiores, tal qual a
protozoonose.
O Ministério da Saúde do Brasil
considera que a confirmação dos casos clinicamente suspeitos de Leshmaniose
deverão preencher no mínimo um dos critérios a seguir:
I) residência, procedência ou deslocamento em área com
confirmação de transmissão e encontro do parasita nos exames parasitológicos
direto (material da lesão corado pelo Giemsa ou Leshman é o padrão-ouro) ou
indireto (histopatologia demonstrando o parasita em até 65% dos casos);
II) residência, procedência ou deslocamento em área com
confirmação de transmissão e intradermorreação de Montenegro positiva
(reação de hipersensibilidade tardia, leitura realizada entre 48-72 horas,
com resultado considerado positivo se área endurada maior ou igual a 5mm).
III) residência, procedência ou deslocamento em área com
confirmação de transmissão sem acesso a métodos diagnósticos. Nas formas
mucosas considerar a presença de cicatrizes cutâneas como critério
complementar para confirmação do diagnóstico (3).
Ressalta-se que a
imunofluorescência indireta no soro apresenta resultados variáveis devido à
baixa antigenicidade do parasita ou aos baixos níveis de anticorpos
circulantes. É comumente negativa em infecções recentes (1-6 meses de
evolução) (1).
O diagnóstico precoce é essencial para
que a resposta terapêutica seja mais efetiva e sejam evitadas as seqüelas
deformantes e /ou funcionais (3,4). Os casos apresentados possuíam
característica clínicas e critérios parasitológicos (histopatologia) e/ou
imunológicos (reação de Montenegro) necessários para o diagnóstico.
O antimonial pentavalente (Antimoniato
de N-metil-glucamina), via parenteral, é a droga de primeira escolha. É
indicado para o tratamento de todas as formas de leishmaniose tegumentar,
embora as formas mucosa e mucocutânea apresentem respostas mais lentas e
maior possibilidades de recidiva (3,4,9,12). Há restrições para o tratamento
de pacientes acima dos 50 anos, portadores de cardio, hepato e nefropatias
(3). Exames (hemograma, função hepática e renal, eletrocardiograma) devem
ser realizados anteriormente ao início do tratamento e, após, semanalmente
(3).
As drogas de segunda escolha são a
Anfotericina B e a Pentamidina. Utilizados como preconizados pela OMS (3). O
critério de cura é clínico. Recomenda-se o acompanhamento mensal do paciente
por 3 meses consecutivos após o término do tratamento e deve haver
reepitelização das lesões ulceradas, com regressão total da infiltração e
eritema (1,3). Após estes 3 meses, o paciente deve ser acompanhado
bimensalmente até completar 12 meses do fim do tratamento (1,3).
No período estudado, o primeiro caso
autóctone confirmado de leishmaniose na região metropolitana de Porto Alegre
notificado foi o caso 1. Porém, o caso 3 é o autóctone confirmado com lesões
mais antigas diagnosticado até o momento. Os três casos foram tratados com
antimoniato de n-metil glucamina (Glucantime ®),
sem intercorrências e com cicatrização completa das lesões.
Além destes três casos
acompanhados pelo Ambulatório de Dermatologia Sanitária, já foram
notificados, até o momento, oito casos autóctones na cidade de Porto Alegre.
Todos os casos freqüentavam ou residiam nas imediações da mata nativa nos
bairros Lomba do Pinheiro, Belém Velho, Restinga e Aberta Morros (13)
(Figura 8).
Nestes locais, desde dezembro de 2002,
a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre está realizando capturas
noturnas para identificação dos flebótomos. As espécies capturadas, na
região, foram Lutzomyia neivai, Lutzomyia migonei, Lutzomyia pessoai,
Lutzomyia lanei e Lutzomyia fisheri. Pela acentuada antropofilia, quantidade
de exemplares e distribuição coincidente com a da doença, L. neivai é
considerada a principal suspeita de ser o vetor na região de Porto Alegre
(14).
Este relato de caso chama a atenção
para uma doença praticamente inexistente em nosso meio, e que agora figura
entre os diagnósticos diferenciais de outras doenças cutâneas, como úlcera
varicosa, úlcera arterial, tuberculose, esporotricose, hanseníase,
carcinomas e pioderma gangrenoso.
Agradecimentos
À dra. Francine Batista Costa pela colaboração prestada
ao artigo. À Sônia Thiesen, médica veterinária, responsável na secretaria
municipal de saúde de Porto Alegre pela notificação e dispensação de
medicamentos para leishmaniose, pela disponibilidade em fornecer
informações quando solicitadas.
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Fernanda Razera – Médica residente em Dermatologia
no Serviço de Residência em Dermatologia do Ambulatório de Dermatologia
Sanitária (ADS) da Secretaria Estadual da Saúde/Porto Alegre, RS.
Luiz Felipe de Oliveira Blanco – Médico
Dermatologista e Mestrando em Ciências Médicas pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul.
Renan Rangel Bonamigo – Doutor em Ciências Médicas
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e preceptor da residência
em Dermatologia do Ambulatório de Dermatologia Sanitária – Secretaria
Estadual da Saúde do RS.
* Endereço para
correspondência:
Dra. Fernanda Razera
Rua Líbano 192/101
Bloco S Sala 514
90540-080 – Porto Alegre, RS – Brasil
:
ferazera@ibest.com.br
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