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Revista da
AMRIGS Volume 49 No
3: 137 - 216 / Julho - Setembro 2005 BL ISSN
0102 - 2105
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RELATO DE CASO |
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Acometimento hepático na telangiectasia hereditária hemorrágica
(Osler-Weber-Rendu) – relato de caso |
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Gabriela
Coral, Angelo Zambam de Mattos, Marilia Zanete, Angelo Alves de Mattos |
Introdução
A telangiectasia hereditária
hemorrágica também conhecida como doença de Osler-Rendu-Weber caracteriza-se
por uma displasia fibrovascular visceral e mucocutânea, de transmissão
hereditária autossômica dominante (1,2). A tríade clássica é constituída por
epistaxe recorrente, telangiectasia mucocutânea e transmissão hereditária.
Por outro lado, as malformações vasculares também são freqüentes no cérebro,
pulmões e vísceras abdominais (3), determinando significativa morbidade e
taxas de mortalidade de até 10% (2).
Caracteriza-se por ser uma
doença rara, com freqüência de um caso para cada 2.000 a 4.000 pessoas. Além
disso, o fígado é acometido em menos de 10% dos casos na maioria das séries
relatadas. O envolvimento hepático pode determinar hipertensão portal e/ou
alterações biliares (1).
O objetivo deste estudo é
apresentar um caso em que a investigação de nódulos hepáticos, identificados
por exame de imagem, resultou no diagnóstico dessa rara doença.
Relato de Caso
Paciente do sexo feminino, 38 anos,
procurou atendimento médico por ter sido detectado aumento das
aminotransferases em exame laboratorial. Tinha história de uso irregular de
AINEs por eventual dor em membros inferiores e uso regular de
anticoncepcional oral. Com relação a antecedentes médicos, referia episódio
recente de epistaxe, mamoplastia no passado e febre reumática na infância.
Negava história familiar de doença hepática ou hematológica. Ao exame físico
tinha bom estado geral. Apresentava hiperfonese de bulhas e sopro sistólico
em foco aórtico acessório; hepatomegalia às custas do lobo esquerdo e mácula
violácea no segundo quirodáctilo direito e na ponta da língua.
Nos exames solicitados,
observou-se anemia microcítica. Os leucócitos e as plaquetas apresentavam
níveis normais. O TP era de 100%; albumina: 4,14 gr/dl; gama globulina:
0,93g/dl; BT:0.7mg/dl; BD: 0.3mg/dl; AST: 47 U/L (37), ALT: 74 U/L (65);
GGT:420 U/L (45); FA: 321 U/L (140 u/l). Marcadores virais para hepatite A,
B e C negativos; fator antinuclear e antimúsculo liso não reagentes.
Saturação de transferrina, ceruloplasmina, perfil lipídico,
alfa-1-antitripsina e alfa-fetoproteína normais. A endoscopia digestiva alta
evidenciou telangiectasias gástricas localizadas no antro. A
ultra-sonografia abdominal demonstrou fígado aumentado de volume com aspecto
nodular (principalmente em lobo esquerdo) e presença de fístula
artério-venosa entre o tronco celíaco e a veia porta. A tomografia
computadorizada de abdome concluiu por hepatomegalia com lesões multifocais
hipervascularizadas sugerindo neoplasia hepática primária ou secundária. A
angiografia evidenciou vasos hepáticos tortuosos com intensa
neovascularização e artéria hepática direita ectásica emergindo da aorta.
Realizou-se biópsia hepática para exclusão de neoplasia, evidenciando
expansão fibrosa dos espaços porta, presença de vasos anômalos, espessamento
e ectasia de ramos da artéria hepática, proliferação anormal de vênulas e
dilatação de sinusóides.
Discussão
Estudos genéticos em famílias
com telangiectasia hereditária hemorrágica identificaram mutação em dois
genes relacionados a receptores da superfamília do TGF-beta (transforming
growth factor-beta) (4). A malformação decorrente consiste em um
desenvolvimento vascular anormal, em que o evento mais precoce parece ser a
dilatação das vênulas pós-capilares. Estas posteriormente conectam-se a
arteríolas formando as fístulas artério-venosas (5).
A apresentação clínica mais
comum é a epistaxe, que ocorre em aproximadamente 90% dos pacientes, sendo
usualmente o primeiro evento hemorrágico (6). Por outro lado, as
telangiectasias maculares cutâneas afetam em torno de 70% dos pacientes e
raramente desenvolvem-se antes da segunda ou terceira década de vida (3).
O que chama a atenção no caso em tela
é a presença de hepatomegalia nodular, que provavelmente está relacionada à
presença de fístula artério-venosa entre o tronco celíaco e a veia porta;
conforme descrito por Bernard et al. (7).
A hipertensão portal ocorre em
aproximadamente 30% dos pacientes, sendo dois os mecanismos principais –
formação de fístulas artério-venosas com conseqüente aumento do fluxo
sangüíneo e transformação nodular no parênquima (hiperplasia nodular
regenerativa) (1,3).
Outro achado comum, presente em até 73% dos
casos, é uma colestase anictérica caracterizada por elevações de fosfatase
alcalina e gama glutamiltranspeptidase (8). A despeito de não haver
colestase do ponto de vista histológico, observamos, no presente caso, alta
destas enzimas.
Para o diagnóstico de
Osler-Rendu-Weber, se faz necessário, no mínimo, dois dos seguintes
critérios: epistaxe, telangiectasia mucocutânea, história familiar da doença
e envolvimento de alguma outra víscera (9). No caso em discussão, além do
envolvimento hepático, a paciente apresentava telangiectasia em pele e
mucosa e epistaxe, mas não apresentava história familiar. Entretanto, em
mais de 20% dos casos, não há relatos prévios da doença na família (10).
À ultra-sonografia com freqüência são
observados aumento das artérias hepáticas e alterações de parênquima. Estas
últimas podem mimetizar tumores (7,11). No caso por nós estudado, este exame
evidenciou a presença de fístula artério-venosa entre o tronco celíaco e a
veia porta e fígado aumentado de volume com aspecto nodular.
Os achados típicos da tomografia
computadorizada são dilatação da artéria hepática (71%), enchimento precoce
das veias hepáticas (85%) e fígado pseudonodular (15%). Com relação ao
último achado, o diagnóstico diferencial inclui hemangioma, hemangiosarcoma,
carcinoma hepatocelular e lesões metastáticas (3). No caso aqui apresentado,
o diagnóstico tomográfico sugeriu carcinoma hepatocelular ou metástases.
Quanto à angiografia, observa-se, em
geral, um dos seguintes aspectos: dilatação da artéria hepática,
telangiectasia intra-hepática disseminada ou opacificação precoce das veias
hepáticas (7). No doente em questão a angiografia evidenciava dilatação da
artéria hepática direita associada a tortuosidade de vasos e intensa
neovascularização.
Inicialmente, Martini et al. (12)
subdividiram o envolvimento hepático, do ponto de vista histológico, em três
tipos: 1 – telangiectasia associada à cirrose ou fibrose, 2 – cirrose sem
telangiectasia, 3 – telangiectasia sem fibrose ou cirrose. Hoje, sabemos
que, possivelmente, muitos casos pertencentes ao segundo grupo
representassem hepatopatia sobreposta, especialmente hepatite
pós-transfusional.
Por outro lado, a alteração mais
freqüentemente descrita é o aumento do tecido fibroso no espaço porta, o que
parece ser, pelo menos em parte, secundário à proliferação de tecido
conjuntivo de pequenos vasos e/ou à existência de micro tromboses nesta área
(13). Em fases mais avançadas, pode-se encontrar hiperplasia nodular
regenerativa, a qual se caracteriza pela presença de áreas de regeneração e
atrofia de hepatócitos (14). Outros tipos de lesão podem ser vistos e
incluem estruturas arteriais e venosas ectásicas em espaços porta e
dilatação sinusoidal.
No caso em discussão, a biópsia
hepática excluiu neoplasia e evidenciou alterações que poderiam ser
classificadas, segundo Martini, como telangiectasia associada à cirrose ou
fibrose.
O tratamento habitual do envolvimento
hepático é conservador, a menos que ocorram complicações (3). Recentemente,
foi publicado uma série de cinco casos submetidos à embolização por via
transfemoral. Os resultados foram melhora dos sintomas e prevenção de
insuficiência cardíaca por queda significativa do débito cardíaco (15). Em
casos de doença hepática grave, o transplante pode ser indicado (16).
O envolvimento hepático na
telangiectasia hereditária hemorrágica é infreqüente. No caso apresentado, a
biópsia hepática evidenciando fibrose associada à telangiectasia foi
necessária para exclusão de outras doenças e confirmação da hipótese
diagnóstica, o que enaltece seu papel no diagnóstico diferencial das
hepatopatias.
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Gabriela Coral – Doutora em Patologia Hepática pela
USP.
Angelo Zambam de Mattos – Acadêmico de Medicina
pela FFFCMPA.
Marilia Zanete – Mestre em Hepatologia pela
FFFCMPA.
Angelo Alves de Mattos – Professor Titular da
disciplina de Gastroenterologia da FFFCMPA/ISCMPA.
Serviço de Gastroenterologia Clínica e Cirúrgica da
Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (ISCMPA) / Curso de
Pós-Graduação em Hepatologia da Fundação Faculdade Federal de Ciências
Médicas de Porto Alegre (FFFCMPA)/ISCMPA.
* Endereço para
correspondência:
Gabriela Perdomo Coral
Ten.-Cel. Fabrício Pillar, 179/501
90450-040 – Porto Alegre, RS – Brasil
Tel: (51) 9901-8690
:
g.coral@terra.com.br
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Fernanda Razera – Médica residente em Dermatologia
no Serviço de Residência em Dermatologia do Ambulatório de Dermatologia
Sanitária (ADS) da Secretaria Estadual da Saúde/Porto Alegre, RS.
Luiz Felipe de Oliveira Blanco – Médico
Dermatologista e Mestrando em Ciências Médicas pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul.
Renan Rangel Bonamigo – Doutor em Ciências Médicas
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e preceptor da residência
em Dermatologia do Ambulatório de Dermatologia Sanitária – Secretaria
Estadual da Saúde do RS.
* Endereço para
correspondência:
Dra. Fernanda Razera
Rua Líbano 192/101
Bloco S Sala 514
90540-080 – Porto Alegre, RS – Brasil
:
ferazera@ibest.com.br
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